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VALDIR SODRÉ DOS SANTOS

 

 

 

O contraponto da conspiração mundana

Valdir Sodré

www.paralerepensar.com.br/valdirsodre.htm

 

       Comumente ao se deparar com uma série de acontecimentos desagradáveis em certo momento da vida, o ser humano pensa, acredita e afirma que o mundo conspira contra si mesmo. Podemos crer e/ou afirmar que tal manifestação humana e cultural é uma verdade? Ou será um fetiche em forma de álibi na busca de respostas aos mistérios da vida?

        Nesse sentido, será que Cristo ao ser crucificado, permanecendo pouco mais de 3 horas vivo, com pregos de 15 a 20 cm nos pulsos e nos pés, ao perder todo Seu sangue (cerca de 3,5 litros) e pouco antes de morrer somente saía água de seus ferimentos e ao questionar Deus do porquê que o abandonara, pensou que o mundo conspirava contra Ele?

        Claro que não!

        Se o mundo conspirava contra Cristo, Ele não teria ressuscitado e revolucionado o mundo. É bem verdade que Sua passagem histórica, como homem, sempre foi questionada por muitos seres humanos céticos, materialistas e racionalistas.

        O que faz com que o homem pense que o mundo conspira contra ele próprio é ausência de Deus em sua vida e o ceticismo exacerbado e calcado no mundo material.

        Hoje encontramos vários consultórios psiquiátricos e terapêuticos lotados por seres humanos, doentes da alma (psique) e ora sem sentido para viver. Normalmente buscam culpados pelos seus problemas. E buscando culpados não resolvem seus problemas, mantendo-se no passado que é imutável ou no futuro que ainda não existe. Esquecem que la vitta é adesso, culpando primeiramente seus pais, posteriormente a si mesmo, a vida e a Deus. Ou pior ainda culpando a todos: o mundo.

        Na verdade, o mundo nunca conspira contra o ser humano. Somos nós que conspiramos contra o mundo de diversas formas e atitudes: ao desmatarmos nossas florestas, ao nos tornarmos prepotentes e presunçosos, ao deixarmos de ver a beleza do nascer de um novo dia e do pôr-do-sol, ao desacreditar no milagre do pão, ao não amar ao próximo, ao aceitar o verbo ter liberal e/ou o parecer ter neoliberal no lugar do verbo ser, ao deixarmos de abraçar uma árvore ou um amigo, ao pensarmos que nossos problemas são maiores do que dos outros, ao não agradecer (a Deus ou ao mundo) por mais um dia de vida ao acordarmos, ao deixarmos de dialogar com os nossos pares, ao anestesiarmos nossos sonhos, ao não dormirmos, ao semearmos discórdias, inimizades e guerras, ao não valorizarmos o silêncio, ao continuarmos consumistas, ao falarmos mal de outrem, ao acreditarmos nos nossos pecados, ao falarmos com nós mesmos no espelho...

        Eis um bom recomeçar: sua imagem no espelho...

        Redimensionemos Chaplin e Pierrô...

        Olhar para o espelho é muito representativo, pois indica que a resposta que procuramos para nossos problemas está em nós mesmos. Que ao falarmos com nós mesmos no espelho falamos com os nossos anjos da guarda. Ademais, anjo é a única entidade comum a todas as religiões. Anjos não se apresentam batendo asas quando estamos com problemas. Eles sempre estão conosco, sejam em situações boas ou ruins. Eles sempre se apresentam fisicamente entre nós, como seres humanos. Na verdade, todos nós podemos ser anjos. Quem é anjo nesse texto: eu ou você? Ou eu e você?

        Ao adquirirmos sabedoria e não somente conhecimento, descobrimos que o melhor momento para entender que o mundo nunca conspira contra nós mesmos é quando tudo na vida está uma maravilha. Quem já caiu e se levantou algumas vezes na vida com os tropeços da caminhada sabe que a bonança é fruto da tempestade e que ela poderá voltar a qualquer momento, seguindo os ciclos naturais. Não há estações eternas. Cada estação do ano dá lugar a outra, no momento certo. Por vezes colhemos flores. Noutras catamos as folhas caídas e secas de um período misterioso.

        Contundentemente, nos momentos bons da vida é que mais devemos agradecer por estarmos vivos e felizes, sustentando a fé e a esperança e anunciando a todos nossos momentos de felicidade. Pois, assim, estaremos nos preparando para uma outra estação, que concretamente será repleta de desafios ou ainda poderá ser um destino inconsciente incerto.

        Mário Quintana, poeta gaúcho e um dos seres humanos mais centrados, harmônicos e lúcidos[1] do século XX, afirmara que “a pior das deficiências é ser miserável, pois miseráveis são todos que não conseguem falar com Deus”.

        Quintana não ganhou o bastão da Academia de Letras e Roberto Marinho sim. Este extraordinário e inesquecível poeta não gostava de dar entrevistas. Numa histórica entrevista, foi questionado donde ele se inspirava para escrever seus belíssimos poemas? Ele simplesmente respondeu: em classificados de jornais...

        Então, a arte da guerra é disciplina de fortes e imperfeitos, que comungam consciência e inspiração, força e inteligibilidade, poesia e dor, coragem e fraquezas, certeza e alma de criança... Tudo depende do ponto-de-vista que usamos. A inspiração pode estar no esparadrapo de uma ferida, que ao ser realçado até esquecemos que estamos machucados. Poiesis é o espírito da organização da alma. Essa é a lei que determina o que o mundo espera de nossos mundos...

 

[1] Sugestão de Nilza E. Bertoni..

Valdir Sodré dos Santos

Publicação: www.paralerepensar.com.br  06/06/2008