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Conto
 
O SEGREDO DA VIDA
Por: Tolentino e Silva

O SEGREDO DA VIDA

Trabalhando em Belo horizonte, admirador das obras de arte estilos colonial e barroco dos séculos XVII e X VIII, rebuscados, tenho, na medida do possível, observado alguns desses imóveis.
Viajo no passado como num túnel do tempo e diante daqueles monumentos, faço a mim mesmo dezenas de perguntas: De onde vieram tantas técnicas e sabedorias? Quais os materiais usados para tão grandiosas e exuberantes obras? De quem são os projetos e quais engenheiros acompanharam estes monumentos notáveis? Onde estudaram para adquirirem tais conhecimentos?
A largura das paredes, a fixação das torres, a qualidade das cerâmicas e ladrilhos, os lambris que desafiam o tempo, o altar-mor, os balaústres que sustentam os peitoris e corrimãos, os vitrais com estampas e símbolos religiosos causando admiração e respeito aos autores e executores das obras.
Uma dessas maravilhas que me deixa embasbacado pela sua exuberância e motiva o regozijo é a Igreja Nossa Senhora do Patrocínio em Virginópolis, Minas Gerais, cidade onde nasci em 1950. A igreja está localizada na parte alta da cidade. Sua história é maravilhosa. Conta-se que Nossa Senhora aparecera para alguns lavradores que trabalhavam naquele local. Devido a esse fato, construíram inicialmente uma capela e posteriormente a igreja, que recebeu o nome de Nossa Senhora do Patrocínio, em homenagem à santa.
Às vezes, ainda criança, me posicionava diante dela e ficava admirando a sua beleza. Como se diz na gíria, na linguagem eletrônica ou elétrica, ficava plugado. Mais tarde, já tido trabalhado em diversos tipos de construções em São Paulo (estações do metrô e conjuntos habitacionais), em Minas Gerais (Açominas - Ouro Branco) e em Brasília, onde Oscar Niemeyer mostrou todo o seu talento e técnica no que há de mais moderno no mundo do concreto armado, voltei a Virginópolis.
Após tanto tempo no ramo da construção civil, em ocupações diversas, concluído o curso de Técnico em Transações Imobiliárias pelo CRECI-DF 8ª Região, me tornei não um perito nem engenheiro, mas alguém com conhecimento mais apurado e discernimento suficiente para avaliar e julgar a qualidade de uma obra.
Eu, ali, pasmo, admirando aquela igreja, à minha interpretação, trata-se de uma obra de arte. Digo isso em virtude de não somente ela, mas as demais, do seu tempo ou anterior a ela, terem sido construídas sem os recursos tecnológicos hoje existentes. Tudo parece ter sido feito de forma artesanal.
Estando muito tempo fora, ter saído da cidade natal aos doze anos, só restaram lembranças de dois padres que foram responsáveis pela igreja: do padre David, do qual só ouvi a sua história, por sinal, repleta de elogios expressados pelos virginopolitanos devido à sua dedicação, amor pela cidade e pela igreja, cujos trabalhos ajudaram a realizar, inclusive algumas obras notáveis e do padre João, do qual fui coroinha e o auxiliava nos ofícios divinos.
Era muito bom sair vez em quando pelas longínquas comunidades rurais, onde o padre João realizava as confissões, batizados e celebrava missas para aqueles povos que não podiam se deslocar para uma cidade próxima.
Saíamos eu, o padre João e o motorista.
O veículo era um Jeep DKV Wemag. Íamos rezando o terço de Nossa Senhora pelas estradas ruins, que mais pareciam caminhos, na linguagem do mineiro, verdadeiros trieiros.
Lembro-me muito bem que as missas ainda eram celebradas em latim. Um detalhe, o padre celebrava de frente para o altar e de costas para os fiéis.
Novamente em Belo Horizonte, cada final de semana eu visito uma dessas arquiteturas. Para mim é como estivesse renascendo. Inveja-me muito o montanhês belo-horizontino. É um povo coroado.
A igreja São José, que tem a sua entrada principal pela Avenida Afonso Pena deixa-me boquiaberto. Seu interior com seus desenhos de personagens bíblicos, as pilastras, os adornos, as imagens! Abençoadas foram as mãos que desenharam e pintaram tão valiosas e representativas figuras.
Nos meus trajetos do hotel ao local de trabalho e do local de trabalho aos restaurantes onde costumo fazer minhas refeições existem várias obras antigas. Aliás são algumas delas pois, estão espalhadas por todo a cidade.
Há aproximadamente dois longos anos passo por ali. Sempre correndo, olhando para o relógio que não pára. As horas passam rapidamente, principalmente aquelas curtas horas dedicadas à alimentação.
Certo dia, desta vez andando tranqüilo, passos lentos, tudo foi diferente. Já que no trabalho estava tudo em ordem, fui, pela primeira vez observando os prédios, as árvores, a avenida, os veículos que transitavam em todas as direções e os pedestres, um amontoado de pessoas se esbarrando, desviando umas das outras, passos acelerados. Como dizia o saudoso Raul dos Santos Seixas, na sua famosa canção S.O.S, "formigas que trafegam sem por que".
Um detalhe numa das obras, mais precisamente o prédio do Tribunal de Justiça de Minas Gerais - TJMG , me chamou a atenção.
Embora não seja um artista plástico, nas horas vagas gosto de fazer algumas pinturas, na esperança de que elas fiquem mais ou menos parecidas com o original, e nem sempre isso acontece. Esse pequeno detalhe não fazia parte da arquitetura. Cá da calçada avistei o que não estava procurando. Subi a escadaria e deparei-me com um pequeno arbusto, de frágil lenho, que nascera certamente de um bago esvoaçado de alguma árvore próxima ou jogado ao chão pelas mãos de alguém ou quem sabe, deixado ali por algum animal após alimentar-se do fruto.
Nascera numa tão pequena e apertada fenda, a ponto deixar intrigante os olhos e a mente de um observador.
O que veio naquele momento foi a vontade de documentar, tirar uma fotografia. Porém, estava desprovido do equipamento fotográfico para tal procedimento. Restou-me então como opção contemplá-la e descreve-la antes que alguém a ceifasse,
Diante desse intrigante fato, apoquentado, como diz o nordestino, pensei: é um mistério! Por que esta semente foi cair exatamente naquela fenda? Tinha noventa e nove por cento de chance de cair na calçada ou sobre a escadaria e ser pisoteada pelos transeuntes e apenas um por cento de estar naquele lugar.
Perguntas e mais perguntas sem respostas! Não havia explicação!
Voltei ao trabalho e fiquei inquieto, pensativo a tarde inteira. Aquela planta me tirava o sossego.
Ao deixar o local de trabalho passei na igreja, onde assisto a missa quase todos os dias, não à tarde como naquela hora, mas pela manhã, a missa das sete horas, que é dedicada aos trabalhadores.
Adentrei, ajoelhei-me, fiz o sinal da cruz e tentei rezar. Não consegui concluir minhas orações, pensando na solitária plantinha na escadaria do TJMG.
Uns dez minutos ali, com os joelhos sobre o chão e vendo que não conseguia me concentrar, tomei uma decisão: fui para o hotel com a finalidade de dormir mais cedo, talvez eu conseguisse esquecer o ocorrido.
Já no hotel, peguei as chaves e fui para o meu quaro. Tomei um banho, fiz um lanche, assisti o jornal, baixei o volume da televisão e me concentrei na leitura do livro de Leonardo Boff, "A águia e a galinha". Metáforas que estimulam ir à luta, a ser perseverante, a praticar o bem, a ser um guerreiro. Ser uma verdadeira águia e não uma galinha.
Acordei-me já no dia seguinte, com o livro na mão, televisão ligada. Levantei-me, escovei os dentes e caminhei em direção ao salão, onde é servido o café da manhã.
Tomei o tradicional café do mineiro: café com leite, biscoito de goma, broa, queijo minas, sucos e frutas típicas da região.
Despedi-me dos empregados do hotel e fui para o trabalho. Ao me aproximar da igreja lembrei-me da pequenina planta, motivo da minha inquietação no dia anterior.
Era hora da santa missa. Já estava no ofertório. Entrei devagarzinho para não ser notado nem tirar a atenção daqueles que chegaram há mais tempo. Fiz os procedimentos de sempre e tentei rezar. Mais uma vez, não consegui me concentrar. Ficava imaginando como aquela semente havia chegado àquela fissura, a única existente em toda a escadaria.
De súbito, cheguei ao óbvio, ao incontestável: é uma obra divina. Deus quis que aquele grão germinasse e tomasse forma de vida. Um germe que se tornará árvore florescerá, frutificará e multiplicará.
Chegando a esta única conclusão, a paz voltou a reinar.
Desejo, de todo o meu coração, que o jardineiro ou quem quer que seja que certamente irá arrancá-la, perceba assim como eu tive a graça de perceber, que ali não está simplesmente um arbusto solitário, numa pequena fenda de uma imensa escadaria. Que não a destrua, mas transporte-a para um local adequado, pois ali, acima de tudo, está uma vida, um dos mistérios de Deus.

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