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Paulo Murilo Carneiro Valença
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Conto
 
A moça de ontem
Por: Paulo Murilo Carneiro Valença

1
Passa pela casa branca, à esquina, com o portãozinho ao centro do muro baixo, o terraço, a janela ao lado e com a moça varrendo este cabisbaixa, o cabelo preto em rabo-de-cavalo, o rosto afilado, os braços longos movendo devagar a vassoura. E ele sente o bem-estar que o invade sempre que a vê. Uma “onda” positiva domina-o.
- É o amor...
Diz baixinho, gracejando, definindo-se. Ah, se tivesse a chance de uma aproximação! Apressa-se.
O sol recém-nascido brilha nos telhados das residências às laterais. Aos poucos a rua adquire o movimento de mais um dia, com os pedestres indo para o trabalho, os carros, motos e bicicletas cruzando-a. Dobra a esquina. Adiante à direita, está à portaria da indústria da qual é funcionário. Grupo de homens, mulheres, adolescentes também vai chegando. Coletivos estacionam defronte da indústria, e novos trabalhadores descem, encaminhando-se a portaria. Há quanto tempo presencia essa cena? E até quando...
- Bom dia, Ivan.
Volta-se e, reconhecendo o negro Luis mecânico:
- Bom dia. Tudo bem?
O outro se põe ao seu lado e fitando-o:
- Mais ou menos... A turma tá falando numa greve pra gente pegar aumento.
Ele, então perplexo:
- Mas, a empresa não avisou ao sindicato que aguardasse mais um pouco?
Luis retruca:
- Cara, de promessa ninguém vive. As coisas tão muito caras e a gente já esperou muito...
- Sei, sei. Mas, Luiz o negócio de greve é muito perigoso, é faca com dois gumes, tanto dá como tira!
Adentram na portaria.
- Bom dia.
- Bom dia, Ivan.
- Bom dia.
- Bom dia, Luis.
Carimbam os cartões e pondo-os no quadro ao lado do relógio, descem os degraus que os conduz ao oitão largo e às respectivas seções.
À frente, os operários caminham apressados, calados, responsáveis. Integrados a mais um dia de trabalho, suor, o ganha-pão de luta.
O sol cintila no trator amarelo, estacionado próximo à montanha de bagaço-de-cana, matéria principal na confecção do papel ondulado.
Sobre este, o operador testa o motor e logo, manobrará com habilidade o veículo, recolhendo o bagaço e pondo sobre a “montanha” da matéria-prima. Tudo vai se reentregando à rotina nervosa da vida da empresa, na marcha natural de sempre.
- Sempre.
Adentra no salão com máquinas e funcionários nas diversas funções de impressores, costureiras, condutores de carrinhos-de-mão, varredores, e os chefes fiscalizando-os, orientando-os.
- Bora com isso Pretinho.
Grita o encarregado Raimundo. Mulato, grande, musculoso. E o operário humilde se apressa em recolher as caixas da esteira e as colocar ao pé da máquina, para outro funcionário a conduzir no carrinho às costureiras.
- Pra trabalhar não, mas para pedir aumento...
Cruza o salão. Então a imagem da moça branca, esguia, bonita lhe chega. Será que ela tem namorado, é casada? Ah, precisa saber. Quem pode prever o dia seguinte? Quem...
- Bom dia Ivan.
- Bom dia, Jason.
Lado a lado entram na seção, seguidos pelo ritmo nervoso, cadenciado das máquinas.
2
Soube pelo vizinho da casa branca:
- Parece que ela tem um “caso” com um homem casado.
Perplexo, inquire:
- Casado?
O velho sorri, e malicioso:
- Casado. O cara só aparece nos finais de semana, num carrão cinza, importado.
Tenta então fugir do assunto, para não se denunciar, não mostrar a frustração ante a revelação:
- Pois é... Mas, a inflação está voltando. O pessoal da fábrica anda falando numa greve.
- Essa pessoal não pensa, vai pela cabeça do sindicato e depois fica por aí desempregados. Lascados!
Nada responde. Aquiescendo. Então a moça é amasiada com o sujeito rico, que a visita nos fins de semana...
- Vou indo.
- Vai lá, Ivan. Bom trabalho.
Afasta-se, sem se voltar para trás, fugindo da imagem da jovem quer agora cabisbaixa, varre a frente da residência, alheia ao mundo, ao que desperta, apenas contida em si mesma.


3
Não, não quer olhar. Precisa se conter. Ser forte. Não lhe há mais chance. A realidade acabou sua intenção, o desejo. O sonho de uma aproximação e depois...
Apressa-se, fitando os outros trabalhadores que caminham à frente, a moto que se aproxima. Barulhenta. Veloz. E, de repente, tem a sensação de que está sendo acompanhado pelos olhos grandes, negros e, sem mais se conter, volta-se. E vê. Debruçada sobre o portãozinho, a moça o segue, disfarçadamente. Com o coração aos pulos e dominado pela antiga sensação de quando a enxerga sorri e caminha, outra vez com a atenção voltada aos operários que se movem em sentido da empresa.
Há sim, a esperança...
4
Manhã.
Por que a moça não está no terraço, varrendo-o? Por que a casa está fechada? Que terá acontecido?
- Besteira minha. Depois eu descobrirei.
Frustrado, com o vazio no peito, se afasta. Algo aconteceu... Contudo, que direito tem ele de interferir na vida da moça? Mas...
- Deixa pra lá!
Dobra a esquina. A portaria. Os operários entrando. Os carros que passam. O sol que esquenta. A sirene apita estridente, convocando o operariado para o novo expediente. Tudo numa repetição sem graça. Sem a espera da concretização do sonho, tudo se converte agora nesse vazio.
- Bom dia.
- Bom dia, Ivan.
Pensativo, carimba o cartão.
5
O vizinho da casa branca, outra vez diz o que sabe:
- A casa aí tá desocupada. A mulher bonita, parece, foi morar com o ricaço na praia de Maria Farinha.
Ele aquiesce nervoso:
- Sim, sim.
- Mas, assim é a vida. Cada um “na sua”. A menina sabe o que quer.
Então, prático, se reentrega à realidade:
- Quer entrar um pouquinho, Ivan? Tenho de fazer um servicinho...
- Não, seu Durval. Obrigado. Até.
- Até esse menino. Vai com Deus!
A moça bonita partiu. E sentirá a falta da imagem que lhe despertava a “energia positiva”, a sensação boa que lhe aquecia o coração, enchendo-o da esperança de uma amizade...
- Assim é a vida.
6
- Que moça interessante essa da casa branca!
A exclamação do enfermo no leito, com os olhos fixos no forro do quarto.
No sofá vizinho ao leito, a jovem fitando a senhora ao lado fala:
- Papai está delirando.
A outra com a atenção ao idoso, aquiesce:
- É filha, delirando. Deve ser os remédios que ele está tomando.
A porta do ambiente então se abre e a enfermeira amulatada entra sorrindo:
- Bom dia.
- Bom dia.
Responde a jovem, enquanto a senhora permanece calada, com a atenção no marido.
- Parece que papai está vendo coisas, delirando...
A funcionária do hospital concorda:
- São efeitos dos comprimidos que seu pai está tomando.
Avizinha-se do leito e se voltando:
- Vocês me dêm licença, por um instante, que preciso ficar com o seu Ivan.
As duas se erguem e devagarzinho se retiram do quarto.
Fora, na sala de espera, achegam-se a janela aberta, que mostra os edifícios altos, com o céu azul, as nuvens brancas, o sol que esquenta e embaixo, a avenida com os veículos e pedestres pequeninos, como se fossem de brinquedos.
- Nunca pensei que um dia veria o papai canceroso, se acabando numa cama!
Silencia, os olhos nublados pelas lágrimas.
- Também nunca pensei nisso, Solange. Mas é a vida, minha filha.
Os carros e pedestres de brinquedos vão passando embaixo, sob a luz do sol mais quente e que tudo envolve sob o comando de uma Grande Força. Sim, à janela os rostos das mulheres tentam se prender ao que presenciam como fuga a cruel realidade, enquanto entre ambas, paira o doloroso silêncio.

Lu Dias BH disse:
Paulo Valença O escritor dos contos curtos
Você é o escritor de seu tempo.




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