A casa dos grandes pensadores
 
 
 

VALDIR SODRÉ DOS SANTOS

 

 

 

              

LEITURAS DAS CONJUNTURAS ATUAIS E RECORRENTES
Valdir Sodré
 
 
                A ciência já provara que se nada fizermos, nas próximas décadas vindouras, numa lógica de desenvolvimento sustentável, irreversivelmente o nosso planeta morrerá.
                Isso significa que nada que existe tem significado, se não conscientizarmos de cuidarmos do nosso ambiente, do nosso mundo, da nossa casa.
                Nesse momento não é o planeta que pede socorro. Cuidar do ambiente é cuidar de nós mesmos, salientando que também somos ambiente. Cuidar de nós mesmos é cuidar da vida, dos sonhos, da esperança, dos desejos de futuro. Cuidar da vida é cuidar dos desígnios de Deus. Cuidar dos desígnios de Deus é dar sentido pleno às nossas vidas, sem necessidade de exercício racional. É dispor a alma numa sintonia serena entre o que existe e o que sonhamos. É não aceitar a violência, o desmatamento, as queimas das florestas, os desastres automobilísticos, as balas perdidas urbanas, as guerras, as fronteiras, os preconceitos, o aborto, o desamor, as invejas, as intrigas, a não-assinatura do tratado de Kyoto, as bombas atômicas, a faixa de Gaza, os êxodos de guerra, as indiferenças, o desespero, a injustiça, as barbáries, o aquecimento global, os degelos polares, a extinção de animais, os casacos de pele, a falta de água potável, a fome, a miséria, a desigualdade, o poder, a desumanidade...
                Penso, sem medo de errar, que o mundo momentaneamente está salvo! Vivemos nesse momento um bom momento...
                A eleição de Obama é extremamente importante, apesar de não acreditar nele. Certamente que não é na figura de um homem que encontraremos a salvação. Não acredito, na contemporaneidade, numa genialidade individual. Percebo que a genialidade no século XXI se apresentará coletivamente.
                Os detalhes pormenorizados dessa transição são o que fazem ressoar novas formas de esperança. Tais detalhes não estão na negritude e na descendência africana deste 44º presidente norte-americano. Os vestígios de esperança estão na aceitação fervorosa do presidente ultra-direitista francês, comungada com os votos fraternos e solícitos do povo francês. Faz-me recordar da Revolução Francesa despojada no discurso neo-neoliberal de Obama ao proclamar o renascimento da liberdade, entoada nos pensamentos de Lincoln e King.
                Ressalto que o “parecer ter” neoliberal passa a ter um novo referencial. Parecer ter neo-neoliberal suspira desejos de vida, de sustentabilidade social, ecológica e verdadeiramente humana.
                Nesse cenário, percebo que as grandes lideranças mundiais estão depositadas entre os Estados Unidos da América, França e Brasil.
                Alguma coisa aconteceu na nova lógica da ordem mundial.
                O verbo que entoa é necessariamente ecológico. O verbo “ser”, sufocado pelo “ter” e amordaçado pelo “parecer ter”, sobrevive e ressurge mais forte e intimista. “Ser” não está nas quatro estações de Vivaldi nem na anti-música que deu certo, que é o Rock. Não necessita de uma escada para o céu, nem de domingos sangrentos.
                Qual é a ordem mundial?
                Não existe ordem onde não se possa dominar. A geografia pode servir para fazer guerra, segundo Lacoste, mas em nome do amor (in the name of Love) somos guiados por uma força estranha que nos confirma que nada sabemos. Somos evolutivamente imperfeitos e necessitamos de humildade poética, serenamente divina.
                Dois corpos não ocupam o mesmo espaço ao mesmo tempo, nem é possível estar ao mesmo tempo em dois lugares distintos.
                Eram 50 bailes de comemoração carnavalesca civil, mas Obama só pôde comparecer a 10. Um a cada vez. Não é possível ser estrela sendo cometa.
                Tudo passa, porém o tempo não pára.
                Não admiro alegorias sem alma. A mídia ainda é veementemente pecaminosa. Roberto Marinho não é herói. A rota dos desbravadores que ainda navegam em caravelas nunca quis a oportunidade de achar tesouros piratas. Desbravar pode ser descobrir. Desbravar é buscar o novo e não o exposto, edulcorado por máscaras, tatuagens e brincos. Desbravar é buscar sentido para a vida, lutando por idéias e ideais. É sonhar. É abrir caminhos na mata fechada, sem destruí-la. Não é roubar o que é alheio. Não é destruir o que deseja descobrir. É instituir uma forma de governar. É povoar limites nunca povoados.
                Alguma coisa está fora da ordem mundial...
                Pedro Bial se enterrou vivo, num jogo de azares e de bruxos alquimistas capitalistas e desumanos. Esqueceu-se da queda do Muro de Berlim e apossou-se do vazio de olhares ignorantes e alienados, que não mais se solidificam, nos exercícios saudáveis de democracia.
                Impérios novamente são destruídos, porém agora não devam ser ignorados. Construir uma verdadeira globalização fraterna e igualitária requer mudança de referenciais de olhares.
                Talvez a posse de Obama represente o mesmo que não deixar que aconteça mais o desastre ambiental de Santa Catarina. Pode ser uma responsabilidade social infinita que jamais será depositada num homem, mas poderá ser identificada pela inconsciência repentina de uma humanidade que pede socorro e que quer vida.

Valdir Sodré dos Santos

Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 22/01/09