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João Márcio F. Cruz
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Sabedoria do filme
Por: João Márcio F. Cruz

Existem filmes que são verdadeiras guloseimas em fim de semana. Outros são dinamites que explodem, temporariamente, nosso senso de realidade. O filme INSTINTO, interpretado pelo genial Anthony Hopkins, é fora do comum. Indicação de um amigo, assisti com sérias restrições porque o título me lembrava violência, sangue e dor. Grande engano!

O filme trata sobre um antropólogo (Hopkins) que vive, durante dois anos, na floresta africana junto com gorilas. Ele renuncia aos seus estudos, pesquisas de campo e anotações para, literalmente, experimentar viver como um gorila vive. Depois que ele, para defender seu bando, mata dois caçadores, é preso e considerado psicótico. Um psicólogo, recém-formado, assume o caso, a procura de uma tese de mestrado sobre a loucura do antropólogo. Essa tese lhe dará ascensão na carreira.

Todavia, nos diálogos com o suposto louco, o Dr.psicólogo descobre que o antropólogo tinha, no seio da floresta, descoberto uma outra percepção do mundo. Vivendo longe dos arranjos sociais, dos jogos humanos, dos papéis convencionais, da busca por sucesso, o antropólogo descobriu a “paz”. É o que ele diz num diálogo inesquecível, logo no início do filme. rolex replica watches


O filme, acontece, na maior parte entre diálogos enquanto o psicólogo, imagina que estar consertando o “louco”, ele é que está sendo curado. Sua doença: ser civilizado, dentro dos princípios de dominação e poder vigentes.
É um filme baseado na obra de Daniel Quinn. O livro Ismael narra um diálogo surreal entre um gorila e um ser humano. Sua obra se tornou conhecida mundialmente porque toda, com grande profundidade, em questões que alicerçam nossa suposta civilização. E por que um gorila? Porque, para compreender o mundo como ele está, era preciso escutar alguém que não faz parte desse mundo. Não participa dos esquemas sociais de alienação e entorpecimento.

Esse filme, assim como o livro mexeu muito comigo. Impossível, depois de assistir o filme, ler o livro, e olhar para o mundo da mesma forma. De forma simples, mas perturbadora, ele consegue desorganizar nosso universo estruturado e revela os verdadeiros alicerces da civilização. Nossa cultura foi construída dissociada da natureza, por isso, criamos falsas necessidades, consequentemente, “falsos” seres humanos.



Trechos do livro:

“Ismael pensou um pouco.
— Dentre as pessoas de sua cultura, quais desejam destruir o mundo?
— Quais desejam destruir o mundo? Até onde eu saiba, ninguém especificamente deseja destruir o mundo.
— E no entanto o destroem, todos vocês. Cada um contribui diariamente para
a destruição do mundo.
— Sim, é verdade.
— Por que não param?
Encolhi os ombros.
— Francamente, não sabemos como.
— São cativos de um sistema civilizacional que mais ou menos os compele a prosseguir destruindo o mundo para continuarem vivendo.

Como observei muitas e muitas vezes, os pensadores basilares da nossa cultura imaginaram que o homem nasceu como agricultor e criador de civilização. Quando os pensadores do século XIX foram obrigados revisar esse pressuposto, fizeram-no da seguinte maneira: o homem talvez não tenha nascido como agricultor e criador de civilização, mas apesar disso nasceu para tornar-se agricultor e criador de civilização. Em outras palavras, o homem daquela ficção conhecida como pré-história atingiu nossa consciência cultural como uma espécie de desencadeador de um processo muito, muito lento, e a pré-história tornou-se uma seqüência de pessoas desencadeando um processo, lento, muito lento para se tornarem agricultores e criadores de civilização. Se vocês precisarem de um sinal que confirme o que estou dizendo, considerem a designação habitual dos povos pré-históricos como povos da "idade da pedra": essa nomenclatura foi escolhida por pessoas que não duvidaram nem por um momento que as pedras eram importantes para esses nossos ancestrais patéticos da mesma forma que as prensas tipográficas e as locomotivas a vapor foram importantes para as pessoas que viveram no século XIX. Se vocês quiserem ter uma idéia da importância das pedras para os povos pré-históricos, visitem uma cultura moderna da "Idade da Pedra" na Nova Guiné ou no Brasil e vão ver que as pedras são tão cruciais para sua vida quanto a cola é para a nossa. Eles usam pedras o tempo todo, claro - assim como usamos cola o tempo todo -, mas chamá-los de povos da Idade da Pedra faz tanto sentido quanto nos chamar de povo da Idade da Cola.


“As pessoas de sua cultura se agarram com uma tenacidade fanática à idéia de que o homem é especial. Querem desesperadamente perceber um imenso abismo entre o homem e o resto da criação. Essa mitologia da superioridade humana justifica que façam o que bem quiserem com o mundo, assim como a mitologia de Hitler sobre a superioridade ariana justificou que fizesse o que bem quisesse com a Europa. Mas essa mitologia não é muito satisfatória, afinal. Os Pegadores são um povo profundamente solitário. O mundo, para eles, é um território inimigo, e vivem em todos os lugares como um exército de ocupação, alienados e isolados por serem tão extraordinários e superiores.”

A história que os Largadores vêm encenando durante os últimos três milhões de anos não é uma fábula de domínio e conquista. Encená-la não lhes deu poder. Encená-la lhes deu vidas satisfatórias e significativas. É o que verá se conviver com eles. Não estão agitados pelo tédio e a revolta, não estão perenemente debatendo o que deveria ser permitido ou proibido, nem se acusam uns aos outros por não viverem de modo correto, nem sentem pavor de seu vizinho, nem enlouquecem porque suas vidas parecem vazias e sem sentido, nem precisam se estupidificar com drogas para suportar os dias, nem inventam uma nova religião a cada semana para terem algo a que se agarrar, nem estão sempre buscando algo para fazer ou em que acreditar que torne suas vidas dignas de serem vividas. E, mais uma vez, isto não é porque vivem perto da natureza ou porque não têm governos formais ou porque sua nobreza é inata. É assim apenas porque estão encenando uma história que dá certo para as pessoas, uma história que deu certo durante três milhões de anos e que continua dando certo onde os Pegadores ainda não conseguiram espezinhá-la

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