A VIDA É DIALÉTICA
Valdir Sodré dos Santos
Mais de um
século se passou, mas o bom e velho Marx permanece vivo entre
nós, com suas incríveis idéias na busca de compreender a nossa
vida.
Na verdade, a ciência, a religião,
enfim todos os homens, têm o mesmo objetivo: a felicidade.
Vale ressaltar que felicidade não é uma constante. Ela se
parece muito mais com uma consoante. Ela funciona como a
eletricidade, que nos indica o caminho a seguir a partir
daquilo que nos faz necessário. Mas um dia essa luz se apaga,
de alguma maneira. E o que fazer quando não temos essa luz
para nos indicar para onde ir? A partir daí precisamos ter
sabedoria.
Sabedoria deve ser nosso Deus
feminino. E ela não é somente racional. Ela é a própria força
da natureza, que nos dá a certeza de que podemos transformar
realidades sem perder o chão nos momentos que pensamos que não
há mais caminho. Ela está na velha árvore em frente a sua casa
que desafia o tempo, o espaço e a própria vida. Repare a
sabedoria daquele seu velho cão de estimação, que quando era
jovem abanava o rabo e lhe lambia toda vez que você aparecia.
Hoje este sábio animal prefere estar do seu lado, quase
intacto, enquanto você lê as notícias de jornal. De vez em
quando ele abana o seu rabo, só para dizer para você que ele
está prestando atenção em você.
As diversas ciências têm buscado um
sentido mais antropológico para suas teorias e aplicações.
Afinal, precisamos perceber que além de sermos racionais,
somos acima de tudo seres vivos e que a racionalidade não nos
dá o direito de nos sentirmos os mais importantes. Somos parte
desse todo e temos a capacidade de entender o que está
exposto. Portanto, para termos sabedoria precisamos respeitar
o outro, mesmo que este não seja tão humano quanto somos.
Humanizar talvez indique o caminho e não realçar somente o
caráter de hominalidade.
Nesta perspectiva, podemos ter a
clareza de que não podemos menosprezar nossos problemas,
nossas tristezas e insatisfações. Eles quem dão cor e sentido
a nossa vida. Os problemas existem para que possamos viver.
Eles não são motivos para não-viver, muito menos morrer.
Somente damos a real dimensão daquilo que é bom na nossa vida
a partir daquilo que é ruim. As coisas boas da vida existem
porque as coisas ruins existem. Não existe uma coisa ou outra.
A vida é dialética.
Como é bom saber que mudar de opinião
não é falta de personalidade, mas pode ser uma forte presença
de sabedoria.
Como é bom saber que sabedoria é
semeadura e que o bom e velho Marx foi, é e sempre será sábio.
Mas sabedoria não é patrimônio pessoal. Ela deve ser
socializada e desfrutada por todos aqueles que nos cercam,
para dá-la um sentido prático e verdadeiro. Ela não domestica.
Ela constrói sem descartar o que já aconteceu ou foi feito. A
sabedoria também é dialética.
Melhor ainda é estar agora, nesse
momento, escrevendo estas poucas linhas, enquanto tomo um belo
copo de vinho tinto regado a clima ameno de inverno tropical,
utilizando meu moderno computador, mas lembrando da uva que me
deu esse vinho, do verão que amo, do meu velho caderninho de
escritos, do lápis apontado com a faca e do tempo que ainda há
de vir para escrever outras linhas de um aprendiz da vida.