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Paulo Murilo Carneiro Valença
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Cadeiras da saudade
Por: Paulo Murilo Carneiro Valença


1
O terraço, com as duas cadeiras de balanço e a mesinha-centro defronte dessas. Senta-se na cadeira que está próxima. Embaixo, a rua, a praça defronte vazia, as residências nas laterais. Muradas, de portões largos. Pedestres cruzam as calçadas. Os carros e motos passando, contornando a praça, desaparecendo ao entrar nas ruas transversais, enquanto a tarde vai morrendo. Quantas vezes presenciou o que vê? Naquele tempo seu pai era vivo, e sentado noutra cadeira, fechando os olhos, falava:
- Gosto muito desse terraço. Daqui vejo tudo.
Ele aquiescia, entendendo o velho:
- É papai, o senhor tem razão, aqui é agradável.
- Muito!
Saber que houve àquelas horas, que...
- Pensando em quê, meu filho?
Indaga a senhora de estatura pequena, alva, gorda, chegando.
- Estava me lembrando de papai.
Ela em passos curtos devagarzinho ocupa a outra cadeira à frente.
- Sim? Seu pai será sempre lembrado pela família.
Silêncio entre ambos. Ele evita fitar o rosto de traços corretos, de olhar tristonho, a cabeleira estirada, curta, branca, pois teme ver as lágrimas da saudade, que sempre surgem ante à lembrança do que houve. E torna a falar, puxando assunto:
- A senhora vai quando ao médico?
Ela responde (a voz mais baixa?) fitando-o:
- Ainda este mês. Lá pra o dia 15.
- Sim.
O vendedor passa na rua, empurrando a carrocinha e gritando:
- Macaxeira papinha. É boa demais freguesa!
O pregão numa repetição... A nossa vida é mesmo como um filme: cena após cena, numa seqüência que se interliga, enquanto o tempo indiferente a tudo, continua egoisticamente em sua marcha.
- Como está a Dalva?
A indagação o desperta ao presente. Então, com a atenção aos globos dos postes da praça que se acendem, responde:
- Naquilo mesmo mamãe. É a gente se conformar. Ainda nova, cheia de vida! Mas, é como se ninguém tivesse culpa de nada. Quando tem de acontecer...
- “Ninguém tem culpa de nada”, parece mesmo que a gente não passa de uns bonecos do destino!
A idosa de repente se ergue e encarando-o:
- Você fica para jantar?
Ele aí se volta e lhe fitando o rosto mais pálido, os olhos sem brilho, os cabelos fininhos, emborcados, alvos:
- Hoje não, mamãe. Tenho ainda um negócio pra resolver...
- Você é quem sabe, mas, deixe-me ir ver como a Maria está se portando na cozinha.
Retira-se, arrastando os passos, no receio de cair, faturar um dos ossos e ficar dependendo de ajuda para se locomover.
Foge a vista indiscreta. Ah, se fosse um sujeito prático, encarasse tudo com naturalidade, não sofresse com o que presencia e entende...
- Deixa pra lá.
A voz baixinha, em desabafo.
Cadencia-se, com atenção outra vez no que ocorre lá fora.

2
Na cadeira de rodas está Dalva, no terracinho. Esperando-o. Só se tranqüiliza quando o vê chegar.
- Com tantas maldades por aí.
Ele então tenta lhe acalmar o espírito e sorrindo:
- Mas Dalva, vamos pensar positivo!
Abre o portãozinho e transpondo-o, cruza o jardim (tão mal cuidado!) e chega ao terracinho.
- Como está sua mãe?
- Achei-a mais abatida, muito acabada!
- É a idade João.
- Sim, é a idade. Bom... Vou tomar o meu banho.
Adentra na sala conjugada e cruzando-a, segue pelo corredor que o conduz ao banheiro à esquerda.
Sozinha, Dalva reflete. O João sempre visita a mãe, D. Carminha. É solidário, bom filho. Entende a velhice da mãe...
- Cada um com a própria cruz.
As mãos de longos dedos então se apóiam nos braços sobre as rodas e num esforço impulsiona a cadeira à frente, ausentando-se do terracinho, retornando à cozinha, onde esquentará o jantar do marido. Afinal, nada pára, a vida continua, aconteça o que acontecer...
Ouvindo a zoada da água caindo do chuveiro, com dificuldade acende o fogão.

Lu Dias BH disse:
Paulo Valença O escritor dos contos curtos.
Você é o escritor de seu tempo.






















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