O CURRÍCULO DA CONTRADIÇÃO
Valdir
Sodré
www.paralerepensar.com.br/valdirsodre.htm
No material acadêmico Currículo e Diversidade Cultural
(2002), Carlos Mota
se despede recorrendo a uma belíssima citação do poema de Fernando Pessoa
(In: O Guardador de Rebanhos): “da minha aldeia vejo quando da terra se
pode ver no Universo... Por isso a minha aldeia é tão grande como outra
terra qualquer, porque sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da
minha altura (...)”.
Nas
entrelinhas dessas palavras, Carlos se despedia do leitor ao se apresentar
em duas páginas, das cento e quarenta e sete escritas, para utilizar-se do
“eu” e não de “nós” e do mundo. Despedia-se, na verdade, do que para ele
era o menos importante: falar de si próprio. Tal atitude já nos dá a
leitura de discurso, contundente e politicamente correta, de alguém que
quis e quer fazer da sua vida um exercício de construção
sócio-histórico-cultural, sem personalismo.
A “Alegoria
da Caverna”, parábola de Platão, fora seu norte no campo de idéias, que
justificariam a necessária teoria do currículo como construto social.
Curriculum, originalmente do latim, designa-se o “curso”, o “caminho”,
que, no enfoque educacional, o educando deve percorrer ao longo de sua
vida escolar.
Ao
transformar seus escritos em oratória, Carlos insistente e frequentemente
recorria ao hy-ky contradição. Sustentava-se no inconformismo real
de uma sociedade injusta e oprimida. Assim como Paulo Freire, defendia e
buscava uma educação libertadora, dialógica e humanística, capaz de
transformar a si mesmo e a sociedade em questão.
Da teoria à
prática, sempre buscou ser um intelectual orgânico, que optou firmemente
em desmascarar o status quo dessa sociedade desumana, sempre se
inter-relacionando diplomatica e serenamente nos diferentes grupos sociais
em que atuava.
Tal
perspectiva, de fato, aponta ao entendimento de que o conflito e a
contradição são elementos necessários e fundamentais para um processo de
transformação social. Da mesma forma, evidenciam-se tais elementos como
sustentadores da instituição escola, em determinada época, em determinada
cultura e em determinado lugar.
A ideologia e
o poder mancham a democracia (e não a tecnocracia), a pluralidade
cultural, a participação e o currículo, revestindo-se de etnocentrismo,
interesses políticos e pessoais e monoculturalismo, tão presentes em
nossas escolas.
Somos oriente
e ocidente, norte e sul, brancos e negros, ricos e pobres, homens e
mulheres, velhos e jovens, teóricos e práticos. Somos diferentes para
sermos iguais.
A contradição
social é resultado da criatividade humana diante um mundo “civilizado”. A
escola é produto histórico-social, que necessita de um “caminho” em favor
da qualidade de vida no planeta, conforme preconizara Mota.
O próprio
desenvolvimento sustentável, já evidenciado nas idéias pré-socráticas de
Anaximandro e Anaxímenes, denota tal contradição, que é concretamente
justificada pela indiferença de países “desenvolvidos”, que potencialmente
sacrificam o planeta e que determinam uma ordem mundial apocalíptica.
A
globalização das economias deveria ser praticada concomitantemente à
globalização das misérias, conforme pensa Cristovam Buarque, citado por
Mota. “Temos uma dívida com as vítimas da violência urbana fabricada pelo
desenvolvimento, e com os criminosos jogados em cadeias vergonhosas,
incompatíveis com os direitos humanos no final do século” (séc. XX). Temos
muitas outras dívidas...
Eis a
contradição da forma mais impiedosa possível...
Carlos Mota
não se despediu da família, dos amigos e do mundo, ao ser assassinado, aos
45 anos de vida, por um criminoso, que compõe uma enorme parcela de
oprimidos, que ele sempre lutou para defendê-los. Carlos não foi somente
vítima da violência urbana fabricada pelo desenvolvimento insustentável.
Ele deu a sua própria vida, mesmo que inconsciente ou sem intenções, para
nos mostrar que todos nós somos vítimas da contradição fabricada por uma
lógica desumana de um modelo de sociedade ora insustentável.
Che Guevara
afirmara que “aquilo que não nos mata nos torna mais fortes”. Apesar de
toda a violência simbólica que nos atinge, enquanto educadores
revolucionários, hoje, vislumbram-se novos horizontes, na certeza de que
Carlos não morrera entre nós, de que o que fazemos ainda é muito pouco
para a transformação social que queremos e de que no currículo da
contradição sempre haverá espaço para a esperança e para os sonhos por
dias melhores.
“Enquanto a sociedade feliz
não chega, que haja menos fragmentos de futuro em que a alegria é servida
como sacramento, para que as crianças aprendam que o mundo pode ser
diferente. Que a escola, ela mesma, seja um fragmento de futuro
(...)”. E o Brilho da Lua agora se torna irradiantemente diferente.
É um fragmento presente em todas as noites, mesmo sem lua, de uma
esperança depositada no futuro, renovado e estampado pelos raios de luz de
cada novo amanhecer...