A casa dos grandes pensadores
 
 
   

 

FERNANDA MOROSO

 

Casa Assombrada

Já se passavam da meia noite. Céu encoberto, vento  gelado. Ao longe, um ruído de coruja e as batidas das asas de um morcego. No teto, o miado de um gato preto. Mais à frente, o rangido de um portão se abrindo e fechando - um rangido assombrado, bem como toda aquela velha casa.
Passos no corredor. Passos lentos e decididos, cada vez mais intensos e mais próximos. O medo corria-lhe o corpo inteiro. Escondeu-se sob as cobertas. Tremia. Rezava. Quase chorava. Nada além disso podia fazer. Tinha, no quarto, uma vela acesa a fim de não lhe causar tanto pavor. A janela, que permanecia fechada, abriu-se com uma forte rajada de vento que apagou a vela. O medo aumentou. A chuva começou com os seus raios e relâmpagos, que de minuto em minuto, davam claridade ao quarto. A janela abria e fechava, fazendo um barulho estridente e assustador.
Lá fora, o portão - não trancado - debatia-se, também , conforme a vontade do vento. O medo era cada vez mais intenso, bem como os passos no corredor - passos de bota - mais próximos.
Estava no segundo piso da casa, se resolvesse fugir pela janela, quebraria as pernas com a queda. Não. O melhor a fazer era ficar ali e encarar o malfeitor. Ele poderia ser apenas um garoto, mas era homem, não podia sentir tanto pavor. Não era justo com a sua natureza.
Os passos pararam. Teria ele desistido ou esperaria o momento certo para o ataque? Houve uma pequena pausa. De repente, ouviu uma respiração profunda do lado de fora do seu quarto. A maçaneta mexeu. Ele sentou-se na cama. Enfrentaria o malfeitor a qualquer custo. Não, não podia. Ele era pequeno demais para isso, tinha de admitir. Voltou para debaixo das cobertas, espiando por um discreto rasgo no tecido. A porta abriu; nada deu para ver à princípio. Estava escuro. De repente, o barulho de um trovão rangeu próximo, e um clarão no céu iluminou seu quarto. Era um homem alto. Não conseguiu distinguir seu rosto.
- Claudinho! Claudinho! - Uma voz distante o chamava.
- Claudinho! Claudinho! - Várias vezes.
A imagem foi dissipando-se lentamente. A voz era cada vez mais alta, mais próxima de seus ouvidos. Claudinho, Claudinho!. Sua respiração foi se acalmando. As imagens sumiram por completo. Abriu os olhos. Já era dia. Não tinha tempestade. Nem estava naquela casa mal-assombrada. Sua mãe, irredutível, a sua frente. Séria, olhando-o com repreensão.
- Claudinho! Outra vez dormindo com a televisão ligada!? Chega de tanto Scooby-doo.

Do livro: Diário de Crônicas e Outras Histórias. pg. 24. 2005.

 
Fernanda Moroso
                      
Publicação: www.paralerepensar.com.br 21/07/2006