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Paulo Murilo Carneiro Valença
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Janelas do tempo
Por: Paulo Murilo Carneiro Valença



1
A sala larga com os sofás, a mesinha ao centro, as paredes brancas e a janela larga. Nestor em passos lentos se avizinha dessa e debruçando-se no parapeito, estende a atenção à avenida embaixo, com os veículos e os pedestres pequeninhos nas calçadas laterais cruzando-a. Tudo numa marcha determinada, sob o poder de uma Grande Força.
- Tudo passando.
O desabafo em voz baixa, na libertação ao que sente. E saber que no quarto próximo a essa sala, seu pai, o Seu Carlos, está morrendo, a respiração acelerada que aos poucos, vai diminuindo... A família em volta ao leito. Os rostos pálidos, sem ninguém falar, acompanhando o suplicio do pai que vai serenando. Serenando...
Busca o lenço no bolso traseiro da calça e passa-o devagar no rosto, acolhendo as lágrimas gordas. O que é a vida: quem lhe diria que o pai, Seu Carlos, forte, alegre, um dia encontrar-se-ia canceroso, num leito de hospital? “Para o câncer, não há cura. É saber que está doente e ir logo providenciando o caixão”. Quantas vezes o pai falara assim? E...
- Nestor?
A irmã que chega sem que a percebesse.
Sem se voltar, responde, temendo saber...
- Sim, Ana?
- Mamãe está lhe chamando. Papai está se ultimando.
- Sim, sim.
Embaixo, entre os veículos que cortam a avenida, o que é preto, egoisticamente avança sem respeitar os demais, que buzinam em protesto.
Sem palavras, Nestor segue ao lado de Ana para o quarto. E sente a coisa novamente apertando-lhe o peito, subindo... Então repete o gesto de buscar o lenço.
O corredor estreito, com os quartos nas laterais. Empurra a porta devagar e adentram no ambiente, onde o silêncio da mãe, e dos dois irmãos se une em solidariedade à mesma dor.
O pai diminui a respiração, despedindo-se da família, do sofrimento que o martirizou nestes meses e, a porta se abre, com o doutor Augusto, que chega compenetrado ao seu ofício de médico.
Sem palavras, o doutor se avizinha, enquanto o enfermo pára de respirar. E a mãe num grito de desespero, revela a verdade a que todos testemunham:
- O Carlos morreu!

2
O automóvel preto estaciona defronte do bar repleto por casais – na maioria de jovens – que curtem a noite da sexta-feira.
A porta se abre e o rapaz alto, esguio, aloirado deixa-o em passos largos. O rosto afilado, os cabelos finos, longos dançando à brisa que vem do mar próximo. Sorrindo, encaminha-se à mesa logo à entrada do estabelecimento, na qual, a jovem morena o espera sorridente linda em sua idade descontraída, moderna.
- Esperou muito bem?
- Nada. Cheguei agorinha... Senta.
Ele ocupa a cadeira defronte e fitando-a:
O trânsito está como sempre, muito ruim. Tive de correr, mas, o que recebi de xingamento por desrespeitar o tráfego...
Sorriem, gozando a “aventura” de Eduardinho.
- Você é muito louco, amor!
As mãos se buscam sobre a mesa e atento, profissional, o garçom se avizinha.
- O que vai querer Eduardinho?
- O de sempre, Negrão. Uísque e lagosta mal-passada.
- O.K.
O garçom se retira indo providenciar o pedido, enquanto o casal se entrega ao mundo egoisticamente seu.
- Eu soube que aqui pertinho, tem um novo motel...
- Você é demais, Eduardinho!
A mão com dedos longos então lhe acaricia a face, os olhos negros brilham e o sorriso do rosto moreno, de traços corretos cresce. Sim, a Tais concorda. E novas horas os esperam, na acolhida cúmplice do delicioso jogo amoroso.
Em volta, estão as mesas cheias. O tilintar dos copos e talheres. As vozes que se confundem num único som que cresce, ganha o ambiente alegre, descontraído da noite praieira. Atrás do balcão, nos fundos do salão, o conjunto inicia a apresentação, e a música envolve os freqüentadores do bar-restaurante.
- Aqui está o solicitado.
- Tudo bem, negrão. Você é o cara!
O garçom sorri, satisfeito com essa liberdade do freguês e retrocede ligeiro ao balcão, para apressar o pedido do casal que acaba de chegar.
- Sabe Tais? Tem hora que temo o meu futuro... Hoje, no presente, está tudo legal. Tenho o meu bom emprego no banco, tenho mocidade, saúde, tenho você, a quem dedico amizade, amor, mas...
- Deixa de se “encucar” com as coisas. Eduardinho! O futuro a Deus pertence. Vamos “curtir” o agora, o presente.
Ele sorri, aquiescendo:
- É, você tá certa.
Então, repete, sorrindo:
“O futuro a Deus pertence”.

3
A janela.
Numa cadeira de rodas, o homem olha para fora. A avenida, os automóveis, as motos, os pedestres nas calçadas, o céu que escurece...
Então, mais uma vez a recordação de numa noite também à janela, quando observava a avenida embaixo, com o seu movimento de veículos e pessoas. Enquanto no quarto próximo, o seu pai ia parando de respirar, falecendo...
- Pai?
A voz da filha que chega, despertando-o ao presente.
-Largue essa janela, pai. Venha se deitar. Descansar. O senhor agora só vive nessa janela...
- Pois é, Gracinha. A janela... Que bem representa a vida.
- O quê, pai?
- Nada não, filha.
As mãos sobre os braços da cadeira então num impulso a pressionam para o lado esquerdo e depois para frente.
Ah, as surpresas da vida. Quem lhe diria que um dia...
- Pai?
- O que é, Gracinha?
Em resposta, ele sente a mão quente lhe afagando a cabeça de cabelos finos, longos e brancos.

4
- Tais você se lembra? A gente se encontrava aqui às sextas-feiras, para curtir a noite e depois se amar no motel...
A mulher morena, bonita, já “coroa” sorri e olhando o edifício alto, imponente, moderno, ao lado:
- Aqui? Quando havia aquele barzinho, quando a gente era jovem... Hoje, tudo aquilo não passa de recordações.
Então, ela sente a mão pesada, quente, sobre a sua e ouve a voz do marido mais baixa, e firme:
- Recordações... Mas, o que seria da gente sem as lembranças, Tais?
Ela sorri, entendendo-o:
- Ainda bem que o futuro que você tanto temia se converte no presente ótimo para você e para mim. E, para completar, só nos falta o filho...
- Tenha mais um pouco de paciência querida, ele chegará!
Tais continua sorrindo e esperançosa:
- Espero, Eduardinho. Estou sempre esperando. Mas, vamos indo?
A direção é virada e o carro preto se distancia, para logo se perder entre os incontáveis veículos da avenida movimentada desta sexta-feira.
- “O futuro a Deus pertence”.
- Falou, querido?
Eduardinho sorri e não lhe responde.
Tais o entende. Eduardinho e os seus mistérios...


Lu Dias BH disse:
Paulo Valença O escritor dos contos curtos.
Você é o escritor de seu tempo.



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