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Conto
 
Ao inferno com tudo e todos!
Por: Marlene Nascimento

“Caríssimo (a) leitor (a),
Em verdade esse título e texto é um trecho (entrecortado) do décimo quarto capítulo do meu romance “Um homem sem coração”, escrito em 2004. Eu o tenho enviado para editoras várias, via Correios, sendo sempre recusado. Presentemente ele repousa na Mesa do Editor, aguardando a sorte lotérica de que algum editor descubra potencial nele e (ainda mais sorte lotérica) custeie-lhe a publicação.
Bem, sonhar é bom e... é de graça.”


"AO INFERNO COM TUDO E TODOS!"

“Sua comoção era uma prova de como voltava para trás, para a idade do fogo e até às primeiras origens, na idade do urro.”
(Jack London)

Mais e mais Malba Tahan queria mostrar ser um super-tudo, ser aquele que podia afrontar sozinho qualquer pane psíquico, sem render-se à ajuda de ninguém, nem de Deus e nem de anjos, se porventura existam.
Naquela enregelante manhã da segunda-feira ele saiu do prédio do Sagrado Coração em direção ao estacionamento. Um enfermeiro que também concluirá plantão, o interpelou:
__ Bom dia, Malba.
__ Bom dia, Brando.
__ Que noite gelada, não?
__ E como.
__ No Pronto Socorro está um frigorífico. Está indo pro Posto de Saúde?
__ Sim.
__E eu vou pra casa. Meu corpo está pedindo cama urgente. Esta noite não deu para cochilar nem na hora da janta. No PS está um caos. Deram entrada três baleados de uma vez, um policial e dois bandidos. Sete tiros em um dos bandidos e o danado ainda não morreu. Isso que é ter vida de gato. Logo em seguida deram entrada um esfaqueado, nada menos que dois bebuns e um indigente com hipotermia, quase morto. Teve duas fraturas expostas, uma de um motoqueiro, outra de uma doida que pulou do segundo andar de um prédio. Um drogadito teve uma parada. Isso tudo numa só noite. Já viu né, nos fins de semanas isto aqui vira um circo dos horrores; sangue e tripas à lá vonté. Nossa profissão é fogo.
__Sim, Brando, nossa profissão é bonita, séria, porém desgastante e mal remunerada.
__Pois é, se não trabalharmos em dois, três empregos morremos de fome. Sabe, estou achando que você podia dar uma maneirada. Está com a aparência cansada. Eu trabalho em dois empregos e estou só o pó. Imagino você. Acabará tendo um colapso. Tira uma licença Malba, ou larga um emprego. Certas coisas na vida não valem à pena. Bem, vou indo. Até...
__Até...
Após, Malba Tahan, enraivecido com o conselho do colega de trabalho e sua falta de respeito aos pacientes, seguiu seu caminho rumo ao estacionamento, murmurinhando “Ao inferno com tudo e todos!” Contraiu-se ante uma lufada de ar gélido que lhe enregelou os ossos. Ele vestiu o casaco que trazia à mão, jogou o jaleco no ombro direito e acelerou os passos dando de frente com a indigente maltrapilha, claudicante, extremamente fétida, que costuma perambular rente ao muro do grande hospital. Certamente ela passara a noite escondida entre os carros na tentativa de proteger-se do frio. Ele pensou, que vida triste, meu Deus! Sentiu a pele fria e cianótica.

Agora, após mais um turno cansativo, ele deveria pegar seu carro e dirigir-se ao Posto de Saúde onde sua equipe o aguardava e não sentiu vontade de ir. Sentia-se tenso, doente, desorientado. Verdadeiramente, nos últimos dias ele estava se sentindo horrível; cefaléia, dor nas costas, lassidão, parestesia nos membros inferiores e tristeza muita. Diagnosticou-se com depressão. Decidiu ir para casa. Não, para casa, não! pensou. Volveu-lhe o desejo de nunca mais rever Maria Júlia (sua esposa) que o escachara na manhã anterior enquanto ele se arrumava para pegar plantão na Santa Casa. Em suma: ele chegou na face da vida em que um homem não sabe se fica ou vai, se chora ou ri, se grita ou silencia para sempre.

Fatalista, vitimizado, alucinado, carente, Malba Tahan, já há poucos metros do seu carro, cedia enfim, e tarde demais, à necessidade de pedidos de socorro. Em meio aos muitos pensamentos atropelados, sem conseguir fazer com que o consciente processasse em tempo às mensagens mentecaptas vindas do subconsciente, tendo ele, o consciente, como obrigação bloquear a ação desvairada, Malba Tahan murmurinhou que alguém, um anjo, Deus, viessem salvá-lo do abismo tenébreo onde almas negras o estavam querendo lançar. Nesse momento nosso bom enfermeiro desacelerou o passo, exclamou novamente “Ao inferno com tudo e todos!” e estacou boquiaberto no sopé do Morro do Corcovado, na cidade maravilhosa do Rio e Janeiro.

Como? O quê aconteceu? Calma, meu nobre leitor. Eu, a biógrafa invisível de Malba Tahan, explico; deu-se nada mais nada menos que a transição de um enfermeiro e sociólogo à mendigo. É uma explicação um tanto esdrúxula, mas trata-se da veracidade do ocorrido. Alguns passos antes de chegar ao estacionamento, Malba Tahan parou, deu meia volta dirigindo-se à saída do hospital, ganhou a calçada e se pôs a andar a esmo. Andou, andou, andou. Sentiu a pele quente e rubra, e riu, e dançou, e gargalhou, e pisou em poças d'água, assobiou, conversou com cães vira-latas, saudou pessoas desconhecidas, urrou. Enfim, fez tudo aquilo que só as crianças podem fazer e apenas os loucos possuem a supremacia de imitá-las.
Deveras que Malba Tahan ultrapassara os limites dos seus tormentos e surtara maravilhas. Agora flanava leve como um beija-flor, voejava como um menino arteiro pelos campos, pelos prados, cantava feliz, infantil e indiferente aos direitos e deveres da cidadania, ao flamejar das guerras, à comoção da morte, imune às dores das enfermidades, insensível aos urros das entranhas famélicas. A arte de enlouquecer volveu seu espírito ao mundo das ilusões, aos cantares lúdicos, no tempo em que viver era simplesmente viver; na idade da lenda. Naquele longevo tempo ele habitava numa ilha e era protegido por águas amnióticas.
As pessoas olhavam-no curiosas, algumas se esquivando, outras temerosas, outras zombando. Roubaram-lhe o casaco, a maleta, todo seu ouro. As suas roupas brancas foram ficando sujas, esfarrapadas. Meio mês depois se dirigiu à Via Dutra e seguiu margeando a estrada. Parou em várias cidades, sempre retomando o caminho à frente. Andou, andou, andou. Em exatos oito meses chegou ao sopé do Corcovado. O seu espanto era avassalador. Ao perceber que surtara após ter murmurado ao inferno com tudo e todos e que transcendera à ilusão, Malba Tahan cambaleou. Para não cair recostou-se num poste de iluminação. Barrabás! Como ele fora parar ali? Procurando por resquícios de si outrora, descobriu que suas roupas haviam sumido do seu corpo e vestia roupas escuras, mal ajambradas e imundas. Cheirava mal.
Criou coragem para perguntar a um passante de ares lunático em qual tempo se encontrava.
__ Que é meu , tá me gozando, cara?
__ Não, não de jeito nenhum. Sabe, é que eu tenho problema de cabeça e às vezes eu esqueço quem sou, em que dia e em que tempo estou. Às vezes esqueço até do mês e o ano, como é o caso agora.
__ Ah, se, sei... bem, estamos em dois de fevereiro de 93.
__ Fevereiro de 93? Meu Deus!
__ É cara, fevereiro de 1993. Satisfeito? E não deixa eu perceber que você está tirando um barato comigo que eu te detono.
Com esse tamanico? Improvável, assim pensou Malba Tahan. Gostou da palavra improvável. Seu intelecto fora preservado. O homem seguiu seu caminho sem deixar de olhar para o mendigo. Seu olhar desconfiado fuzilava-o ameaçador. Malba Tahan procurou não provocá-lo. Ele poderia estar armado. A mão armada mata.

Transido, frenético, Malba Tahan fez as contas. Ao descobrir-se nômade e que duzentos e quarenta dias da sua vida haviam se transformado em lenda ele riu, riu que sentiu dor. Uma dor algo próxima à felicidade de alguém que se salvou de uma tormenta devastadora. Uma comoção tragicômica o dominou. Onisciente, lembrou da sua família, dos seus pais, dos seus filhos, de Maria Júlia, de Taras Bulba (seu irmão), de todos. Buscou no coração algum sentimento análogo à saudade, remorso, fraternidade, nada encontrando. Nã deu ouvidos aos pedidos do seu coração: < Ligue para os seus pais, diga-lhes que está bem, que voltará, que está dando um tempo. Por favor, meu amo e senhor!... Leve felicidade àqueles corações atormentados. Tens o dever de fazer isso. São seus pais, seu irmão, sua família, são os seus entes mais queridos neste mundo. Por favor! >
Mas Malba Tahan, ali, naquele momento não teve consciência do seu embotamento afetivo.
Duzentos e quarenta dias, duzentas e quarenta noites, indo de São Paulo ao Rio de Janeiro sem memória, vagando como zumbi, como alma penada. Se alimentando do quê? Dormindo onde? Meu Deus, os meus empregos, eu os abandonei? Assim surpreendeu-se. Seguidamente avaliou o seu estado geral. Olhou as suas mãos. Como estavam magras. Levou-as ao rosto. Sentiu-o esquálido, ossudo.Uma barba rala cobria seu rosto. Os cabelos estavam compridos e emaranhados. Devo estar parecendo Jesus Cristo, pensou. Revistou seus andrajos. Inimaginável! O outrora bonito, elegante, asseadíssimo e envaidecido enfermeiro e sociólogo que os pacientes confundiam com um médico, maquiara-se em paria da sociedade. Estuporado, com as emoções ascendidas aos píncaros da eternidade, Malba Tahan gargalhou, gargalhou que chorou, chorou que desmaiou. Quando voltou à si alguns minutos depois percebeu que ninguém o socorrera. Estava no mesmo local onde seu corpo caíra da própria altura.

“Não havia nele a resignação cristã, nem a conformidade filosófica. Parece que a miséria lhe calejara a alma, a ponto de lhe tirar a sensação de lama. Arrastava os andrajos como outrora a púrpura: com certa graça indolente.” Assim escreveu Brás Cubas quando reencontrou seu amigo de colégio Quincas Borba. Assim eu, a Vida, reencontrei Malba Tahan. Diante de mim, indolente, ele não se envergonhou da sua condição miserável. Insolente, riu-se dos lúcidos; irascível, desprezou a todos que o amavam. Sim, com certa graça indolente, fez questão de continuar andarilhando no mundo mágico das emoções admiráveis. Ele aceitou os andrajos como outrora a seda das suas camisas brancas, acariciou a revolta das suas entranhas famélicas sorrindo, trocou o sólido aconchego do seu lar pela imensidão brutal do mundo. A miséria também lhe calejara a alma, aceitando-a de todo coração, sentindo uma felicidade triste, qual felicidade de mãe que traz ao mundo um filho deficiente.

Ele morrera e ressuscitara. Fora presenteado com outra vida e gostou. Agora era alien de verdade. Quando levantou descobriu que havia molhado as calças. Desta vez ele urrou; urrou que rapapeou, assustando os passantes, e novamente gargalhou. O eterno mijão! exclamou, descobrindo maravilhado que a sua nata timidez havia desaparecido, posto que não se preocupou e não sentiu um grama de vergonha da sua situação insólita, ao contrário, fascinou-se. Nem o nascimento do seu primeiro filho lhe parecera tão espetacular. Filhos são decorrentes de processos naturais, entretanto sua saída espetacular do planeta entranhou em si um fascínio mágico. Com ele pôde se deixar levar na iminência da loucura?

Como era bom ser mendigo!
Agora ele era um mendigo, e dos bons. Um mendigo intelectual. Nada mal!
Não trabalho, não dívidas, não aborrecimentos, não hipocrisia, não pátria, não nada nem ninguém, e não o Deus de Abraão, confundindo tudo na sua cabeça. Crenças e crendices martirizam os homens lúcidos e lançam no inferno os homens loucos. Quão felizes são os céticos! exclama siderado.

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