A casa dos grandes pensadores
 
 
 

VALDIR SODRÉ DOS SANTOS

 

 

 

NEM SOL, NEM GIRASSOL...

(Valdir Sodré)[1] – 04/11/2006

                        Uma flor furou o asfalto...

                        Drummond, em um de seus poemas[2], me transportou e me transformou em palavras meu desejo feroz e amoroso por felicidade. Depois de anos depressivos, em páginas em branco, pude reconstruir minha vida. Penso que renasci.

                        Desfrutar da realidade de ser pai ao mesmo tempo que encontrara a mulher dos meus sonhos, faz-me um homem completo e certo de que “tudo isso” é mais um recomeço. Agora sei que começar de novo é o processo cíclico e necessário para que o caminhar esteja em consonância com os preceitos divinos. Faz-me refletir, entender e repensar o berço do conhecimento ocidental, na Grécia, uma vez que nada sei.

                        Uma flor furou o asfalto...

                        Pensar no flor me faz compreender o desejo do nascimento, os cheiros da vida, o soluço de um acorde dissonante, o barulho do silêncio, o tocar de um deficiente visual, o sabor do doce e do amargo. Crio pontes, possibilidades e a certeza do oportunizar oportunizando-se. O calor do amanhecer esfria a febre social de um mundo que esqueceu do próximo, do verdadeiro sentido da vida.

                        Nascemos para os outros. E quando damos conta desse preceito, esquecemos de nós mesmos. Esquecemos que o que queremos de bom para os outros nos inclui. Precisamos defender a inclusão pela inclusão. Precisamos sonhar juntos de verdade. Assim a realidade é o que projetamos de verdade, sabendo que não somos donos dessa tal verdade. A verdade é colorida e é aquilo que racionalmente construímos e não damos conta de entender. A ciência não explica tudo. Somos diferentes dos outros seres pelo fato de sermos racionais e isso não nos dá a credencial de superioridade sobre os demais seres. Somos parte de “tudo isso”.

                        Projetar a flor na minha vida me faz, sobretudo, acreditar que sempre é possível ser feliz. Para isso, humanizar é o caminho inverso de hominizar. Sinto-me como um girassol, que espera paciente e sabiamente o Sol.

                        Visualizar a flor me faz sentir Sol e aquece meus cinco sentidos e projeta os outros possíveis. Dimensiona e dá energia ao tempo, ao mundo e ao ser que ainda construo. Levita os sonhos mais profundos e acorda o Deus que está dentro da gente.

                        Nem Sol nem girassol... Um asfalto furou uma flor...

                        Ser Sol E ser girassol é muito mais abrangente. É conflituoso, dialético e resignificante. É assumir o caminho, sendo ao mesmo tempo fim e começo. Afinal quando nascemos a única certeza que temos é que vamos morrer. É o processo. É a vida. Piaget afirmara que “o conhecimento não está no sujeito nem no objeto, mas na ação do sujeito sobre o objeto”. Remete-me à Gitá, de Raul Seixas. Não me faz condenar Paulo Coelho.

                        Aprender é o nosso lema no século XXI[3]. Aprender a ser Sol sem a pretensão de ser o centro do universo. Aprender a ser girassol, mesmo sem saber que tem um micro-infinito tão grande quanto o Universo. Ser os dois e não ser. To be or not to be: is that question.[4]

 O segredo está no caminho... Sendo assim, viver é o caminho.


[1] valdirsodre@hotmail.com. Tenho 38 anos e casei-me em 21/10/2006 com duas mulheres maravilhosas: Carla tem 30 anos e Ana Carolina tem 5 e me chama de papai.

[2] A flor e a náusea, 1945.

[3] UNESCO – os 4 pilares da Educação no século XXI

[4] William Shakespeare


 
Valdir Sodré dos Santos
 
Publicação: www.paralerepensar.com.br  24/12/2006