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Paulo Murilo Carneiro Valença
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Historinhas cruéis
Por: Paulo Murilo Carneiro Valença


PALCO DO PECADO
O automóvel estaciona.
A moça morena, bonita, de short no banco da praça ergue o rosto e fitando o carro espera, entendendo.
O sujeito baixo, gordo, bem-vestido aproxima-se resoluto, movido pelo interesse carnal.
- Vamos dar um “giro” minha linda?
Ela sorri, aquiescendo e, lado a lado, sem palavras encaminham-se ao veículo cinza-prateado que os espera, palco que é do pecado.
- Entra, coisa mais linda.
A moça atende. E o “coroa” dando a volta entra pela outra porta e logo, o carro parte, macio, para aonde?
Não importa. Ela ganhou o “freguês”, o seu júnior amanhã terá o leite, não mais chorará de fome. E sorri. Tristemente sorri.
- Sorrindo de quê, minha linda?
A voz grossa, possante, do novo “patrão”.
- Nada não...
Disfarçando, com o dorso da mão trêmula então enxuga a vista embaçada pelas lágrimas.

A MORTE O ESPERA
Espera. É paciente, profissional. Acende o cigarro, tentando se manter calmo.
- O sacana tá demorando.
Protesta, em voz baixa, desabafando o que sente. E, na mente, a orientação do patrão:
- Quando o safado sair da casa você segue ele e depois faça o serviço.
Ah, cumprirá com prazer a tarefa... O “encomendado” abusou sexualmente da filha do outro.
- Uma menina de onze anos e ser violentada por um tarado!
O rosto vermelho, os gestos nervosos. E a voz gritada, da revolta:
Acabe com ele! Tome, segura.
A mão com o pagamento. Recebeu-o, calado, conveniente.
- A outra parte só depois do serviço.
Aí, ele falou:
- Tudo bem. O senhor pode ficar sossegado.
Uma criança e ser violentada... O portão então é aberto e o carro transpondo-o, segue à direita, macio, ganhando a rua sossegada, de residências muradas, de árvores nos jardins, do bairro classe alta.
Ele atira a ponta do cigarro fora e descendo o vidro, abre o paletó, buscando a arma, que a engatilha e torna-a ao bolso. Dirige, a fisionomia serena, mais fechada.
Adiante, no sinal que fecha, então se emparelha ao carro cinza que estaciona, aguardando o sinal novamente se abrir.
O rosto gordo, amarelo se volta, percebendo-o e antes que feche o vidro, entendendo... é atingido pelos disparos da arma silenciosa no rosto e no peito largo e... Vai se apagando. Para sempre se apagando.
- Missão cumprida.
Mais uma vez fala o enviado da morte.
Avança, calmo, frio, pensando na outra parte que receberá do contrato.

O SONHO DE DULCE
O coletivo demora, como sempre.
Ele, próximo ao sujeito grande, negro, espera, enquanto a noite amadurece. Na mente, a cena de há pouco:
- Miguel, eu sinto muito, mas é a situação econômica que atravessamos...
Nada respondeu, ante a realidade que apesar de esperá-la o atingiu em “cheio”, emudecendo-o na própria dor.
- Aqui está o seu pagamento da semana. Na próxima sexta-feira, você receberá ao que ainda tem direito.
Recebeu o envelope. Guardou-o no bolso das calças e suando, sem palavras deixou o escritório da empresa. Agora...
- Tá demorando o ônibus. Essa linha daqui é ruim demais, cara!
Sorri, aquiescendo. Não quer conversar, manter um diálogo deseja apenas se concentrar no que o castiga, ficar egoisticamente com sigo mesmo... O que a Dulce dirá ao saber que está sem emprego? Ah, a coitada grávida, tão nova ainda, esperan çosa...
O ônibus surge à esquerda da rua transversal e rápido se aproxima.
- Ainda bem que apareceu um!
Outra vez o negro fala, satisfeito, sorrindo. E ambos adentram na condução que estaciona e parte em velocidade, aproveitando o pouco movimento da avenida.
- Hoje tive um daqueles sonhos, Miguel. Um cara lhe dava um envelope...
Paga a passagem, senta-se junto à janelinha que exibe o que vai ficando para trás. Residências. Edifícios. Resumidos pedestres. Um ou outro carro. A moto ziguezagueando, na carreira para vencer o tempo.
O negro se senta ao seu lado e, sorrindo:
- Meu camarada a gente que trabalha tem cada surpresa.
Não responde. Evita novamente o diálogo e... Sente a arma lhe furando a pele do lado esquerdo, sob o coração.
- Passa sem reação, meu camarada, o que recebeu da firma.
A voz mais grossa, enrouquecida. O suor frio repentino na testa, nas faces e a indecisão de atender à ameaça.
A arma pressiona-lhe a pele. Dulce esperando-o. Inocente. Tão nova. Grávida. O sonho que ela teve. O seu pagamento...
- Bora meu camarada!
Não, não obedecerá! E os resumidos passageiros então escutam a detonação, que tira mais uma vida, ante a cumplicidade da noite quase madrugada da cidade grande.

Lu Dias BH disse:
Paulo Valença O escritor dos contos curtos.
Você é o escritor de seu tempo.







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