A casa dos grandes pensadores
 
 
 

VALDIR SODRÉ DOS SANTOS

 

 

 

Culpabilidade: contingência da existência humana

Valdir Sodré

              O ser humano ainda é e sempre será o objeto de conhecimento mais instigante que existe.

             Somos uma máquina perfeita, dotada de uma tecnologia de ponta, sustentada por um corpo e por um campo subjetivo, que a racionalidade humana não decodifica e não decifra, por completo, os segredos desse referencial inter e intrapessoal da gênese da existência terrena.

             É por essa perfeição que navega todos os códigos da imperfeição, que determina o movimento e o equilíbrio dos campos de forças antagônicos e dialéticos que nos compõem. Adquirimos o livre arbítrio pelo discernimento necessário. Sustentamos os sonhos de vida na certeza comum da morte. Buscamos felicidade e qualidade de vida mesmo sabendo que não existam momentos bons permanentes. Preenchemos lacunas do indivisível na crença do movimento da vida na busca de horizontes. Somos jovens e velhos. Somos portas e trancas do destino incalculável da incompreensão. Sofremos para sermos felizes. Somos diferentes para sermos iguais.

             Nessa aventura do tempo em que ainda respiramos, dificilmente aceitamos as dores e os sofrimentos construídos pelas opções que fizemos no percurso da vida em consonância com a educação dos nossos pais, entre acertos e respeito ao que somos e erros que machucam nossas almas.

             O homem ignorante normalmente não constrói estruturas de pensamentos em busca de explicações naquilo que ocorrera na construção da moldura que somos. Conforme Sócrates preconizara, o reconhecimento da ignorância é o início da sabedoria. Tal atitude humana, que exprime a incompletude da racionalidade humana, revela o artifício da explicação sob um olhar científico e que ainda não representa a compreensão minuciosa do mistério da vida.

             O homem do conhecimento, como peça desse jogo dialético de viver, sofre muito mais pelo que sabe e reflete. Como homens do mundo contemporâneo, entre informações e conhecimentos, construímos sofrimentos conseqüentes da sede da explicação do fenômeno da vida. Buscamos afirmação ao destino da busca de conhecimento e esquecemos que a vida, antes rural, semeava simplicidade e princípios mais soberanos e substancialmente humanos.

             A partir desse olhar analítico e crítico, aprendemos que não somos auto-suficientes e superlotamos consultórios terapêuticos, acreditando que alguém possa fazer aquilo que não conseguimos modificar por força das escolhas requeridas a partir daquilo que nos gerou e determinou o que somos.

             A culpabilidade, sentimento consciente que tenta explicar os fatos indesejáveis, é contingência da existência humana, revelando-se na consciência da falta e provocando uma angústia suscetível de buscar a transcendência divina. A psicanálise a assume como dor e patologia, associando-a ao complexo de Édipo ou a uma exigência moral criada pelo superego.

             A culpabilidade, portanto, se constitui como fenômeno vital na dialética da construção do conhecimento e do que somos. Apesar da certeza do erro ao buscar entendimento externo e anterior, admitindo a culpa como força motriz da (in) felicidade construída, não enxerga horizontes possíveis e novos que desafiam nosso campo epistemológico e permanentemente transformador, que move a máquina “perfeita” para o caminho do futuro.

             Perpetuar a nossa espécie representa uma face da ignorância humana. Justificar as opções humanas na complexidade do tempo representa mais uma face da ignorância racional e científica do homem.

             Dotar-se dessas forças antagônicas em si, consolidando o equilíbrio humano, ainda é desafio para os homens, para o processo ontológico e criativo, para todas as filosofias e para todo ser humano que viola o instituído, na sede evolutiva de instituir novos desejos instigantes, ignorantes e racionalmente humanos.

Valdir Sodré dos Santos

Publicação: www.paralerepensar.com.br  13/11/2008