A casa dos grandes pensadores

Bem-vindo ao site dos pensadores!!!

| Principal |  Autores | Construtor |Textos | Fale conosco CadastroBusca no site |Termos de uso | Ajuda |
 
 
 

 

 
Crônica
 
Sou escrava do meu destino
Por: Marlene Nascimento

Eu tenho me esforçado bastante para no ano que vem cursar Filosofia, não com pretensão de plano de carreira, mas, isto sim, a fim de dilapidar o meu dom da palavra escrita, podendo também adquirir embasamento científico dos textos que escrevo. Entretanto, devido a problemática de eu já ter dobrado o Cabo da Boa Esperança há um tempo considerável, algumas pessoas fazem-me perguntas, diria, constrangedoras, desmotivadoras, demolidoras, tipo “Seu sonho é levar um diploma superior para São Pedro?”
Quando assim, eu me defendo redargüindo que não tenho outra saída, porque São Pedro foi taxativo, deixando claríssimo que se eu não me bacharelar no céu d’ele eu não entro.
Mas, graças, porque existe quem me anima, pessoas que ficam maravilhadas pela minha garra, determinação, coragem, forcejando-me a seguir em frente.

Anos atrás eu tinha uma amiga (com minha idade e minha xará) cinqüentenária que às duras penas acabara de bacharelar-se em advocacia. Ela me dava aulas de pintura em tela e certo dia me disse, toda feliz da vida, que iria realizar o seu primeiro provão na OAB. Nesse mesmo dia ela reclamou de uma insistente cefaléia (dor de cabeça) que a estava incomodando muito, a qual não a deixara dormir direito na noite anterior. Ela tomará alguns analgésicos e nada da dor sumir. Eu disse: Marlene, com essa dor tão forte assim, é melhor você ir ao médico. Com o hospital na sua frente e você não foi ainda? Vai lá, passa no PS. Essa sua dor de cabeça não é normal? Tantas porcarias que você já tomou (analgésicos), já era para a dor ter passado. Você sofre de enxaqueca?
Ela disse que não e eu insisti para que fosse ao médico. Ela não foi. De madrugada seu estado piorou, os familiares levaram-na às pressas ao hospital onde deu entrada praticamente em coma, vindo á óbito dois dias depois.
Eu faltara na aula seguinte e quando retornei recebi a notícia do falecimento. A forte dor que ela sentia se intensificara ao ponto da morte. Era meningite.

Destarte, sempre que eu esfrego as mãos de satisfação sabedora que eu vou, finalmente, ser agraciada com um diploma universitário em função da minha cabeça “inteligente”, eu penso na Dra. Marlene. Ela estava montando um escritório de advocacia e falava das maravilhas que seria trabalhar como advogada, um sonho tenazmente perseguido.
Confesso que sinto um calafrio percorrendo a veia-mor da minha existência relembrando a felicidade tamanha que ela sentia, mas eu... eu também sou escrava do meu destino.

O meu sonho de cursar uma faculdade remonta da adolescência. Não cabe aqui narrar porque não a cursei quando jovem. Tive sim uma vida muito conturbada por problemas de esquizofrenia em família; mãe, ex-marido e meu filho do meio (36 anos, psicótico há vinte), um caso gravíssimo e irreversível da patologia, que o torna incapaz de gerir os seus atos da vida cível. Não os culpo de nada, nem a mim por não ter me formado antes. Nem tudo na vida acontece como nos nossos mais belos e requintados sonhos.

Bem, deveras que eu ainda tenho uma grande chance de ser aceita no céu. E quem sabe, depois de Filosofia eu ainda consiga um tempinho extra para cursar Ciências Sociais (rsrs...), deixando São Pedro maravilhado e Satã de queixo caído.

 Comente este texto
 Paralerepensar


Comentário (0)

Deixe um comentário

Seu nome (obrigatório) (mínimo 3, máximo 255 caracteres) (checked.gif Lembrar)
Seu email (obrigatório) ( não será publicado)
Seu comentário (obrigatório) (mínimo 3, máximo 5000 caracteres)
 
Insira abaixo as letras que aparecem ao lado: YAEZ (obrigatório e sensível. Utilize letras maiúsculas e minúsculas;)
 
Não envie mensagem ofensiva e procure manter um intercâmbio saudável com o seu correspondente, que com certeza busca dar o melhor de si naquilo que faz.
Seu IP sera enviado junto com a mensagem.