A casa dos grandes pensadores
 
 
 

FERNANDA MOROSO

 

 

 

 
O RIO PEDE BIS
 
Faltaram algumas coisinhas, saí para comprar. Como é bom quando o dinheiro não nos falta quando precisamos dele. Rose foi comigo, também ela necessitava de algumas fazer algumas comprinhas.
Passa a Páscoa, o chocolate fica mais barato, e eu não resisti ao Bis branco, 4 caixas por R$10,00, perder? De jeito nenhum! Depois de termos comprado as coisinhas que precisávamos, compramos o Bis, e olha que ficamos entrando e saindo da loja, nos questionando se deveríamos levar ou não, uma por gastar com chocolate e outra porque isso engorda. Mas é claro que compramos... Rose, minha colega, dividiu comigo, também não resistiu.
Mas tudo me faz refletir, gente, até o chocolate!
Eu nunca entendi, e não entendo, como ano após ano, o chocolate está cada vez mais caro. No jornal disseram que o governo cobra um imposto demasiado sobre o chocolate porque o compreende como um produto supérfluo. Mas por que as cervejas não aumentam? Já comprei cerveja boa, boa mesmo, a R$0,59 (cinqüenta e nove centavos) em supermercado grande aqui do Rio, e notei bem que não havia promoção satisfatória de chocolate, e era época de Páscoa. Possivelmente, porque os bêbados, viciados e os loucos por cerveja merecem mais descontos que as crianças.
Cerveja não é supérflua, minha conclusão!
Criança pobre tem que comer chocolate mais barato, quando pode!
Cá pra nós, a gente sabe o gosto de um bom chocolate, e eu não duvido do paladar de ninguém, nem de quem é pobre, porque isso é puro preconceito de quem acha que os bons gostos são inerentes aos de berço de ouro.
Mas o chocolate é supérfluo tal qual o pedido daquele menino, que encostado em uma parede qualquer de Nossa Senhora de Copacabana, fez ao ver a caixa de chocolate através da sacola plástica:
- Dá um chocolate aí, tia!
Era uma frase supérflua, era um desejo supérfluo, era uma criança supérflua.
O governo também deveria cobrar imposto mais caro de mulher que põe, no mundo, filhos para deixar em condições tão degradantes. Quem sabe assim elas parariam de gerar tanta dor para o mundo: criança sem a chance de ser criança.
Rose parou. Era ela quem carregava a sacola. Muita gente andava na calçada. Rose olhou. Rose me olhou, como se esperasse de mim uma resposta imediata:
- Ai Fer! – Rose sorriu um sorriso comovido; não sei se eu senti mais pelo pedido tão espontaneamente feito pelo menino ou se pelo coração condoído de Rose. Só sei que voltei chorando depois de ter entregado uma das caixas de Bis ao menino. E escutei alguém na rua dizer:
- Que gesto bonito!
Uma coisa é certa, eu teria me sentido um monstro se não tivesse dito “Volta Rô”, naquela Copacabana de Nossa Senhora tão cheia de gente. E ainda fiz mal, penso agora. Deveria ter dado duas caixas ao menino, talvez ele tivesse irmãos que também desejariam ter comido chocolate, mas o pedido veio tão de repente, não esperávamos. Nunca esperamos muita coisa, só do que sonhamos. E eu também tive receio da mãe deste menino estar por perto e pegar o chocolate dele para outros fins. Mas... o menino, teria esperado o nosso retorno? O que espera de nós o mundo? O que nós do mundo esperamos? Às vezes, esperamos demais, é certo isso?
Eu chorei e choro agora. Comera ele algum chocolate naquela Páscoa? Comera ele algum pão naquele dia?
Eu choro agora pelo brilho de um lindo espírito que vi nos olhos azuis daquele menino cor de sol. Eu choro agora porque me arrependo, eu deveria ter voltado e não ter dado uma caixa de Bis a ele, e sim as quatro. Quantos chocolates eu já comi em minha vida? Isso nunca teria me feito falta. Perdão, meu Deus. Eu não vi, minha atitude também foi supérflua.
 
Fernanda Moroso
                      
Publicação: www.paralerepensar.com.br  10/09/2009