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Paulo Murilo Carneiro Valença
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Conto
 
Armadilhas do destino
Por: Paulo Murilo Carneiro Valença

1
A irmã, Graciete, pelo telefone lhe dá a notícia:
- O nosso padrasto teve um derrame.
Ele, Silva, não pode esconder a perplexidade:
- Mas... Quando foi isso? E mamãe?
Graciete se detalha, na franqueza de sempre:
- Mamãe está preocupada, como, aliás, é natural. E o nosso padrasto já está em casa, sendo cuidado por mamãe e uma enfermeira.
Silencia. Ele nada mais fala. Espera. E a irmã:
- Você vai visitá-lo Silva?
- Vou, vou.
- Está bem. Vá, que depois irei. Estou muito atarefada no trabalho...
- Entendo.
Desligam.
Pondo o fone no gancho, ele se senta no sofá vizinho. Pensativo. O que é a vida, de repente, nos chega o inesperado. Mas quem pode se livrar das armadilhas do destino? Ninguém. Somos uns bonecos da vida. Somos...
A esposa entra na sala.
- Alguma novidade, Silva? Estás aí tão calado...
Ele desperta ao presente e fitando-a, vê que a mulher está mais gorda, com a cabeça ficando grisalha, os olhos na tristeza da velhice que se avizinha, os gestos cautelosos, como se estivesse se contendo. Ah, Vera, o tempo é implacável, castiga todos nós e nos transformamos em outros seres!
- Fala criatura!
Silva sorri, escondendo-se e responde:
- A Graciete me disse agora pelo telefone que seu Gustavo teve um derrame e está em casa, com mamãe e uma enfermeira cuidando dele.
- Santo PAI!
- Pois é. Depois dou um pulo até lá.
- Vá mesmo. Sua mãe precisa numa hora dessas, de uma palavra de consolo.
Emudecem, como se obedecessem a uma ordem.
Da avenida circunvizinha chega-lhes o som dos automóveis passando. O vento adentra na sala, e circulando lhes agasalha os rostos tensos com os pensamentos. Mas, Silva reage, integrando-se outra vez ao presente:
- A Lúcia e o André saíram?
Ela responde cabisbaixa, ainda entregue às reflexões:
- Saíram. A Lúcia foi pra faculdade e o irmão pra o cursinho de preparação para o concurso, que ele irá fazer em novembro.
- Sei, sei. Amanhã mesmo, irei visitar mamãe e vê seu Gustavo.
Seu Gustavo, o padastro que no passado humilhava-o por qualquer besteira:
- Vamos, arrume de novo essa prateleira. Você não faz nada que preste. Menino mais alesado!
O padastro era proprietário de uma mercearia e ele ajudava-o nas arrumações das mercadorias e atendendo aos fregueses, no balcão.
- Com esse alesado eu estou bem arrumado!
Cabisbaixo, as lágrimas desciam devagarzinho pelas faces frias, o suor também frio, nervoso lhe banhava a testa, as costas, o dorso das mãos brancas.
- E agora, deu pra chorar, feito uma criancinha.
O freguês gargalhava indiscreto. Gozando a cena humilhante.
Sim, o padrasto tratava-o mau. E se queixara à sua mãe:
- Teu filho é todo por fora. Parece que vive no “mundo da lua!”.
- Mas, Gustavo, ele é ainda muito pequeno.
- Pequeno coisa nenhuma! Eu, na idade dele, me acordava de madrugada, para ajudar o meu pai, na vacaria. Aprendi logo cedo o que era a vida. Já esse aí...
- Silva? Silva?
-Ah, sim?
- Você deve estar encucado com a notícia... Como é, vai almoçar agora?
- Vou, Mariana. Pode botar o almoço.
Ela retira-se da sala. Mais gorda. Os gestos lentos. A cabeça ficando alva. Move-se devagar... Está mesmo outra, A metamorfose do tempo é mesmo cruel.
Amanhã, irá visitar o padastro. Mesmo contra a própria vontade, mas em consideração à mãe, que está velha, merece sim, receber o seu apoio humanístico.

2
O padastro olhava-o, balançava a cabeça em gesto negativo e, sorrindo, sarcástico:
- Esse irá sofrer muito quando tiver de enfrentar a vida prática. Desinteressado como é por tudo... Sei não.
Sua mãe então tentava defendê-lo:
- Gustavo tenha mais paciência com o Silva, ele é ainda um menino.
O rosto do homem de repente se tornava vermelho e a voz crescia, enrouquecida:
- Você Luiza sempre defendendo seu filhinho! Eu falo para o próprio bem dele, me preocupo. Silva não me terá para sempre não.
As lágrimas outra vez. Os olhos nublados fitando o piso cimentado da sala. O silêncio da mãe. A porta sendo aberta e fechada por fora, com a força do homem grande, forte, que se ausentava, ganhando a rua. Os passos duros se distanciando. E a mão sobre sua cabeça, no gesto afetuoso:
- Meu filho, O Gustavo é assim grosseiro, porque se preocupa com você. Ele fala para o seu próprio bem. Vá, vá brincar na calçada com a sua irmã.
Atendia-a, sentindo-se o menor dos meninos do mundo. Com o dorso das mãos enxugava a vista e abrindo a porta, saí para a rua.
Agora, homem feito, casado, pai de dois adolescentes, a esposa dedicada, a vida arrumada, vem-lhe as recordações, como um tributo à dor que, de repente, explode, magoando-lhe a alma.
Depois, conseguiu o emprego na indústria de embalagem de papel e de ajudante de impressor aos poucos, foi aprendendo a profissão de operador da máquina.
- Você rapazinho é inteligente, trabalhador, preste atenção no que eu faço porque um dia você irá me substituir. Será um profissional.
O homem baixote, gordo, amulatado, bom sorria complacente e, lhe batendo no ombro com a mão pequena, pesada:
- Eu também comecei assim, como ajudante.
O conforto das palavras. E a sua promessa íntima de se projetar, ser alguém, mostrar ao padastro seu valor, sua capacidade de encarar a vida.
- Tanto tempo disso!
Dirige. A mãe, provavelmente, já se encontra na cadeira de balanço, no terraço, esperando-o, pois lhe avisou pelo telefone que agora pela manha a visitaria.
O sol cintila no céu azul, sem nuvens. O trânsito desengarrafado facilita que o carro avance.
O passado retorna, como se estivesse assistindo um filme de cruel realidade. A função de impressor com a aposentadoria do chefe. O salário crescido. Ele estudando à noite. Esforçando-se. Calado. Introvertido. Evitando o padastro, então magro, a cabeça grisalha, os gestos lentos e o mutismo rancoroso de o ver crescendo, ganhando espaço.
- Teu filho é esforçado.
A mãe sorria e, baixinho o desabafo:
- Agora você diz isso...
A moça morena, bonita da seção pessoal. O namoro. O noivado. O casamento. Os filhos e a casa no bairro afastado, longe do padastro, da força que o humilhara num rancor que ele nunca encontrou o motivo.
Ali está a residência. A varanda no primeiro andar. O muro alto defronte, com o portão largo, fechado. Aproxima-se devagarzinho. A vida com os caminhos da surpresa...
O portão se abre e ele adentra no oitão da residência.
Salta e sobe a escada que o conduz ao terraço, onde a mãe o espera sorrindo, grata em vê-lo.
- Mamãe.
- Entra Silva. Entra.
O rosto mantém os traços corretos, os olhos e o sorriso são tristes. A cabeça branquinha...
Enverga-se e beija essa cabeça de cabelos finos, estirados.
- Senta aí filho.
Ele atende e ocupando a cadeira à frente, cabisbaixo, na repetição do gesto antigo, espera. E a voz trêmula da idosa:
- O Gustavo teve uma trombose e tá acabado. Parte do corpo paralisado. A voz engrolada...
Escuta sem nada dizer. A voz continua:
- O homem tá acabado, meu filho. É até um ato de caridade você lhe fazer essa visita.
Ele então ergue a cabeça, desvia o rosto de lado, estende à atenção a rua além do muro que protege a residência, e fala:
- A senhora tem razão, mãe. Um ato de caridade.
Ergue-se num impulso e lado a lado, mãe e filho encaminham-se ao quarto após a sala, no corredor, à esquerda.
Sobre o leito, o enfermo encontra-se adormecido.
Ao lado, a enfermeira sentada no sofá, lhe zela o repouso, integrada à sua profissão. E Silva de repente sente a mão lhe apertando o braço, como se procurasse força para enfrentar a dor exposta pela cena presente. E também sente uma coisa que vai crescendo, crescendo... Então, busca o lenço no bolso das calças.











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