A casa dos grandes pensadores
 
 
 
 

FERNANDA MOROSO

 

 

 

Fio Gasto

Estava eu, sentado defronte à Catedral, sem nada de importante para fazer, paciente e calado, jogando bolica na calçada. Na época, tinha apenas 12 anos de idade. Era noitinha de verão, fresquinha e gostosa. As pessoas andavam agitadas e discutiam sobre o momento, no qual eu estava à deriva. Foi então que, por acaso, vi saírem da porta principal, um par de noivos muito belos que, alegres como o dia, festejavam o grande casório. No estacionamento estavam vários carros, e um deles estava enfeitado com latinhas de refrigerantes e faixas brancas representado paz. Nunca tinha visto nada igual, as pessoas tumultuavam o trânsito e bradavam Vitória com o acontecido.

O novo casal, conhecido como D. Política e o Sr. Político do Sistema, cuja alcunha era Ica e Ico, respectivamente, vestiam-se como manda o figurino. Feliz mudança de vida, ela de branco e ele de galã. Conhecia-os de vista e o pouco que sabia de suas vidas era das vozes que, vezes, ouvia as fuxicas, porém, nem sempre bons comentários.

O passado do Sr. Ico parecia-me comprometedor, sempre teve muitas mulheres, das mais diversas categorias, entretanto nunca fora parceiro de fidelidade. Apreciava conforto, sossego e detestava trabalho que

D. Ica, do tipo ariana, jamais acomodada, muito complexa, carecia de atenção.

O casal, como se fosse um acordo, tapou-se de uma lista de juras e promessas, entrou num carro adornado, levado pelo motorista e seguiu pela rua central para a festa de comemoração. Os convidados presentes seguiram pelo mesmo caminho, e eu, como não tinha nada a fazer, e levado por uma incontrolável curiosidade, escondi-me dentro da caminhonete de um dos convidados, quando este se distraiu por alguns segundos. Na ida à festa, graças a Deus, ninguém me notou.

Escurecera e as estrelas do céu iluminavam a noite em perfeita harmonia. Não demoramos a chegar. Lá, o ambiente encontrava-se tão em brilhos como as estrelas da Casa de Cima. A D. Ica mais o Sr. Ico recebiam os convidados com sorrisos e bonitas palavras de um futuro próspero, reiterando várias promessas denominadas plano de governo.

Quando saí da caminhonete, fui visto pela D. Criança e fiquei com medo de que ela me entregasse ao segurança, mas com imediato alívio, vi que ela, com seu jeito todo discreto, abriu um sorriso espontâneo e me levou até o seu carro para arrumar um pouco o cabelo e dar um jeitinho no visual. Sem que eu desse qualquer explicação, ela apresentou-me como um primo de longe às pessoas da festa.

D. Criança era a alegria em forma material,

sempre sorridente, apreciava comemorações, música e acontecimentos simples, como o pôr-do-sol. Eu a conheci há alguns anos e jamais me decepcionei com sua pessoa, pois possuía um aroma de futuro e transpirava esperança.

Quando entrei no salão, fiquei impressionado com a quantidade de pessoas que estavam presentes, parecia que a cidade inteira fora chamada para o episódio.

A festa correu às mil maravilhas. Eram as vozes cantando em alto tom, os corpos dançando e alguns, até embriagados com o comportamento e o brilho dos olhos alterados…

A D. Criança ficou comendo os doces e entretida com as brincadeiras.

A D. Eleição e o Sr. Cidadão conversavam muito com a D. Reeleição, prima de D. Eleição, sobre as notícias atuais.

Depois de terem se passado algumas horas de divertimento, o Sr. Político discursou eternidade e fidelidade no seu amor à D. Política… Todos se impressionaram e aplaudiram com grande motivação o falatório.

D. Eleição, emocionada, chegou a chorar e até me parecia nervosa com a situação. Há tempos a D. Eleição não aparecia na cidade, dava as caras apenas de 4 em 4 anos, e somente quando sentia saudades. Sempre fora amiga do peito de D. Ica, contavam dores

e por vezes falavam da vida alheia.

D. Eleição, ainda jovem, era a dignidade em pessoa, gostava de viajar e já conhecera muitos lugares do mundo, desde os mais pobres aos mais nobres. Porém, sua feição estava, aos meus olhos, abatida, e até ouvi que, por outras opiniões, descartada. Às vezes acho que as pessoas dali dos arredores esqueceram de como fora difícil o seu nascimento e de como os antigos aspiravam por ela.

O Sr. Cidadão junto com a D. Eleição foram testemunhas do matrimônio. Ele era amigo de infância de D. Ica, trabalhava de sol a sol e vestia-se com simplicidade, o que lhe acarretava um ar virtuoso, de paciência e dignidade. Entretanto, por vezes, mostrava-se perdido em suas escolhas de futuro.

D. Reeleição, moça nova, bonita e atraente, permaneceu sentada à noite inteira, quase não conversava com ninguém, pena que, de tão envergonhada, não pude vê-la quando o Sr. Ico a convidou.

Eu comi muita coisa que nunca tinha visto antes e brinquei com a D. Criança praticamente por toda a noite, só parei mesmo quando a festa terminou e tivemos que ir embora.

Uma semana se passou e eu passeando pela calçada, avistei o Sr. Ico e a D. Ica passando num carro em direção à praia. Continuavam felizes e isso me trazia bem-estar.

Mas o tempo, como nunca, num repente voou. Tudo se transformou. O mundo estava diferente, o aroma das flores foi substituído pelo cheiro de petróleo refinado, as pessoas andavam mais sérias e mais tristes.

Eu, já com 16 anos, deixei de jogar bolica na calçada e passei a jogar futebol num pequeno clube ali por perto da praça. Como era a única atividade que aprendi nas ruas, fazia do esporte uma razão pra viver. Graças aos jogos que a turma do clube programava, conseguia alguns trocados para comer e, às vezes, dependendo da quantia, um lugar melhor para dormir. Na época, consegui economizar algum dinheiro, até que um dia, quando eu estava a caminhar pelas ruas, uma multidão curiosa e apressada passou por mim derrubando as minhas míseras economias, que foram depois furtadas pelos demais.

- Corre, corre!

- Anda logo!

- Não quero "perdê" de jeito algum.

- Porra cara, "ligero" !!!

Eram gírias, palavras de baixo calão, insultos que me surpreenderam. Como num passe mágico, todos estavam na rua, senhores e senhoras na janela, cachorros e cadelas, indignados com a situação do Sr. Político.

- Prenderam ele! Nossa Senhora das Graças! Coitadinho, sempre tão simpático – dizia uma senhora de certa idade.

- Que nada dona, é um baita de um safado – contradizia o garoto sentado no chão, entre o menino e a senhora – bem merece, e isso ainda é muito pouco.

A cidade ficou tumultuada, o trânsito atrapalhado, as pessoas falando e os jornais noticiando. Por tantos, vim a saber que o Sr. Ico cometera adultério e fora acusado de seduzir a D. Reeleição e por ter feito um "caixa 2" com dinheiro de D. Ica. Uns falaram que quem o denunciou foi o Sr. Cidadão, outros que foi a própria D. Ica, mas não havia sido comprovado.

Eu, triste e revoltado com o que tinha acontecido, perguntava para o vento: - O que vou fazer agora? Por que tanto sofrer se não pedi para nascer? Por que tanta coisa errada?

E todas as comparações de quando eu via um mundo cor azul com a sujeira de hoje, faziam quedas d’água molharem a poeira do meu rosto e a amargura de meu coração

Passaram-se dois dias depois do alvoroço e tudo parecia ter voltado ao normal. Eu, um pouco consolado, levantei-me do banco da pracinha cortejando a beleza do tempo que ainda era a mesma. Passando os olhos pelos cantos, avistei a D. Ica chorando nos ombros da D. Eleição. O seu sofrimento era facilmente notado pelo olhar cabisbaixo e pela aura de depressão ao seu redor. Sentia-se abandonada, afinal, fora traída por alguém que amara.

Cheguei perto delas para ver se podia ajudá-la e

ouvi o que falavam do Sr Cidadão:

- Parece que ele não está muito bem mesmo. O médico disse que ele está com falhas na memória e já perdeu total visão do olho esquerdo - falava a D. Eleição para a amiga.

- Sabe, companheira, foi ele, o Sr. Cidadão, que me contou sobre as façanhas do Ico, aquelas que eu te contei e você contou à polícia - esclarecia a D. Ica. E pena que eu casei na Igreja e não apenas no civil, levarei isso para o resto de minha vida. Neste momento eu as interrompi:

- D. Ica, sei um pouco de sua história, desculpe-me a intromissão – apesar do meu estado sujo, ela deixou que eu continuasse – mas não fique triste. Lembra-se de sua madrinha, a D. Criança? Pois é, ela anda por aí, sempre a vejo. Ela é muito importante não é?

- Sim.

- Dizem que ela é a esperança para um amanhã melhor, sem promessas de plano de governo. Acalme-se, nada dura tanto tempo. E se precisar de algo pode contar comigo.

As duas ficaram pensativas e eu fui embora um pouco envergonhado, não sabia se era certo dizer aquilo, mas tudo bem. Continuei seguindo as ruas de minha casa, procurando achar algo pra comer. E foi então que eu vi vir em minha direção o Sr. Político sorrindo, trazia em suas mãos um pacote embrulhado numa

sacola plástica.

- Boa tarde garoto!? Como vai?

Assustado, eu não sabia o que dizer. Como assim? Pensei. Há dois dias havia sido preso, como pode estar aqui?

- Escute-me, por favor. Está a fim de ganhar alguns trocados? (continuei calado). Ei! Menino, não precisa ficar boquiaberto, se eu estou aqui, é porque foi o Sr. Cidadão que conseguiu me libertar, e para agradecer-lhe preciso que você entregue este pacote a ele, por mim, mas somente para o Sr. Cidadão, certo? Ele te espera na esquina 302. Tome, pegue este dinheiro para você, mas por favor, entregue isto a ele, sim??!!

Fiz um sinal afirmativo com a cabeça e peguei o dinheiro e o pacote. Este era um pouco pesado, mas a minha fome não ligava e tinha pressa. Primeiro, parei na lanchonete do Pedro para comer um sanduíche e depois corri até a esquina 302. Por causa da correria, cometi o meu maior pecado, não deixar a minha curiosidade abrir o pacote para uma pequena espionagem.

Quando cheguei lá, notei que o Sr. Cidadão estava sentado na calçada com o corpo encostado no muro de uma casa. Mais próximo, vi na sua camisa manchas de sangue e no seu rosto os olhos abertos descreviam a morte. Foi então que, sobre um nada e um tudo, apareceram uma ambulância e um camburão da polícia. Os policias me arrastaram até o veículo, falando um monte

de coisas que eu não entendia, e me algemaram, acusando-me de assassinato em flagrante.

Na delegacia, o advogado que me ofereceram disse que no pacote havia uma arma de calibre 38 e um par de luvas de couro, que não tinha como escapar disso. No momento, eu iria ser levado ao CIP (Centro de Internamento Provisório) – local que dizem ser para a recuperação de menores infratores – até sair o julgamento.

Tentei contar tudo o que havia acontecido, que foi o Sr. Político que armou tudo, que eu não tinha matado ninguém, mas foi em vão, nem mesmo o meu advogado me ouviu. O que fazer?

Passei assim por muito tempo procurando entender toda essa complexidade, e hoje, com 22 anos, vejo nos olhos de cada um a ilusão, a mentira, a esperança, a amizade, a cegueira, a novidade seduzida e a injustiça, quando, aqui no presídio, apresentam-me como o Sr. Marginalizado.

Fernanda Moroso
                      
Publicação: www.paralerepensar.com.brr 21/07/2006