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Crônica
 
LOUCURA!
Por: Paulo Elias

---Em que ano estamos moço?
Esta pergunta feita em um dia agitado da semana teria me deixado irritado, mas ali, naquele domingo de outono e clima agradável me inspirei a responder:
---Dois mil e sete rapaz.
A resposta deixou o recém chegado meio confuso. Virou os olhos para cima como a fazer cálculos,olhou para os lados,encheu os pulmões de ar e finalmente sentou-se a meu lado no banco da praça.Vestia uma espécie de uniforme e no bolso de sua camisa pude ler as iniciais H.P.M,Hospital Psiquiátrico Mandaqui.Eu sabia onde ficava e sabia também que a segurança por lá era uma porcaria;sempre tinha um doido fugindo.Ainda bem que em sua maioria eram inofensivos.Resolvi prolongar a conversa:
---Qual o motivo da pergunta, amigo?
---É este lugar---disse ele---não está certo; acho que vim muito cedo, ta tudo limpo e verde... de onde venho não há mais verde---apontou com as mãos abertas as arvores da praça.
Realmente era maluco, pensei, achar que a cidade de São Paulo era limpa e verde.
---E de onde vem você?
---Do futuro---respondeu sem pestanejar---Vim do ano dois mil e quarenta e lá não tem mais arvores, o ar é poluído e quase não dá para respirar direito. ---o jovem parecia desolado,com a cabeça entre as mãos fitava o chão gramado da praça.
Aquilo me comoveu. Sempre fui fascinado pelas doenças mentais.Para mim sempre existiu algo de extraordinário nos loucos,como uma segunda consciência.Cheguei até me simpatizar com alguns que conheci.Eram alegres e riam o tempo todo,como se não houvesse problema algum no mundo.Mas este rapaz era triste e deprimido e começava a me contagiar.Pensei em ligar para o sanatório para que viessem buscá-lo, mas tinha que distrair sua atenção com algumas perguntas para que não percebesse.Olhei para o lado e me deparei com ele me fitando como se lesse meus pensamentos.
---Está achando que sou louco, não é?Está enganado, sou perfeitamente são, e posso sim fazer viagens no tempo. No seu futuro algumas pessoas vão aprender isso,não sei como,deve ser efeito da radiação.Apenas pensamos que queremos ir e puf...estamos em outra data,parece mágica.
---Há... então que dizer que há muita radiação onde você vive?
---Bastante, está lá desde muitos anos atrás. Mais da metade das pessoas do mundo,morrerem nas explosões das bombas e mais um montão pelo efeito da radiação;só sobrou um punhado de gente em cada continente.
Reconheci: tinha a mente fértil.
---E porque jogaram bombas aqui no Brasil? Somos um povo pacífico...
---Por causa da comida e água, moço. No futuro aqui será o único lugar em todo o mundo que pode encontrar água potável e alimentos.Toda aquela briga por petróleo que existia no oriente vai acabar e vão começar a infernizar este lugar.
Era detalhista, se referiu ao conflito árabe no passado, sendo que estava no ápice ainda.
---Foram tempos horríveis---continuou---brasileiros não tinham mais aliados, todos queriam nossas terras, nossas florestas e águas; então começaram a cair as bombas; em oito horas tava tudo acabado e a radiação está por lá já faz vinte anos. Eu nasci bem no meio dela,acho que é por isso que posso fazer viagens no tempo,acho que virei uma espécie de mutante,sei lá.
Resolvi por um fim naquela fantasia:
---Ta certo, rapaz, mas me diga uma coisa; conhece o sanatório Mandaqui? É lá que você mora, não é?
---Nunca ouvi falar não, moço, acho que não existe isso no meu tempo.
---É mesmo? E este uniforme que está usando, é de lá sabia?
---É mesmo?Não, eu não sabia; quando viajo no tempo não dá para ir vestido, entende?Tenho que ir nu, então em todo lugar que chego tenho que procurar algo pra vestir. Esta aqui,achei naquele cesto de lixo---disse apontando para a lixeira do parque.
Optei por fazê-lo cair em contradição para ver os disparates que dizia:
---Mas como sabe de tudo isso meu jovem, já que me disse que nasceu vinte anos depois de tudo, então não sobrou ninguém pra contar a história, certo?
O louco pareceu não se perturbar:
---Claro que sobrou pessoas, eu disse que sobrou um punhado de gente em cada continente, não disse? O senhor acha mesmo que sou maluco, eu sei, mas minha mãe me ensinou a ler e tem muito material informativo por lá. Sabemos que tudo começou com uma grande seca em toda a Ásia e que os americanos proibiram toda a América de exportar alimentos para fora do continente.
Peguei o celular do bolso; era hora de acabar com o delírio:
---Alô, é do serviço de emergência?---voltei para o lado ao ouvir um barulho estranho, abafado a tempo de ver um pequeno redemoinho levantando poeira do chão. Aos pés do banco de cimento, a calça e a camisa que o louco vestia um segundo atrás.Olhei para todos os lados mas não vi ninguém correndo nu.
---Alô, alô... qual é a sua emergência senhor?
Decidi esquecer este episódio até três anos mais tarde, quando após o jantar fui assistir o noticiário e uma repórter em tom grave me chamou a atenção:
---e então o presidente dos EUA e toda a Europa em reunião de emergência declararam toda a América do Sul como celeiro do mundo ocidental, proibindo qualquer tipo de exportação para outros continentes. A Ásia ,todo o território árabe e a Rússia promete represálias...
Desliguei a televisão e fiquei pensativo. Era uma boa hora para começar freqüentar a igreja.

Paulo Elias

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