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VALDIR SODRÉ DOS SANTOS

 

 

 

              

HOMENS-GOLFINHOS: UMA INTELIGÊNCIA NATURAL

Valdir Sodré

www.paralerepensar.com.br/valdirsodre.htm

Dedicado ao amigo Professor-Doutor Estevão Monti

                Inteligência é um termo genérico que se relaciona a entendimento, razão, solução de problemas, abstração, memória, seleção de dados, previsão, analogia, simbolização, criatividade, adaptação, sensibilidade, sentido, aprendizagem, signos, educação, capacidade, comunicação, expressão, desenvolvimento e realidade, dentre inúmeras outras faculdades comportamentais viventes humanas ou não.

                Estudar a inteligência na contemporaneidade é buscar respostas claras, evidentes e inteligíveis a diversas questões que inquietam e afligem a humanidade, o planeta e o cosmos, para nos contemplar e gerar um sentido humano aos fatos recorrentes.

                Diversos teóricos e estudiosos da humanidade, sejam contemporâneos ou não, contribuíram nesse debate fervoroso e sempre instigante. A maiêutica socrática nos dá sustentação e certeza de nossa própria ignorância. A escolástica medieval veicula a inteligência entre realidade e dom divino. A Psicologia, que é uma ciência recente e com pouco mais de 100 anos, tem alicerçado o estudo da inteligência à criatividade. Gardner mapeou as inteligências múltiplas e o quociente de inteligência (QI) deixou de ser o padrão social. Surge o Quociente Emocional (QE). Augusto Cury, com enorme inteligibilidade, sensibilidade e compromisso social, nos aponta a perspectiva da Inteligência Multifocal.

Podemos acreditar que inteligência não possa ser medida somente pelo que sabemos, pelo que estudamos, pelo que (re) conhecemos e (re) aprendemos ou pelo que ensinamos, nem pelos diplomas que temos ou não temos. Ademais, que essa capacidade extraordinária não é particularidade somente da raça humana.

                Particularmente, sempre acreditara que a inteligência possa, sobretudo, ser medida pelo que fazemos com tudo que sabemos, com tudo que estudamos, (re) conhecemos e (re) aprendemos e/ou pretensiosamente possamos ensinar de forma prática, efetiva e transformadora em nossas vidas, com o que somos, onde estamos e com o que temos. Portanto, inteligência tem pilares fundamentais: sabedoria, comunhão e espírito de sobrevivência permanente. Enquanto seres humanos, a sabedoria é fonte-prima, comunhão se dilui em solidariedade, multiculturalismo e respeito mútuo e espírito de sobrevivência se constituí em autoconhecimento e diálogo com Deus, num processo paralelo ao conhecimento construído historicamente pela humanidade, e num sentido totalmente inverso e desnecessário ao poder e a todas as formas de imposições humanas, inclusive as culturais.

Diplomas podem ser vistos como simples papéis e exigências “legalmente” preconceituosas e excludentes de uma sociedade moderna, capitalista e injusta. E aquelas pessoas, que nunca freqüentaram um banco de escola, excluídas de todas as formas, mas que sabiamente solucionam problemas cotidianamente de maneiras geniais e por não terem nenhum diploma e/ou por serem analfabetas não são consideradas por muitas como detentoras de enorme inteligência? Quem disse que uma costureira não tem conhecimentos geométricos e seu trabalho não valor e não exige desprendimento de grande inteligência?

Nessa reflexão, associamos inteligência a trabalho. É impossível, assim, esquecer-se de Marx, ao diferenciar a aranha de um exímio tecelão e a abelha de um grandioso arquiteto, afirma que primeiramente construímos a nossa casa em mente para depois construí-la concretamente, apesar da perfeição da teia da aranha e da colméia da abelha.

                Essa atmosfera de biodiversidade maravilhosamente inteligente e complexa dos seres vivos consolida um repensar sobre nossos comportamentos, observando particularmente o comportamento dos golfinhos...

                “O Golfinho é o guardião do sopro sagrado da vida que nos ensina a modular nossas emoções pelo ritmo de sua respiração, ele cria seu próprio ritmo vital ao nadar em meio às ondas, emergindo a intervalos regulares para respirar e submergindo novamente, mantendo o fôlego enquanto permanece sob a água. Quando o golfinho emerge, expele o ar de forma vigorosa e nós também podemos empregar a mesma técnica para expelir nossas tensões e obter o relaxamento total antes de penetrarmos no silêncio para meditar [1].

                Assim, agora podemos então acreditar que a inteligência possa ser medida pelo que somos a partir do que fazemos, sabemos, estudamos, conhecemos, aprendemos, experimentamos, comportamos...

                A inteligência, portanto, não é somente habilidade do ser humano, mas parte importante de todo ser vivo, que busca sua evolução, adaptação e comunicação.

                Quantos pesquisadores já afirmaram que o golfinho é um dos seres vivos mais inteligentes que existem! “Nenhum animal, exceto o homem, tem uma variedade tão grande de comportamentos que não estejam diretamente ligados às atividades biológicas básicas - alimentação, reprodução e proteção. Viver em grupos e sua inteligência são traços característicos. Todos são nadadores privilegiados e, às vezes, saltam até cinco metros acima da água. Podem nadar a uma velocidade de 61 km/h” [2].

Porém muitos de nós, seres humanos e racionais, não sabemos usar a inteligência de forma verdadeiramente adequada e coerente com que somos e onde estamos. Certamente os golfinhos têm muito a nos ensinar e a nos desafiar nessa atmosfera subjetiva do mundo da inteligência.

                Podemos viver alguns dias sem água e sem comida, mas sem oxigênio é impossível. Na velocidade da vida contemporânea, pensamos que a sede é acabada com água gelada e em grandes doses de copos de água. Porém “matamos” a sede na boca, com pequenos goles e preferencialmente com água natural. Engolimos a comida, com a oferta de pratos calóricos, sem um número de mastigações necessárias em cada garfada. Esquecemos que “matamos” a fome na boca e não no volume de comida. Engordamos, para dar conta do tempo, sem ter tempo de prestarmos atenção em nós mesmos. Ancoramos no sedentarismo e na ausência de autoconhecimento para deixarmos de viver verdadeiramente.

                Para darmos sentido ao que bebemos e ao que comemos, precisamos olhar para nós mesmos. A forma mais simples e original que existe para esse exercício é apenas atentarmos na forma como respiramos.

                Respirar é um dos grandes segredos do bem viver...

                Enfim, os números que mais comumente encontramos na natureza não são os números naturais (aqueles que usamos para contar), nem os inteiros (positivos ou negativos; esqueçam das suas contas bancárias e da mão invisível capitalista!) e muito menos os racionais (aqueles que podem ser fracionários [positivos ou negativos], inteiros ou naturais; as dízimas periódicas podem ser transformadas em frações, como 0,333... = 1/3).

Os números mais presentes na natureza são os irracionais, aqueles números decimais infinitos, não-periódicos e que não podemos transformá-los em frações, como a razão áurea (aproximadamente igual a 1,618...), que está na Monalisa, nas pirâmides egípcias, na Catedral de Notredame, no girassol e no seu cartão de crédito. Como gostamos de cartões de crédito, mas nem percebemos que respiramos enquanto os usamos!

                Em prol de uma inteligência natural, e não para uma inteligência artificial, divida a medida do comprimento pela altura de um de seus cartões de crédito. Respire cada vez mais devagar ao descobrir o resultado...

                Homens-golfinhos são mulheres, crianças, idosos, idosas e homens que respiram quando constroem suas casas em mente para construí-las a posteriori pela, para e por vida. Homens-golfinhos modulam suas emoções pelo ritmo de sua respiração. Elas e eles criam seu próprio ritmo vital ao nadar em meio às ondas e tempestades, emergindo a intervalos regulares para respirar e submergindo novamente, mantendo o fôlego enquanto permanece sob a realidade. Quando emergem, expelem o ar de forma vigorosa...

Valdir Sodré dos Santos

Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 18/04/09