CASTRO ALVES
Espumas Flutuantes

        O LAÇO DE FITA

        Não sabes, criança?  'Stou louco de amores...
        Prendi meus afetos, formosa Pepita.
        Mas onde?  No templo, no espaço, nas névoas?!
        Não rias, prendi-me
                        Num laço de fita.

        Na selva sombria de tuas madeixas,
        Nos negros cabelos da moça bonita,
        Fingindo a serpente qu'enlaça a folhagem,
        Formoso enroscava-se
                        O laço de fita.

        Meu ser, que voava nas luzes da festa,
        Qual pássaro bravo, que os ares agita,
        Eu vi de repente cativo, submisso
        Rolar prisioneiro
                        Num laço de fita.

        E agora enleada na tênue cadeia
        Debalde minh'alma se embate, se irrita...
        O braço, que rompe cadeias de ferro,
        Não quebra teus elos,
                        Ó laço de fita!

        Meu Deusl As falenas têm asas de opala,
        Os astros se libram na plaga infinita.
        Os anjos repousam nas penas brilhantes...
        Mas tu...   tens por asas
                        Um laço de fita.

        Há pouco voavas na célere valsa,
        Na valsa que anseia, que estua e palpita.
        Por que é que tremeste?  Não eram meus lábios...
        Beijava-te apenas...
                        Teu laço de fita.

        Mas ai! findo o baile, despindo os adornos
        N'alcova onde a vela ciosa... crepita,
        Talvez da cadeia libertes as tranças
        Mas eu... fico preso
                        No laço de fita.

        Pois bem!  Quando um dia na sombra do vale
        Abrirem-me a cova... formosa Pepital
        Ao menos arranca meus louros da fronte,
        E dá-me por c'roa...
                        Teu laço de fita.
      
        S. Paulo, Julho de 1868.