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Paulo Murilo Carneiro Valença
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Conto
 
Convite ao pecado
Por: Paulo Murilo Carneiro Valença

1
O mar próximo, com as ondas que chegam à praia para morrerem ao se dissolverem na areia escurecida pela pouca iluminação dos postes aqui e ali. Os coqueiros que agitam as folhas longas a brisa da noite que avança ao encontro da madrugada. Automóveis que aos poucos se resumem. Uma ou outra moto passando. Transeuntes em número reduzido apressados no receio de um repentino assalto... A figura da mulher esguia, nova, de calças compridas azuis, blusa amarela, bolsa presa ao ombro esquerdo, os cabelos negros, longos, estirados. O braço que se ergue e com a mão nervosa penteia os cabelos para traz, num gesto gracioso, feminino.
Parada ela espera o próximo “convite” de um desses motoristas de carros, para o “programa” amoroso. Busca então o cigarro na bolsa. Acende-o e traga, devagarzinho, curtindo-o.
Os edifícios altos, de varandas desertas, imponentes, modernos, bonitos estão do outro lado da pista que a separa deles. E os percebe oscilando de um para o outro lado, num jogo engraçada... Entende: é o efeito do cigarro forte que começa a dominá-la. Sim, por minutos a dominará, mas, logo retornará ao natural, então se sentirá leve, em paz com o mundo em volta.
- Em paz...
Diz baixinho, sorrindo, subjugada ao poder da droga. Traga outra vez. Aguarda. Tem de chegar a casa com a “grana”. O filho pequeno adoentado...
O automóvel cinza, possante, macio se avizinha. Será que?...
Indaga-se. Então o carro estaciona. O vidro fumê desce e a voz do rapaz a direção:
- Vamos dar um “giro” morena bonita?
Ela sorri, aquiescendo, e se encaminha à porta que aberta, aguarda-a. Adentra. Fecha a porta e o carro parte.
- Você sempre fica por aqui?
- Não, somente hoje é que vim.
- Entendo, morena bonita.
O automóvel avança, ganhando a avenida praticamente sem outros veículos e pedestres nas calçadas.

2
Dr. Oscar está no terraço e olhando para baixo, no oitão, e vendo o carro cinza do filho:
- O Júnior já chegou, o carro dele está ali.
Volta-se e fitando a esposa à frente, sentada na outra cadeira de balanço, inquire:
- Marluce que horas ele chegou?
Ela fugindo o rosto de lado, evitando-lhe o olhar crítico, que lhe denuncia a contrariedade:
- Chegou hoje de manhazinha. Não sei como você, Oscar, não ouviu a zoada do portão se abrindo e o carro parando.
Ele volta à atenção ao veículo:
- Ouvi não.
Suspira e torna a falar:
- Sei não... O Júnior não quer ter responsabilidade com nada. Não trabalha. Não tem gosto pelo estudo. Agora mesmo está sem freqüentar o colégio. O que será dele no futuro? Enquanto eu estiver vivo, que puder ampará-lo...
Silencia de repente, sentindo-se cansado. Fecha os olhos, repousa a cabeça no encosta da cadeira e balança-se devagarzinho, como se evitando ver o carro, não se lembrasse do filho e da contrariedade que esse lhe dá.
Marluce entende-o e calada, também se cadencia. Os filhos nos dar alegrias e preocupações. O Júnior criado com tudo que desejava ( talvez esse tenha sido o erro maior da criação que teve) enxerga a vida de um ângulo diferente, onde tudo lhe é permitido, onde a luta pela subsistência não existe e só o seu egoísmo prevalece sobre tudo.
- Sobre tudo...
Repete, dando voz à conclusão angustiante e, nervosa, fita o marido, que agora está com a cabeça arreada sobre o tronco magro. Cochilando? Vendo-o assim abatido, o rosto castigado pela idade precoce, a cabeça grisalha, a respiração alta... Sensibiliza-se e com a vista embaçada ausenta-se da varanda, fugindo novamente dos olhos que exprimem a dor pela incerteza do futuro do filho, enquanto o sol indiscreto da manhã entrando na varanda chega às pernas do homem, que o recebe com indiferença.

3
O mar hoje à noite está nervoso e as ondas vêm morrer bem agitadas sobre a areia da praia deserta, mal iluminada por os postes aqui e ali. Os coqueiros recebendo a brisa do vento frio agitam as folhas numa cadência alta, de gemidos.
A mulher nova, esguia, à esquina do prédio fechado, espera. As calças azuis, a blusa amarela, a bolsa de correia presa ao ombro. E a mão que a abrindo, retira o cigarro... Os gestos e a cena repetida.
O automóvel preto se avizinha. Estaciona. A porta se abre e a indagação do seu condutor:
- Quer dá uma voltinha, beleza?
O sorriso. A aquiescência. A porta aberta. Ela entra. E o carro afasta-se ao encontro do pecado que os aguarda no motel circunvizinho.
O Gabrielsinho está tossindo muito, com febre, tem de levá-lo ao posto. A despesa com os remédios...
- Pensando na vida?
A voz grossa a desperta das reflexões.
- É, estava. Mas... Desculpe-me a pergunta: O senhor é casado, tem filhos?
A risada. E a resposta:
- Sou não, minha linda. E eu sou besta para assumir problemas?
- É, o senhor tem razão.
Silenciam. Ainda sorrindo, o homem “coroa” conduz o carro pela avenida agora deserta de outros veículos e sem nenhum pedestre caminhando apressado nas calçadas laterais. O que esse cara lhe pedirá no leito? O coração bate, aflito. E ela sente a mão pesada, grande, alisando-lhe a coxa.
Passiva, serva à profissão, não reage, enquanto a mão avança. Atrevida. Pecadora.


Lu Dias BH disse:
Paulo Valença O escritor dos contos curtos.
Você é o escritor de seu tempo.







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