NASCI E RENASCI NO DOMINGO
Hoje é domingo. Outra semana se inicia e a dinâmica do tempo se consolida
sem parar. Talvez a diacronia possa ser uma forma de soluço repentino para
nos fazer refletir verdadeiramente. Somos escravos do tempo? Somos
escravos dessa proposta de mundo que não nos dá a oportunidade de inspirar
e expirar, de mastigarmos cada garfada pelo menos 20 vezes? Engolimos o
mundo a cada garfada como se pudéssemos seguir um destino incerto. Nossos
sonhos se perderam nessa dinâmica feroz e perversa.
Em 1945, Drummond nos
presenteou com a flor e a náusea...
Uma flor furou o asfalto, mas é
realmente uma flor. Que grandiosidade significa uma flor furar o asfalto!
Talvez Drummond nos queria dizer que Deus existe e se faz presente nos
pequenos grandes detalhes. Fico imaginando uma flor rompendo o asfalto em
frente à minha casa num dia ensolarado. Em frente a minha garagem, na qual
escondo meu dirigível, meu automóvel. Abro meu portão eletrônico e sigo
meu automático, sem nem pensar em passar a primeira marcha. Passo por cima
daquela flor e a esmago, não prestando atenção na voz de Deus que se
apresenta naquele grandioso gesto. E sigo meu rumo para dar conta do
tempo. Mas que tempo é esse que não respeita o tempo de Deus, que não
respeita o tempo de uma flor?
Engraçado! Irônico! Eu
nasci num dia de domingo, no dia das mães. Nasci ao meio-dia de um dia
quente num outono de maio. Os astrólogos não aceitam esse tempo! Temos que
nascer, para eles, às 11 h 59 min 59 s ou às 12 h 1s. Fui um presente ou
me deram um presente? Engraçado! Para ser mãe tem que ter filho. Sou a
flor ou a náusea?
Nietzsche me ensinou
que o tempo corre em espiral e não linearmente. O pós-modernismo me salva.
Ele é um mundo paralelo a esse, que é moderno, demarcado por uma revolução
francesa. O chute na bunda do povo talvez seja o ponto mais marcante
daquela revolução que inaugurou esse modelo perverso de sociedade.
Deixamos de viver no mundo rural e incorporamos os burgos. A
burguesia fede, como dizia Cazuza. Engraçado entender o palco da vida sob
uma ótica sem horizontes! Ao mesmo tempo em que falo de um guri carioca
que viveu nos anos 80 do século passado, como eu, falo de um homem que
revolucionou o tempo no final do século XIX. Assim se dá a espiral. Isso é
mais que subjetividade! É dialética. É transformação e retrocesso. É
puramente dinâmica no seu sentido mais profundo. Afinal, “enquanto você
sentir as estrelas como ‘algo acima’, falta-lhe o olhar do conhecimento”.
Hoje é domingo...
Decidi fazer algo para
aliviar a minha dor. A dor de viver num mundo paralelo. Ver o mundo ao meu
redor sendo destruído por esse colossal trator moderno. Ver crianças nas
ruas vendendo flores num bar do centro da cidade às 3 horas da madrugada,
enquanto bebo uma cerveja gelada para aliviar o calor tropical envaidecido
pela destruição da camada de ozônio. Afinal, 3 horas da madrugada é a hora
do silêncio profundo. Alguns indianos acordam nessa hora para rezar /
orar. Nessa hora parece que o mundo pára e parece que Deus conversa com a
gente. O tempo se dilui em fragmentos de percepções. O inconsciente fala
com o consciente, sem fronteiras. Adquirimos outro nível de percepção do
mundo e entendemos porque os Estados Unidos não assinaram o tratado de
Kioto. Entendemos o porquê de uma criança indefesa e da periferia invade o
submundo real do poder daqueles que se julgam abençoados por essa proposta
de mundo, que exclui a maioria e privilegia a minoria. Somos radicais
demais. Vivemos nessa náusea que nos causa o vômito repentino daquela
cerveja gelada. Sentimos o frio, apesar do calor insuportável. Temos febre
e não sabemos porquê. Invadimos consultórios terapêuticos tentando nos
entender, como se a resposta estivesse somente em nós mesmos. Autonomia
necessariamente se passa no coletivo, no social. Não teremos leis próprias
se não entendermos o que estão fazendo conosco. Essa mão invisível nos
massacra e nos fazem cobaias desse jogo. Somos escravos de nós mesmos e
nos matamos uns aos outros. Essa é a resposta do jogo.
Nós escondemos entre
grades e condomínios. Salve, salve O Rappa! Criamos submundos e deixamos
de viver a liberdade e o prazer da vida. Vivemos em gaiolas e deixamos de
voar. Deixamos de respirar o ar puro, porque já não mais existe em nossos
burgos. Preferimos o ar condicionado, que ajuda a eliminar a camada
de ozônio, para matar o calor insuportável. Deixamos de inspirar e
expirar. Tomamos cerveja gelada dentro de casa assistindo programas da TV,
que alienam e nos causam depressão. Assistimos noticiários que só trazem
notícias desastrosas, que não indicam esperança de dias melhores. E os
donos desses veículos de comunicação se perpetuam no poder, alimentando o
Congresso Nacional e aperfeiçoando a pior distribuição de renda do mundo.
Riem de todos nós e julgam que o Estado é incompetente. Utilizam projetos
paliativos pseudo-sociais, que consolidam a cartilha do controle externo,
que aconselha que eles devem governar com projetos aparentemente sociais.
Então, a contradição,
os conflitos e a luta de classes são fundamentais para estabelecer um
contraponto. Toda revolução nasce quando a classe média, que compra flores
de uma criança num bar às 3 horas da manhã, é agredida. Nós somos
pseudoburgueses. Acreditamos que somos felizes de alguma forma. Isso é
depressão! Vivemos deprimidos e continuamos buscando terapeutas (que não
sabem nada) e templos e igrejas. Levantamos as mãos para o céu como se
Deus estivesse lá. Mas Deus está dentro da gente.
A Psicologia funciona muita bem na Educação, mas não ajuda (muito menos
resolve) em nossos problemas mais profundos de uma sociedade doente. Os
tais especialistas do estudo da alma vivem dando voltas às
perguntas que a sociedade doente faz. Compreendo o mundo da subjetividade,
mas precisamos de respostas firmes e objetivas. Talvez não é resposta! Sim
ou não é de boa serventia. Não gosto de psicólogos e psiquiatras! Eles não
sabem nada! Não é por culpa deles, mas desta Ciência que conhece apenas
cerca de 5% do cérebro humano. Essa ciência se estruturou em torno das
ciências naturais para se estabelecer, assim como a Sociologia, e não dá
conta de respostas concretas. Acredito que a associação desta ciência com
os problemas sociais podem elucidar os caminhos possíveis para os
problemas humanos. A Antropologia é forte aliada. O respeito à diversidade
cultural é fundamental. Somos escravos de um pensamento eurocentrista.
Somos escravos do nosso tempo...
O domingo já se foi...
Preciso deitar no meu berço esplêndido, pois tenho que acordar daqui a
umas 6 horas. Sou escravo do tempo, mas não sou escravo do comodismo, do
imobilismo e do conformismo. Uma flor nasceu... Furou o asfalto.
Valdir Sodré dos Santos(e Carla A. Sodré e Ana Carolina)