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Paulo Murilo Carneiro Valença
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As conquistas
Por: Paulo Murilo Carneiro Valença

Comecei a minha vida de trabalhador aqui na indústria, como apanhador de bagaço de cana e, conduzindo-o na carroça para a montanha de bagaço fora do galpão, com máquinas e operários, envergando-me de lado, com o seu peso, servia de mangação:
- Cuidado pra não cair de banda.
- Já tomasse café hoje, “Macaxeira?”.
Era assim tratado por ser branco. Ainda hoje, basta me concentrar, ouço aqueles gracejos:
- Vamos com isso, “Macaxeira!”.
Virava a carroça e concluída a tarefa, ocupava-me noutras: varrer o salão, ajudar os impressores, empurrar carrinhos com caixas, transmitir recados... Fazia de tudo. Entretanto, inteligente, aspirava ser alguém. A própria dor alimenta os sonhos. Quanto tempo nessa rotina medíocre?
Em casa, minha mãe se compadecia de ver-me chegar calado, exausto do trabalho.
- Meu filho, procure ser gente. Você não tem as noites livres? Então, estude, faça um curso, se profissionalize.
Entendendo-a, fitava-a, sensibilizado.
Meu pai – introvertido, preso ao seu mundo íntimo – não ligava à família.
- O seu pai vive mais para si. Pouco se importa com a família.
Depois, suspirando baixinho, concluía:
- Como me enganei com esse homem... Ah, se eu adivinhasse!
O pai terminando a refeição erguia-se e, encarando-me:
- O rapazinho aí é acomodado, nunca passará de um operário.
Mamãe olhava-o, numa recriminação. Apressado, deixando a salinha, ele ganhava a rua, onde à esquina, aguardaria o ônibus que o transportaria ao trabalho, na cidade. Era mecânico de carros.
Com a marmita em um saco plástico, despedia-me de mamãe:
- Até mais tarde, mamãe.
- Até, filho. Vai com Deus!
Depois, comecei a estudar. E, um dia, o encarregado da seção, me falou:
- Você está estudando, sabe fazer anotações, e vou pedir aos “homens” para que seja o meu auxiliar.
Perplexo, contido à perplexidade, mal lhe pude agradecer:
- Obrigado, seu Melo.
- De nada, meu rapaz. Volte pra o serviço.
Ligeiro retornei ao pé da impressora, na confecção das caixas que desciam na esteira.
Ao saber da promoção, mamãe sorriu feliz:
- Graças a Deus! Filho se dedique à nova função, porque ali mesmo, na fábrica, você tem chances de crescer.
Numa manhã, fui chamado ao departamento de pessoal:
- José, você ficará no lugar do seu chefe, que foi dispensado da firma.
Agradecido, sorri. E, refletindo, devagar retornei à seção. Nova promoção: encarregado de turma. Sim, com sacrifícios, aos poucos, me elevava na companhia, na vida. Contudo, sabia “haver muito chão à frente”. Mas, outra vez sorri vitorioso.
Com o decorrer dos anos fui mudando de setor para setor, na ordem hierárquica de empresa.
Então, em meio à reunião com a diretoria, um dos acionistas fitando-me, anunciou, sorrindo:
- José, de hoje em diante, você é o novo diretor de produção. Você é merecedor. Parabéns!
A mão bem cuidada em minha direção. Apertei-a, com força.
Mamãe então estava velha, magra, sombra do que fora. Papai também se achava deformado pelo tempo: magro, a cabeça branca, o rosto mais comprido, o nariz crescido, a boca num traço fino, com os lábios. Os olhos fitando-me, na admiração silenciosa.
Agora, solteiro não pretendo casar-me, ou me prender a alguém, que, como é natural, me dará filhos e com esses, surgirão os problemas. Não, egoisticamente, pretendo manter-me sozinho. Senhor dos meus atos. E, com tantas mulheres soltas, na facilidade que o mundo atual nos oferece... Encontro-me por experiência, prático, realista.
A dor nos educa, faz-nos ver a verdadeira face da vida.
- É isso aí, seu José.
Gracejo, no recente hábito de falar sozinho. Fechando a porta, adentro no galpão com máquinas e operários em suas diversas funções. Quanta vez passei por aqui, na ida e vinda dos expedientes?
- Bom dia, seu José.
- Bom dia, Joel. Tudo certinho?
O homem sorri grato à atenção do superior.
-Tudo certo, seu José.
Cruzo o salão barulhento. Adiante desse ambiente, encontra-se a montanha formada por bagaço de cana. Quanta carroça despejei em montanhas idênticas? Sim, em cada recanto desta fábrica, há pedaços meus. Minha vida se formou aqui.
Um dos encarregados se aproxima. Paro, esperando-o.
Ele avizinhando-se:
- Bom dia, seu José.
- Bom dia, Tião.
Prático, ele vai direto ao assunto:
- A turma da noite anda pedindo aumento.
Reflito. Ele espera. Respondo:
- Vá “empurrando com a barriga” esse problema, que eu falarei com a diretoria, para ver o que se pode fazer. Até, Tião.
- Até, seu José. Obrigado!
Adianto-me. As mudanças da vida: a gente se inicia, luta, cresce, e vence...
- Parece que quando se vem ao mundo, já se vem com tudo traçado.
Dizia mamãe e, como sempre, papai retrucava:
- Então, Deus é padrasto: enquanto para uns tudo; para outros, nada!
Mamãe calava, evitando, como em vezes anteriores, a discussão.
Meus velhos: doentes, à espera do adeus final.
Adentro no carro e, desejando apenas limitar-me ao presente, dirijo em sentido da praia de Boa Viagem, onde a morena Cileide aguarda-me.
- Cileide...
Novamente falo baixinho, no hábito de dar voz ao que penso. O carro distancia-se nas horas avançadas. Sim, “ralei” muito e, agora, mereço viver. Viver, pois, o amanhã é incerto.
Ligo o som e, ouvindo a música antiga, romântica, sigo ao encontro da recente conquista.
Assim funciona a vida: uma conquista após a outra.
- As conquistas.

Recife, 16/10/2004.

Lu Dias BH disse:
Paulo Valença O escritor dos contos curtos
Você é o escritor de seu tempo.



















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