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ENTRE A LOUCURA E A LUCIDEZ: PARA NÃO VIVER
MAIS OU MENOS
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Valdir
Sodré
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Quando Paulo falava
aos sábios de Atenas sobre a sabedoria de Deus eles o acharam
louco, mas para Deus, o apóstolo é que era sábio e os outros eram
tolos e insensatos (Atos 17.18-31). Porque "Deus escolheu as
coisas loucas do mundo para confundir os sábios; e Deus escolheu
as coisas fracas do mundo para confundir as fortes; e Deus
escolheu as coisas ignóbeis do mundo, e as desprezadas, e as que
não são, para reduzir a nada as que são; para que nenhum mortal se
glorie na presença de Deus. Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o
qual para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e
santificação, e redenção; para que, como está escrito: Aquele que
se gloria, glorie-se no Senhor" (I Coríntios 1.27-31).
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Num movimento
histórico em espiral, quebrando paradigmas e modelos cartesianos,
podemos contrastar tal passagem bíblica de um “louco” que escreveu
um dos mais belos escritos da humanidade, que aprendeu o que é o
amor, com o respeitável músico brasileiro Lobão, que afirmara, na
música Abalado, que “a loucura é tão clara quanto o escuro
da lucidez”. Esse recurso filosófico e diacrônico traduz um
pensamento infratextual e intertextual sobre o comportamento
histórico-evolutivo-cultural do homem.
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Afinal a loucura é um
julgamento pedagógico dentro de um contrato social (Rousseau) que
beneficia a que grupo social?
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Tudo que é pedagógico
é intencional. O paidogogo, que era o escravo que conduzia
as crianças na Grécia Antiga, na contemporaneidade ainda é um
escravo ou um anestésico social, que nos faz acreditar que tudo
que julgamos é normal?
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A professora Maria de
Lourdes Chagas Deiró Nosella, no belíssimo livro As Belas
Mentiras – A Ideologia Subjacente aos Textos Didáticos
(dissertação de Mestrado), ao analisar a escola apresentada nos
livros didáticos brasileiros, conclui que as descrições dos livros
não dizem “absolutamente nada sobre a escola” (NOSELLA, 1981, p.
64). Pior ainda, não abordam “o que é o mais importante: o tema
das relações sociais dentro da escola e desta com o resto da
sociedade”.
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Ampliando esse campo
multirreferencial, respeitando o movimento sincrônico, transpomos
o universo educativo, moralista, intencional e científico às
patologias que hoje fazem sofrer milhões de seres humanos no
mundo. Dentre as 10 (dez) patologias mais incapacitantes no ser
humano, segundo a Organização Mundial de Saúde, 6 (seis) são
direta ou indiretamente ligadas a problemas psíquicos, mentais,
emocionais e/ou afetivos. Afinal, qual é a ideologia subjacente,
infratextual e intertextual que provoca estas doenças
comportamentais, que abalam o íntimo da humanidade, que não
constroem felicidade, qualidade de vida e bem-estar humano? Qual é
o sentido pedagógico desse percurso evolutivo e histórico, que é
alimentado por uma mídia que afirma categoricamente que a
expectativa de vida aumenta cada vez mais, sob o manto do
desrespeito ao idoso, “que trabalhou honestamente a vida inteira e
agora não tem mais direito a nada” (Renato Russo)?
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Podemos pensar que,
assim como a democracia capitalista difere grandiosamente da
democracia grega e da democracia socialista, a sabedoria de Deus é
infinitamente diferente da sabedoria humana. Sabedoria não é
conhecimento e muito menos informação. Não podemos fazer de dados
estatísticos de pesquisas de opinião, e não científicas, tão
exploradas em programas de auditório aos domingos, sejam cortinas
de ferro que sustentam um modelo de mundo que provocam doenças na
alma humana em detrimento de uma pseudo-felicidade, já que se
estrutura como mercadoria. Essa falsa impressão de poder se
condensa nos versos da música Minha Alma – A Paz que eu não
quero, do grupo O Rappa: “as grades do condomínio vão
trazer proteção, mas também trazem a dúvida se é você que está
nessa prisão”.
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Afinal, quem é o
paidagogo: o oprimido, o opressor ou todos nós?
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Dentre as patologias
do século XXI, supracitadas, o alcoolismo e a depressão são
apontados como doenças que dominaram este ranking daqui a
algumas décadas. Vale ainda destacar os transtornos mentais, como
o Transtorno Bipolar, que é caracterizado por uma variação extrema
de humor. Já existem estudos científicos que apontam que cerca de
5% da população mundial tem essa patologia e que, na verdade, tais
seres humanos são vítimas da criatividade, pois normalmente são
muito inteligentes, não aceitam imposições e padrões sociais,
apresentam dotes artísticos variados e são potencialmente
didáticos e inteligíveis. Dentre alguns historicamente conhecidos,
podemos citar Van Gogh, Rimbaud, Gandhi, Schumann, Kant, Picasso,
Tchaikovsky e, também, São
Paulo (Coríntios). Todos foram considerados gênios. Todos tiveram
algum problema com álcool, drogas, suicídio ou qualquer
comportamento “anormal”.
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Vale ressaltar
ainda contundentemente que o álcool, que é considerada uma droga
lícita e que causa uma das 10 doenças humanas mais incapacitantes,
faz tão mal aos seres humanos como qualquer outra droga ilícita.
Então, por que o álcool é liberado e a maconha ou cocaína, por
exemplo, não são? Não é que as outras drogas devem ser liberadas.
Refletindo paradoxalmente, portanto nenhuma droga deveria ser
lícita. A que grupo social isso interessa?
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Ao expor o assunto
drogas, não diferentemente, devemos lembrar das drogas, que
encontramos em qualquer drogaria perto de casa. Por que existem
tantas drogarias? Esse arsenal de drogas lícitas é interesse do
mesmo grupo social de manutenção do status quo de
sociedade, que julga o álcool como droga lícita?
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Contrastando drogas
e transtorno bipolar, o tratamento que existe é estabilizador de
humor, conjugado com antidepressivos e psicoterapia, especialmente
a cognitivo-comportamental de Skinner.
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Tudo isso é
violência simbólica, visto que estabilizador de humor é
reconstruir uma vida, com frieza, sem graça e sem emoção, fazendo
com que esses seres humanos geniais não incomodem os interesses
burgueses, já que não podem ser criativos. Tais medicamentos
estabelecem mecanismos bloqueadores neuro-bioquímicos que
impossibilitam juízo de valor sobre aquilo que externamente
percebemos em contato com o que somos e pensamos.
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A intuição é base
da criatividade, que não é um exercício racional. Já a percepção,
que se consubstancia passando pelos sentidos, é um exercício
racional, que julga aquilo que externamente nos é apresentado em
contraste com o que somos e pensamos.
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Bloqueadores e
estabilizadores não nos oportunizam juízo de valor e, portanto se
temos esses transtornos, não podemos ser o que somos. Temos que
ser o que os outros querem o que nós sejamos. Isso é viver? Isso é
evolução?
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Por fim, essas
drogas “lícitas” alimentam uma das maiores indústrias de
interesses burgueses, capitalistas e desumanos: a indústria
farmacêutica.
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Podemos pensar que
ser louco é ser diferente. Não podemos aceitar que qualquer
pensamento seja normal. Existem formas criativas de pensamento
humano, porém doentes, que não respeitam a vida, o próximo e a
perpetuação da espécie humana. Portanto, devem ser tratadas, porém
jamais abominadas. Se ao usarmos a nossa criatividade de forma
inadequada, a concepção construtivista de ciência, que comunga o
inatismo com o ambientalismo, justifica que o paidagogo é a
personagem de um necessário resgate histórico. Incluir essas
pessoas socialmente é desafio da contemporaneidade e necessidade
diante do caos social construído por esse modelo de mundo que não
admite sonhos e felicidades coletivas e em comunhão.
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Diante desse
movimento histórico, diacrônico e em espiral, pergunto: “como pode
um homem renascer, sendo velho”? (João 3, 3). “Ora, este é o
julgamento: a luz veio ao mundo, mas os homens amaram mais as
trevas do que a luz, pois as suas obras eram más. Porquanto todo
aquele que faz o mal odeia a luz e não vem para a luz, para que
suas obras não sejam reprovadas. Mas aquele que pratica a verdade,
vem para a luz. Torna-se assim claro que as suas obras são feitas
em Deus” (João 3, 19-21).
Valdir
Sodré dos Santos
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
19/12/2008
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