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Conto
 
Lendas da vida
Por: Marlene A. Torrigo

São duas mulheres. Ambas nasceram em 1925, nascidas bisnetas de escravos africanos, netas de avós nascidos forros __com a promulgação da Lei do Ventre Livre, sancionada pela Princesa Isabel, em 1871__, as duas são Tereza com zê de zabumba, as duas são viúvas, as duas moram sozinhas na mesma cidade litorânea e bairros vizinhos, e as coincidências param aqui.
Uma se chama Tereza Santos e a outra Teresa Venturini. Os sobrenomes são fictícios, a fim de preservar as senhorinhas, posto que este conto baseia-se em fatos reais. Vamos a ele.

I – Então ela chora...

Tereza Santos é uma senhorinha de ar austero. Negra como o ébano, percebe-se nela belos traços africanos e que deveras foi uma moça muito bonita. Embora sofra de algumas doenças próprias da velhice ela tem um porte ereto e elegante. Parece uma daquelas bás austeras que vemos em novelas ou filmes dos tempos da escravidão. É educada, recatada, não dada a dar confiança para qualquer pessoa, selecionando muito bem as pessoas que podem entrar na sua casa, podendo-se contá-las nos dedos. É difícil, mas uma vez ganhas suas simpatia e confiança é-se convidado a entrar, provar do seu cafezinho e ouvir a história da sua vida. Espirituosa, mais lúcida do que muitas mulheres com metade da sua idade, ela conta causos com graça e desenvoltura, mesmo tendo sobrevivido a duas tragédias.
Tereza teve dois filhos. A sua filha caçula morreu queimada aos treze anos, quando, brincava de casinha com as amigas e atearam fogo na casa. Anos depois o seu filho bateu o carro e morreu devido lesões múltiplas.
Tereza casou-se mocinha e quando perdeu os filhos ela ainda se encontrava em idade fértil, mas seu marido não mais quis saber de gerar filhos, profetizando que se os tivessem, perdê-los-iam também para a morte trágica. O casal sobreviveu à dor agônica de ter-lhe sido negado a ventura de perpetuar-se nos netos. O marido de Tereza, homem antes alegre e feliz, rendeu-se ao silêncio após a morte dos filhos. Brigou feio com Deus e com Ele não mais fez as pazes. Morreu velho, triste, amargurado e muito sofrido pela tragédia da perda dos filhos. E Tereza ficou só. Não tão só, posto que tivesse muitos sobrinhos. Eles, tão logo Tereza enviuvou, começaram a surrupiar-lhe as duas pensões. Uma deixada pelo seu marido e a dela própria, por anos trabalhados. Um dia Tereza encheu-se de todos, alugou uma casa na praia e desde então mora sozinha, preenchendo os seus dias e noites com lembranças das nuanças sazonais, especialmente lembranças dos seus filhos quando pequenos correndo pela casa, enchendo-lhe a vida de alegria.
Quando ela discorre sobre esse tempo, seu olhar perde-se nas veleidades de um tempo que viaja mui longe, emoldurado nas singelas e nas tormentosas lembranças, enevoadas lembranças dos seus tristes pensamentos.
__ Meu marido chegava do serviço e as crianças corriam para ele perguntando alvoroçadas: “Paizinho, trouxe doce hoje?” Era uma festa. Ele era um pai tão bom. Às vezes eu pergunto para Deus porque ele foi cruel comigo e meu marido. Eu tive que aceitar a morte dos meus filhos sem me deixassem netos. Eu fui obrigada a aceitar, fui obrigada a continuar vivendo apesar de ter morrido junto com eles. Eu... eu podia ter agora uma família grandiosa, mas... fiquei sozinha... muito sozinha. Os meus filhos morreram antes de mim porque Deus quis assim. Eu tive que aceitar isso... tive sim. Deus... Ele não me deu nenhuma outra saída... nenhuma.
Então ela chora... um choro sem lágrimas, num lamento de quem morreu muitas mortes.
Tereza Santos é uma mulher de personalidade forte, marcante. Embora tenha perdido os filhos de forma trágica, as pessoas não sentem exata pena dela, mas, isto sim, muito orgulho dessa mulher admirável.

II – Então ela ri...

Tereza Venturini é uma sarará racista. Ira-se se alguém ousa dizer que ela é negra. Desenha-se branca e fala orgulhosa do seu falecido marido branco. É uma senhorinha sem graça e pelos seus traços será possível perceber que a natureza não lhe foi muito generosa nos anos dourados.
Tereza não é uma senhorinha recatada. Algumas pessoas contam que Tereza foi dançarina dos antigos cabarés no pós Segunda Grande Guerra conseguindo casar com um dos seus muitos clientes, de quem herdou o sobrenome italiano. Ela diz alguma coisa a respeito, com um quê de lembrança de moça danada, sorriso libidinoso bailando no olhar. Nota-se que ela fica tentada a contar pormenores dos seus áureos tempos, mas retrocede. Diz que foi ótima dançarina de clubes e bailes familiares, mas pelo seu jeito irreverente de ser, deduzem ser bem verdadeiras histórias de que ela proporcionou muitas alegrias ao sexo oposto.
Ela recebe suas visitas, não seletivas, de maneira nada recatada. Se estiver de camisola transparente, assim as recebe, sem preocupar-se em vestir um peignoir que esconda o corpo pendendo às forças da gravidade. Quando dizem para que se vista decentemente, afirma que mora na praia, onde todos andam nus.
Então ela ri... um riso deformado, um riso de quem esconde uma dor desesperada.
A doce senhorinha elogia mais do que necessário seus amigos e amigas. Há quem interprete tanta melosidade de “você e lindo, você é linda”, mãos-bobas e olhares sugestivos, como cantada explícita e descarada. Tereza é dona de um linguajar vulgar, fala palavrões, sendo exacerbadamente mística. Fuma e endivida-se sobremodo, e vive às voltas com rolos. Percebem-se nela vestígios claros de disfunção psíquica, que interpretam como safadeza.
Tereza tem um filho que mora em outra cidade. Tem quatro netos e seis bisnetos. A nora a odeia. E pasmem-se! Ela tem um namorado com metade da sua idade, em verdade um aproveitador que aparece apenas para surrupiar o seu quinhão das aposentadorias da amante idosa. Eis a explicação de Tereza viver metida em rolos. O sujeito é de engulhar as vísceras, menos as da sua “musa”, que o adora. O filho também se aproveita muito da mãe e também uma ou outra pessoa mal intencionada que sabem que ela ganha bem. Por ser quase surda e escutar sofrível mesmo com a ajuda de aparelho auditivo e pela ingenuidade da idade, a senhorinha é sempre roubada. Amiúde zeram-na, até o próximo pagamento.
Alguém poderá dizer que é impossível que exista uma senhorinha com o perfil de Tereza Venturini. Existe sim, e ei-la toda nessa narrativa fiel. Viva, ainda viva, por enquanto. Lenta, frágil, tomada de doenças da velhice agravadas pelo tabagismo, algumas pessoas conseguem sentir-lhe pena. Outras afirmam que os canalhas também envelhecem.

Duas Terezas, dois corações, dois destinos. Duas vidas distanciadas na mesma eternidade. Duas mulheres fascinantes que caminharam nas veleidades da vida por dimensões díspares. São lendas vivas. Não tarda transformar-se-ão em lendas mortas.


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