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VALDIR SODRÉ DOS SANTOS

 

 

 

O CURRÍCULO DA CONTRADIÇÃO [1]

Valdir Sodré

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                  No material acadêmico Currículo e Diversidade Cultural[2] (2002), Carlos Mota[3] se despede recorrendo a uma belíssima citação do poema de Fernando Pessoa (In: O Guardador de Rebanhos): “da minha aldeia vejo quando da terra se pode ver no Universo... Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer, porque sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura (...)”.

                Nas entrelinhas dessas palavras, Carlos se despedia do leitor ao se apresentar em duas páginas, das cento e quarenta e sete escritas, para utilizar-se do “eu” e não de “nós” e do mundo. Despedia-se, na verdade, do que para ele era o menos importante: falar de si próprio. Tal atitude já nos dá a leitura de discurso, contundente e politicamente correta, de alguém que quis e quer fazer da sua vida um exercício de construção sócio-histórico-cultural, sem personalismo.

                A “Alegoria da Caverna”, parábola de Platão, fora seu norte no campo de idéias, que justificariam a necessária teoria do currículo como construto social. Curriculum, originalmente do latim, designa-se o “curso”, o “caminho”, que, no enfoque educacional, o educando deve percorrer ao longo de sua vida escolar.

                Ao transformar seus escritos em oratória, Carlos insistente e frequentemente recorria ao hy-ky contradição. Sustentava-se no inconformismo real de uma sociedade injusta e oprimida. Assim como Paulo Freire, defendia e buscava uma educação libertadora, dialógica e humanística, capaz de transformar a si mesmo e a sociedade em questão.

                Da teoria à prática, sempre buscou ser um intelectual orgânico, que optou firmemente em desmascarar o status quo dessa sociedade desumana, sempre se inter-relacionando diplomatica e serenamente nos diferentes grupos sociais em que atuava.

                Tal perspectiva, de fato, aponta ao entendimento de que o conflito e a contradição são elementos necessários e fundamentais para um processo de transformação social. Da mesma forma, evidenciam-se tais elementos como sustentadores da instituição escola, em determinada época, em determinada cultura e em determinado lugar.

                A ideologia e o poder mancham a democracia (e não a tecnocracia), a pluralidade cultural, a participação e o currículo, revestindo-se de etnocentrismo, interesses políticos e pessoais e monoculturalismo, tão presentes em nossas escolas.

                Somos oriente e ocidente, norte e sul, brancos e negros, ricos e pobres, homens e mulheres, velhos e jovens, teóricos e práticos. Somos diferentes para sermos iguais.

                A contradição social é resultado da criatividade humana diante um mundo “civilizado”. A escola é produto histórico-social, que necessita de um “caminho” em favor da qualidade de vida no planeta, conforme preconizara Mota.

                O próprio desenvolvimento sustentável, já evidenciado nas idéias pré-socráticas de Anaximandro e Anaxímenes, denota tal contradição, que é concretamente justificada pela indiferença de países “desenvolvidos”, que potencialmente sacrificam o planeta e que determinam uma ordem mundial apocalíptica.

                A globalização das economias deveria ser praticada concomitantemente à globalização das misérias, conforme pensa Cristovam Buarque, citado por Mota. “Temos uma dívida com as vítimas da violência urbana fabricada pelo desenvolvimento, e com os criminosos jogados em cadeias vergonhosas, incompatíveis com os direitos humanos no final do século” (séc. XX). Temos muitas outras dívidas...

                Eis a contradição da forma mais impiedosa possível...

                Carlos Mota não se despediu da família, dos amigos e do mundo, ao ser assassinado, aos 45 anos de vida, por um criminoso, que compõe uma enorme parcela de oprimidos, que ele sempre lutou para defendê-los. Carlos não foi somente vítima da violência urbana fabricada pelo desenvolvimento insustentável. Ele deu a sua própria vida, mesmo que inconsciente ou sem intenções, para nos mostrar que todos nós somos vítimas da contradição fabricada por uma lógica desumana de um modelo de sociedade ora insustentável.

                Che Guevara afirmara que “aquilo que não nos mata nos torna mais fortes”. Apesar de toda a violência simbólica que nos atinge, enquanto educadores revolucionários, hoje, vislumbram-se novos horizontes, na certeza de que Carlos não morrera entre nós, de que o que fazemos ainda é muito pouco para a transformação social que queremos e de que no currículo da contradição sempre haverá espaço para a esperança e para os sonhos por dias melhores.

 “Enquanto a sociedade feliz não chega, que haja menos fragmentos de futuro em que a alegria é servida como sacramento, para que as crianças aprendam que o mundo pode ser diferente. Que a escola, ela mesma, seja um fragmento de futuro[4] (...)”. E o Brilho da Lua agora se torna irradiantemente diferente. É um fragmento presente em todas as noites, mesmo sem lua, de uma esperança depositada no futuro, renovado e estampado pelos raios de luz de cada novo amanhecer...


[1] Dedicado à memória permanente e viva de Carlos Ramos Mota, grande amigo e fantástico educador assassinado na madrugada fria de 20 de junho de 2008, na sua residência, “Brilho da Lua”, palco de inesquecíveis encontros e luares, regados por músicas, poesias, histórias, sorrisos, utopia, luta, política e, sobretudo, de desejos fraternos, saudáveis e coletivos por uma sociedade mais justa e solidária.

[2] BARBOSA, Najla Veloso Sampaio & MOTA, Carlos Ramos. Currículo e Diversidade Cultural, Brasília/DF: Universidade de Brasília, Faculdade de Educação, 2003.

[3] Mestre em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de Brasília.

[4] Escola: Fragmento do Futuro, Rubem Alves. Extraído do material de Carlos R. Mota e Najla V. S. Barbosa (2003).

Valdir Sodré dos Santos

Publicação: www.paralerepensar.com.br  30/06/2008