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Paulo Murilo Carneiro Valença
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Natal
 
Brinquedos da noite
Por: Paulo Murilo Carneiro Valença



1
Prepara-se para sair. Veste a blusa vermelha, as calças brancas, escolhe as sandálias pretas e, defronte ao espelho, devagar passa o creme sobre as faces. Pensativa. O Marcos irá encontrá-la naquele barzinho à beira-mar, ali em Olinda. Está tudo certo. Como sempre, ele será pontual, não faltará ao encontro. Conhece-o bem. Um cara de palavra, à moda antiga.
Sorri com a frase “à moda antiga...” Sacode os cabelos para trás, num gesto nervosinho, gracioso e erguendo-se da banqueta cruza o quarto.
Desce a escada em caracol, sob o olhar da mãe na cadeira de rodas, afasta-se apressada. Não, não quer vê a imagem da senhora magra, envelhecida, acabando-se na doença sem cura, vivendo (vivendo?) de remédios. E saber que chegará à hora na qual terá de internar a mãe, na preparação da morte! Mas, assim é a vida. Os imprevistos. A sentença determinada.
No oitão da residência, entra no automóvel e logo está na avenida ainda bem movimentada nessa noite da sexta-feira, em que como uma tradição, os casais buscam os bares, os recantos com música, “embalos”.
Um dia, numa hora, todo esse seu presente, como é natural, se converterá em lembrança. Até lá...
- Danem-se as reflexões!
O desabafo baixinho, na voz rebelde, em protesto do que lhe sucederá.
Dirige com precaução, evitando uma “batida”, ou um atropelamento. Consulta o relógio, no pulso: 9, 39. O Marcos deve estar chegando. Que merda: esqueceu o celular!... Moreno, alto, esguio. Sorridente, charmoso, bonito. Até quando se encontrarão, nessa curtição que os conduz aos jantares e depois ao leito do motel?
Então, de repente acontece: o carro na contramão atravessa à frente, como se tivesse vindo do nada.
Perplexa, ela grita angustiada, porém, a batida é inevitável. E o rosto cai sobre a direção. A dor que lhe corta a cabeça. A sensação de estar leve, em repouso e, cerrando os olhos, se apaga.
O motorista do outro carro abrindo a porta corre, chegando, solidário, enquanto o trânsito pára com o som das buzinas dos demais veículos se convertendo num só, gigantesco, em protesto. E pedestres na curiosidade sádica de sempre, também se avizinham, formando o círculo em volta aos dois carros.
- O que houve ali, irmão?
Indaga o rapazinho, na calçada, ao senhor brancoso, magro, mal-vestido, que sem o fitar, responde:
- Tudo indica que foi uma tombada de dois carros.
- Vamos lá, irmão!
Lado a lado encaminham-se ao grupo agora em volta do carro com a moça desmaiada (desmaiada?) e o senhor gordo, o motorista do outro veículo, nervoso, gritando:
- Vamos ligar, vamos ligar pedindo socorro!
Ante o silêncio pesado dos demais, ele então busca o celular nos bolsos da calça.
- Onde danado tá o meu celular? Porra!

2
Consulta o relógio no pulso. Nove e trinta. A Cilene já deveria ter chegado... Retira o celular do bolso da camisa e disca sem, contudo, obter resposta.
- Não atende.
O garçom se avizinha:
- Outra dose, doutor?
- É traga, reforçada.
- Tudo bem.
A Cilene... Será que lhe aconteceu algo? Bem que antes de sair do trabalho, tivera de repente, o pressentimento. Como um aviso, e quando algo lhe irá acontecer, presente...
Cercando-o estão as mesas na maioria ocupadas por casais jovens. O som das vozes. O tilintar dos talheres. As risadas. Tudo seguindo a seqüência natural das noites de sexta-feira.
- A dose, doutor.
- Obrigado.
Toma-a apressado, nervoso. E agora?

3
Cilene fala sorrindo, as covinhas surgindo no rosto moreno, os olhos negros, grandes, semi-cerrados, a voz nítida, e a mão de longos dedos pousada sobre o dorso da mão do rapaz:
- Marcos você se lembra?
Ele fitando-a, inquire interessado:
- “Se lembra” de quê?
A jovem tornando-se séria:
- Daquela sexta-feira do acidente...
Ele então lhe apertando a mão, num gesto de lhe transmitir afeto e coragem para que ela enfrente a recordação, responde:
- Claro que me lembro. Enquanto viver, jamais esquecerei aquela noite. Fiquei aqui lhe esperando, com o pressentimento ruim, como um aviso, de quando terei uma surpresa desagradável...
- É, mas tudo passou... Fui socorrido pelo sujeito do carro que se atravessou na contramão de encontro ao meu. Fui levada por ele para o HGR e no dia seguinte já estava de volta à vida, toda machucada, toda dolorida e com você, ao meu lado, meu fiel amante!
Sorriem, e erguendo o braço, Marcos com a mão aberta acena ao garçom, solicitando bebida.
Em volta, as mesas estão cheias de casais jovens, alegres, descontraídos. O conjunto nos fundos do salão inicia a apresentação. O zunzum das vozes cresce e lá fora, automóveis e motos estacionam, enquanto à esquerda há a praia deserta, com o mar escurecido e misterioso fazendo parte da cena noturna.
- Cilene vamos?
- Vamos.
Paga a despesa o casal se retira e logo no carro, segue para o leito do motel no bairro vizinho, que os aguarda, na acolhida do amor.
- Até quando “curtiremos” essas noites das sextas, Cilene?
- Ah, Marcos quisera eu saber o nosso futuro, que com toda certeza virá!
Silenciam e o carro adianta-se macio, possante, na avenida pouco movimentada.
- Pois é minha adorável Cilene: o futuro virá.
Calam-se novamente, enquanto o carro ganhando distância vai se tornando pequeno, como se fosse um dos brinquedos da noite.



Lu Dias BH disse:
Paulo Valença O escritor dos contos curtos.
Você é o escritor de seu tempo.



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