A casa dos grandes pensadores
 
 
 
 

FERNANDA MOROSO

 

 

 

ESTRADA DE CHÃO

A terra era batida
E o que era barraco,
Taboa seca e seco chão,
Ela chamava de mansão.

Frestas largas, lixo no porão,
Comida rasa, restos por todos os lados,
Resto de gente, cheiro desagradável
Por todos os cantos, lixo espalhado:
Catadores de papelão.

Água tinha, luz não
Fogão até tinha,
Mas se tinha pro gás,
Faltava pro pão.

E quando era frio,
A lenha estralava,
Molhada, não queimava,
Restava o lampião.

Seis filhos já crescidos,
Em algum lugar escondidos do mundo,
Agora, só o mais novo e dois netos,
Sempre ali cabendo mais um.

No armário, do lixo da cidade
Um santo e um velho relicário,
Seus enfeites de pobreza
E um livro bem fechado.

Manchas no rosto de pele marrom,
Não, não era negra.
O marrom era de terra vermelha,
Batida pelo tempo,
De uma estrada usada
Por qualquer realidade submunda
No mundo de nossas realidades sempre cansadas.

Há pouco entraram em sua casa,
Dinheiro não tinha não,
Mas o pouco que tinha levaram
Nada sobrou do arroz e do feijão.

E assim ela vivia, sem proteção.
Todos os dias ia à cata de papelão
De qualquer lixo, de qualquer pão.
Um qualquer pra matar a fome,
A fome de homem perdido na multidão,
De ser mais só que a própria solidão.

É fome, pranto, venda, frio, ilusão.
Cheiro preso à velha vida cansada.
Terra escondida, batida, usada,
Nessa estrada sem chão.

Fernanda Moroso
                      
Publicação: www.paralerepensar.com.brr 20/07/2006