A casa dos grandes pensadores
 
 
 
 

FERNANDA MOROSO

 

 

 

Guia

 

Não há quem possa fazer minha estrada, os passos são meus, sei o destino que traço, valores por que luto, porque me fiz soldado

As casas em que já moramos, os países em que já estivemos, os odes da vida que ainda não sabemos. Foi no caminho da amizade que descobri sua traição, por isso não me fale dos meus erros, porque no meu caminhar é preciso saber mais

Não perdi tesouros, não perdi amores, não perdi o que nunca tive em minhas mãos.

Aprendi a mentir e a mentira transformou-se em verdade. Já tive medo de seus olhos grandes e imperativos, que não souberam despertar em mim o respeito. Fugi de suas leis porque na minha estrada encontrei outros saberes. Fui menina quieta às suas ordens, e tenho hoje, a valentia temerosa das águas; enquanto que antes eu não sabia lutar, hoje correm com medo de ter qualquer palavra, qualquer coisa que eu possa dizer, porque não tenho espadas nem escudo, apenas a fala dos mudos, o silêncio que me fez página a soprar a dor.

E dizem que ainda sou garota, mas minha bagagem tem mais de séculos, não respeitem a idade que não tenho porque há muito por descobrir.

E falam da minha vaidade, do meu jeito que às vezes perde o jeito da docilidade,

E falam dos meus defeitos como se o soldado aqui tivesse de ser perfeito

E falam do meu corpo como se eu já não fosse morto a viver outra vez

Como se fosse importante, mostrar a todos meu jeito um pouco infeliz

Carrego todos os dias toda a energia que a lua quando passa me passa a sentir

E essa gente fala sem nunca dizer nada

E fala sem saber nada

E ousam conselhos de onde devo pisar e pregam suas leis impensadas de que para ser humilde, devo me ajoelhar e falam da vida como grandes conhecedores, mas suas dores estão por fora, foram jogadas fora, para saber de você é preciso sofrer sua própria solidão, não há outra forma de evoluir, não há outra forma de ser feliz.

Meu mundo é feito de pedra, aço e som, e as portas estão abertas para quem não tiver medo do que sou. Reconheço meus sonhos como o guia dessa estrada, aqui posso transformar a dor em águia, liberdade para voar, não venha até mim se não quiser tocar essas mãos geladas, saiba que já me fiz águas passadas e por mais que mestre a vida me faça, não passo de aprendiz.

 
Fernanda Moroso
                      
Publicação: www.paralerepensar.com.brr 21/07/2006