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Crônica
 
As minhas rosas
Por: Marlene A. Torrigo

No início dos anos noventa, eu presenteei uma tia do meu ex marido com um singelo arranjo de rosas, nas suas bodas de prata. Altivíssima, entreguei o belíssimo ramalhete pessoalmente, muito da boba feliz por estar ofertando flores a uma gente bonita. Pasme quem lê, a titia sequer olhou para as minhas rosas, sequer deixou-se envolver pelo inebrio que emana da rainha das flores.
Ai, as minhas flores... titia desprezou-as assim! Por que ela fez isso? Porque estava com medo do meu ex aparecer e armar banzé na festa ao se deparar com a sua psicose eterna, eu, claro. Em verdade ele era mesmo, e ainda é, um desmancha felicidade alheia. Tipo de ser abominável que por não ser feliz não quer que ninguém seja.
E titia, gente bonita, não poderia ter sido mais cruel. Eu comprei um vestido novo para a minha filha, comprei um corte de seda caríssimo, enfrentei a entorta coluna, digo a máquina de costura e fiz um sexy vestido, sexy não, um insinuante vestido, insinuante também não, fiz um belo vestido. Deu o maior trabalhão. Seda desliza como água na mão, como sonho de verão, como saudade no coração...
Comprei sapatos novos para nós duas, no salão de beleza exigi tratamento cinco estrelas, me embonequei toda, escolhi o arranjo de rosas mais lindo e mais caro da floricultura, gastei dinheiro com táxi. Para usufruir de todo esse frison deixei de honrar alguns compromissos, enfim, pretendi fazer bonito frente aos convivas endinheirados e chiquérrimos da recepção, mas a titia ouruda teve o desplante de recepcionar-me, rangendo entredentes: “Vai embora, Marlene! Quer acabar com a minha festa? Eu te enviei convite, mas não era para você vir.”
Não arredei os pés! Aboleimada por descobrir-me conviva non grata, inicialmente envergonhada, sorriso amarelo, porém, mais demônia do que os demônios quando decidem atazanar os anjinhos no céu, altaneira, passos provocantes, entrei no imenso salão da cerimônia ricamente decorado e, desafiadora, enturmei-me aos convivas, torcendo para o ex aparecer e pôr fogo no circo ao me vir toda-toda.
Meu sorriso, maravilhoso e faceiro (segundo mamãe), fez sucesso. Visivelmente surtada, eu ria à larga junto à grã-finagem. Empanturrei-me à beça com os quitutes servidos, não deixando passar nada. Quando um garçom se aproximava, literalmente eu o atacava. Mandei a minha filha se empanturrar até passar mal. Ora, eu tinha que ressarcir-me do prejuízo já que o ex não apareceu para atear fogo no circo e vingar-me da titia.
Ao final da festança, pouco me lixando para os olhares reprovadores pelos pacotes de doces e salgados que eu roubara dos garçons, olhei ao redor procurando as minhas rosas, com intenção de resgatá-las de um sombrio destino.
Minhas rosas... Sim, elas enfeitariam a singeleza do meu lar, da minha vida. Ai, as minhas rosas, pobrezinhas, não as encontrei. As minhas rosas, lindas rosas! Pobres rosinhas... vilmente relegadas à lixeira da vida.

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