A casa dos grandes pensadores
 
 
 
  FERNANDA MOROSO

 

 

 

Cores de Hortelã
 
Um papel verde de textura fina, um quadrinho amarelo escrito Garoto e sabor de hortelã: lembrando uma páscoa de doces e distâncias.
Não havia somente a ingênua inocência de criança, também não acredito que meus olhos infantis demonstrassem tão-somente o brilho de alegria perante a musicalidade de cada data festiva; mas, sobretudo, havia magia...
Peculiar essência posta sobre certos dias que se fizeram lembranças fortes na minha mente. Um quarto em penumbra, apertado, com uma pequena janela retangular, cuja visão se dava à direita da casa de madeira. Árvores no jardim inclinado da casa que se escondia no alto de um morro de estrada de chão. Chão que, por vezes, fazia-se lama, ou, gelo nas madrugadas de neve ou geada, no intenso frio das noites geladas.
E procuro nas minhas lembranças as imagens que merecem revelação, que possam ser crônicas de descanso e descontração. Vejo ainda as paredes pintadas num azul marinho que era o meu mar, as janelas contornadas por um marrom desbotado e uma cortina ferrugem que se fantasiava de porta. Uma cama estreita para a solidão das minhas brincadeiras e imaginação precoce da vida; uma cômoda muito escura com alguns batons e bonecas que enfeitaram minha infância, enquanto eu gostava de ser criança.
No canto atrás da cama, uma caixa grande de papelão, recheada de doces que deliciavam minhas vontades de felicidade. Pipocas, chocolates, balas, pirulitos e as pastilhas Garoto, cujo pequeno quadro amarelo sobre o papel verde, repousou na minha memória num frescor de hortelã, daquelas manhãs de outono de um tempo que não voltará mais.
Escola, brincadeiras, cadernos e desenhos que eu não cansava de colorir e dar vida, mesmo que fosse somente na minha ingênua imaginação de acreditar nas pessoas e na fantasia das cores.
Ainda vejo no rosto daquela criança, a mistura da não compreensão com o decepcionar quando, nas cantigas de roda, no instante em que todos se davam as mãos para brincar, sofria preconceito a criança negra ou aquela que, de alguma forma, fosse diferente das demais.
Não recordo o nome daquela menina cujo apelido que lhe fora dado era vesguinha, a quem ninguém queria dar a mão, como se o contato pudesse acarretar danos irreversíveis ou como se a falta de beleza externa fosse doença contagiosa. Algumas vezes eu brinquei com ela e por isso fui deixada de canto também; ficava a ver o movimento e a petulância de certos colegas que talvez tivessem aprendido tal comportamento com os seus pais ou aquilo era somente a própria manifestação do caráter.
Nada assim tão impressionante. Ponte Serrada tinha disso, bem como em outros tantos cantos perdidos e até mesmo em nós, algum preconceito parece sempre estar. E assim fica, na mente, essa mistura curiosa do ser humano, dos bons momentos, daqueles intrigantes e dos que permanecem na memória, por qualquer razão aparentemente sem sentido; no entanto, estão ali, amparando algumas cores do passado, contendo alguma saudade, alguma solidão.
Do livro: Diário de Crônicas e Outras Histórias. pg. 963. 2005.
 
Fernanda Moroso
                      
Publicação: www.paralerepensar.com.brr 21/07/2006