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Poema
 
POEMA DE AÇO
Por: PAULO TARSO BARROS


POEMAS DE AÇO


Cpyright (A) Paulo Tarso Barros

Original registrado na
Biblioteca Nacional
sob nº. 112.922



CANTO E TEMPLO


Deste planeta cada vez mais só
no Universo cristalino,
vazado pelas nebulosas altaneiras
e por herméticos satélites,
novamente meu cantar ressoa,
esponjoso, pelos becos inóspitos
do meu berço/cidade,
desolada e cadavérica,
com o seu templo desprovido de luz.

Até o sino - bronze do passado
- não estende um clamor que espante
os morcegos que se ocultam
no forro apodrecido da igreja.

(V.M. - 1979)












BAQUE NO MUNDO

... e caiu num imensurável buraco,
descobrindo que em tal cova
( estranha )
havia seres
( irmãos ).

Caiu no Mundo,
medieval sempre
e solapador de felicidades,
ainda que metafísicas e psicológicas.

Viu-se
como um pavão numa masmorra.

(V.M.-1979)





INTERROGANTE


Que tempos me sugam?
Que tempos me arrastam
e para quais UNIVERSOS?

Eu seria perfeitamente louco
se jamais houvesse composto um verso.

(V.M. - 1979)



ITINERÁRIO DO FIM


Ninguém amanhece com a vida maior
e mais exuberante depois que findam,
infindáveis,
as claras auroras.

Em todos os amanheceres,
menores somos.

(V.M. - 1979)






SIMBOLOGIA DOS MORTOS


Jazem nos túmulos os nossos mortos
da vida navios ancorados nos portos
estacionários postos de
vermes luzes e mistérios
na vasta solidão dos cemitérios

(V.M. - 1979)




EXPULSÃO


Fui, pela idade
e pelos mecanismos do Mundo,
expulso bruscamente
da Igreja e da Liturgia.

Meu corpo quebrou-se
e a alma fugiu, desesperada
da sua inocência...

(V.M. - 1979)



FUNÇÃO


A solidão dos mortos
não perdoa
a ímpia solidão
dos vivos,
que por sua vez
afeta àqueles
que irão nascer.

Sofremos,
mas a vida frisante
nos preenche de alíneas.
Somos os animais
que mais padecem
de solidão considerada.
Nós acreditamos nela
e ela crê
nos nossos sentimentos.

Nós somos sós.
Somos tão sós
como só o Deus
no seu MISTÉRIO.

(V.M. - 1979)



A PAZ

Por uma hora plena de paz
os dólares os francos as liras
os escudos os cruzeiros
todos os poetas todos os profetas
são inúteis e como as peneiras furadas

(V.M. - 1979)



PAZ


Canções que emanam das flores:
quero vosso rubro sangue
sobre a minha alegria,

pois não tenho intenções
de combater ou morrer
em guerras civis absurdas.

Sofro como os pirilampos
que trazem consigo
luz temporária e diminuta
para neutralizar a infinita
escuridão do Globo.

Paz
Paz
Paz
Paz
Paz
Paz
Paz


(V.M. - 1979)




AQUÁTICAS




Os sete poemas a seguir são dedicados à memória do meu avô
Pedro de Figueiredo Barros.


01


Lançai vossas redes sobre
o repouso da fauna aquática
e a vossa pesca será uma oração
molhada de adeuses
transformar-se-á o vosso peixe
em um deus indômito e apto
a exorcizar dos manos e proles
a maldita fome ubíqua


02


A tua vida:
pesque-a num lago, ao amanhecer
num mar inacabável que em ti há
em perenes e fugidias ondas
onde o vento faz
a sua alongada pista de pouso


03


A pescaria é um ofício
um sacrifício
um vício
( sempre no cio )
mesmo depois da vida
e que tem odor de mar
de fogo
de fome

pescador:
teu destino é defumado



04


Mansos são os remansos que te aguardam
que aguardam teu caniço e companheiro
tua rede de fios ou ilusões
tua calma
tua alma
teu barco de vento
tua imaginação extensa

Um dia pescará um grande peixe
preencherás os túneis
que as tuas finas tripas formam
e assim o teu corpo será engordado
para o churrasco do Demônio
no Juízo Final
ou para as carícias eternas de Deus


05


O rio
( sempre há um que atravessa a vida )
enche-se de cardumes
na tua fantástica visão oceânica

Eu tenho a tua sede
tenha a tua fome
o teu frio
e o teu calor
nossas almas
emanaram da mesma luz


Vi meu avô pescando
vovô pescava pelos fundos
do nosso quintal
e eu sinto saudades dele agora
na água-mãe do rio Mearim

06


Os olhos dos peixes são estrelas submarinas
que detectam as iscas
e pensam que elas são oriundas
do grande deus Netuno.

Olhos de pescador:
existe sempre a esperança
de mais um dia sobre a Terra e o Mar.


07


Também esse peixe
te aumenta a vida.
Contempla as espinhas:
uma xerox do teu grandioso futuro
( onde haverá mais abandono
do que a solidão das águas ).

No mar, a solidão
tem a companhia dos peixes.









ORAÇÃO


Rio Mearim,
banha com amor o meu exausto corpo
com as águas perenes
das tuas profundezas
- lá onde a Mãe-d’água
canta com Orfeu
e os pássaros tropicais
sonham eternas liberdades...

Lá, eu seria tão leve como um pedaço
de pluma das asas de um anjo.



SOB O SOBRADO


Isto deveria ser um poema.
Dezoito, quase dezenove anos e também
um perder-se silencioso nos dias
- essas bocas irracionais que me devoram
lentamente, célula por célula.

Escreverei estas palavras
( e mais outras palavras),
que serão gravadas na língua magnética
do silêncio e transmitidas
em ondas curtas para o nada.

(V.M. - 1980)



INQUIETAÇÕES


Sou heteróclito citoplasma
nas órbitas intermediárias
que dão acesso ao caos.
A desordem sou: sempre ou nunca.
Se eu não fosse o itinerante caótico,
morreria descontente e incompleto.

Sou o delta corruptor do alfabeto,
cujas argolas não consigo harmonizar.
Sou a hibridez que obstruiu o lirismo
e um dessociável cidadão vitoriense
que se procura.

(Macapá, 1980)




PSICOSSOCIAIS ELEMENTARES


As minhas danações mentais são
resultantes do confinamento regional.
Meu medo é incivil.
Esta loucura é a regularidade do olhar,
do raciocínio e do tempo minuteado
que os segundos vão depositando
pacientemente nos coágulos mecânicos
de relógios assimétricos.

Quero romper esta jaula mental.
Vejo o Mundo modulando.

(Macapá, 1980)





DIVERTIMENTO


Todas as janelas
encontram-se fechadas e os jardins
pertencem aos animais.
Não ouço ruídos:
virei um surdo,
um rude,
uma vida que pinga
como orvalho noturno
sobre o meu ser.

O sono brinca comigo
nas distâncias
dos horizontes interiores.

(Macapá, 1980)



OFICINA

Ao meu pai

Reconheço que meu pai sempre soube
não ter eu vocação mecânica.
Fui expulso várias vezes da oficina
por incapacidade operacional.
Eu achava bonito os motores,
as peças, armas, ferramentas,
petromaxs e gostava da zuada do fogo
sendo atiçado pela idosa ventoinha,
do chumbo derretendo
e de meu avô martelando firme
na bigorna, que tinia seus gritos metálicos
naquelas manhãs e tardes mearinzenses.
Por isso carrego comigo,
talvez nos olhos ou no sangue,
o mesmo calor daquele fogo,
a mesma dureza do aço que me protege
das investidas da vida.
Não é fácil, portanto, distorcer-me.
Minha força, infelizmente, é finita
diante da envergadura do AÇO.


Pai, a tua oficina continua em mim
de modo diferente.
Nós não temos culpa.

(Macapá, 1981)

INFERNO


Não entregarei minha vida
para um abismo qualquer.
Escapo das mortalhas da noite
e vou ao encontro das labaredas divinas
e aos ecos do Infinito,
que é a doce
- doce canção, ó poeta,
a calar-te os momentos atrozes.

(Macapá, 1981)




FELINO IRREFUTÁVEL


Ante mim, um gato.
Bem-posta perceptividade
selvagem nos olhos de carne-viva,
que fitam em mim o seu ágil mistério:
técnico e inaudito.
Abre a sua boca e mia.
É um túnel obsceno a sua garganta,
composta de degraus enviesados.
O siso desse animal é um princípio
carismático de cautela
e perspicácia transcendentais.
Mas ele parte logo de mim,
no cio noturno,
para seu espaço singular.
Reúne-se a outros gatos em devaneios
e fazem greve de fome junto
ao sedimentos de comida abandonados no quintal.
As unhas afiadas penetram no focinho
de um outro bichano,
iniciando-se milenar combate chinês,
que põe em pânico camundongos vadios.

O gato, de erótico caminhar,
percorre os telhados de barro,
absoluto na noite
- que é sempre uma promessa fugaz,
vislumbrada através dos fiapos

de nuvens que seu poder
animal não pode agatanhar...

Morto, ó gato,
de boca escancarada:
pavor daqueles que te fizeram
um bichano de estimação.

(Macapá, 1981)



ERA POSSÍVEL


É terminantemente proibida
a angústia
e o medo íntimo de perecer
surgir de repente
no decorrer flexível
destas noites
- grandes jornadas absurdas.

Tenho tido visões e sonhos
que não vos poderei revelar
neste século.
Aguardo a súbita guinada
que nos colocorá
numa era mais viável.

(Macapá, 1981)





NOTURNO EQUATORIAL


Chove pouco.
Porcos magros
grunhem e reclamam
por trás do meu quarto.
A marrequinha de estimação
está em silêncio.
As galinhas,
ensopadas e sorumbáticas,
empoleiradas nos galhos descascados
da goiabeira pangaia.
Uma aeronave acontece
em seu vôo doméstico
entre as nuvens molhadas,
explodindo suas turbinas
sobre rios e árvores.

Eu, pensando bem,
aconteço
- nos elementos desta cidade-refúgio.

(Macapá, 1981)




APONTAMENTO II


Às vezes não me chamo Paulo.
Chamo-me filho da transformação
do mutismo que inquieta.
Meu nome: incógnita insueta
que se incrustou na mente
( quase para sempre ).
Amanhã farei meu silêncio descrever-se
nos sumidouros apocalípticos
que existem nas imaginações
que não são minhas.

Não me chamarei Paulo,
nem Pedro ou muito menos
um vivente nordestino:
sou um protesto impune.

(Macapá, 1981)




POEMA ÍNTIMO


Acho que meu amor não me capta
quando ando distante,
nem compreende as minhas palavras
de animal obsceno
murmuradas na sua barriga.

Os láparos dormem
e ela não sonha comigo
quando adormece na varanda
do seu orgasmo infinito.


(Macapá, 1981)



VIVEIRO


Macapá,
vim do Nordeste sangrar meu sangue
nas tuas faces oblíquas.
Não me queiras vate:
queira-me sereno,
compenetrado e distante.

Vim sangrar como uma veia gigante
no ventre do Mundo.
Rubra enxurrada,
glóbulos vermelhos infindos,
vida de profusas emoções.
Vim sem lirismos ou comodismos
- mas trouxe comigo a impetuosidade
dos caminhos iluminados,
que recebem o Sol ininterruptamente.

Não vim arder no teu fogo
nem esgotar teu sonho
ou afugentar teus horizontes.
Meus instintos, porém,
não suprimem a possibilidade de fuga
em defesa do anonimato.

São célebres os teus cansaços e
Carências e mínimas as tuas iniciativas.
Sendo uma criatura ríspida e difusa,
absorvo-te e consigo sobreviver.
Sou selvagem de olhos e de andanças
nos recintos cerebrais.

Aqui sei que o cisne não canta no Amazonas,
embora o caminho exista
- límpido e comprido.

Não ouço também o hino de bronze
nas tardes quentíssimas.
Aqui também descobri que os anos não morrem:
sobem pelas montanhas e se ocultam
nos minérios, que serão descobertos
posteriormente pelos garimpeiros do nada.

(Macapá, 1982)



CÂMBIO


A tarde está em trânsito
no Território Federal do Amapá.
Ouço a serena elegia que
o Amazonas deságua aos meus pés.
As ilhas distantes são
como aqueles mistérios
que conviviam comigo
na infância.
A maré e a noite
chegam à praia desnuda.

A água é doce e suja;
a vida é doce
- doce e ruidosa...

(Macapá, 1982)




POEMA DE AÇO


Na carne humana
o aço é o sangue.
Sangue talvez
em forma de chumbo líquido.
A massa do corpo é sólida enquanto
a presença do oxigênio é possível.

O aço, o aço-metal e o poema
não representam propriamente
uma lacuna ou uma explicação
racional do indeferido apelo.

Meu poema vem da oficina metálica
que o tempo da minha infância e adolescência
construiu com seus sonhos e matemáticas.
Martelos, bigornas, talhadeiras,
brocas SKF, cobre, zinco, alumínio,
aço doce e ferro batido...

O poema torna-se AÇO
não por coincidência nem porque
seja a carne do Mundo:
é a minha carne que rompe
os controles do silêncio
e habita o dia a dia deste viver.

(Macapá, 1982)


ORIGEM


Ser humano é um dos meus defeitos.
Habitante do planeta Terra,
sou composto de pó, ferro e Sol.
Do Nordeste provém minha semente.
Só que não nasci à sombra das caatingas.
Nasci sentindo o rio Mearim
passando por perto e
rosnando periodicamente
no seu cio de pororoca.



SENSORIAL REALIDADE


Só é real o meu corpo,
aqui,
neste momento,
repousando no leito
e no cumprimento
das diretrizes biológicas.


Além,
onde nada percebo,
existem escuridões
e distâncias infinitas.




CARNAVAL


É imenso e borbulhante
o Carnaval da vida.
Além das avenidas
a sua batucada retumba
e faz alguém,
que em Carnavais passados
foi fiel folião,
estremecer e pensar
que o infinito Carnaval
é feito de solidão.



MODIFICAÇÃO


Minhas dúvidas bíblicas
são negadas
pelas religiões.
Inicia-se então
potente metamorfose
e surge o vigoroso:

anticristo
anticristal
anti-social
antipoético




INSÔNIA


Macapá.
Uma hora em ponto.
As impressões se acautelam
diante de mim, que sou amigo.
A cidade não está completamente
adormecida.
Um relógio aguarda
( tic-tac )
o momento mecânico
de despertar
( quem?).

Meu sono foi embora
pela janela fechada.



ELO


Esta comunhão extinta
que se prolifera nos dias e noites,
quando degluto hóstias de azinhavre
provindas das pulsações dos neurônios
e pensamentos mais distantes;
esta autocomunhão,
entre paredes invisíveis
e mistérios antigos, eclipsa
os planetas do meu Universo.
Creio que não será o término
dos meus cotidianos
que me fará pedra
- mesmo porque a pedra
é um símbolo fortíssimo,
mas a vida é o próprio símbolo
de tudo.

(Macapá, 24/5/83)





PRESENÇA


Eis-me, claro e aberto,
indo à morte
na música ímpar da vida,

no dia do aniversário,
no cartão de ponto,
no prato e no álcool,
na fé e na descrença.

Eis-me, humano e só,
filho do Mearim.

Eis-me, mãe,
não mais um retrato em família:
apenas uma fotografia na penumbra,
num quarto distante,
por trás (quase!) da vida.

Eis-me, mãe,
não tenho canais para evacuar
a minha voz;
não tenho sombras para abastecer-me
de energias e fazer a manutenção
do meu cansaço.

Eis-me, mãe,
apenas um rosto


um corpo e talvez uma lama
a extinguir-se nesta temperatura
do meio imaginário do Mundo
( Marco Zero do Equador,
marco zero em tudo:
até mesmo, e infelizmente,
no manômetro crepuscular
destes sentimentos ).

Mãe, se eu te contasse tudo
tu não irias entender as vozes múltiplas,
os caos intermináveis,
os carnavais ininterruptos
e todas essas celeumas que são geradas
na gente ou nas profundezas do inferno
( porque nós somos tão humanos
que perdemos o paraíso ).

Agora, o imenso abismo sou eu.
De asas postas, combustível atemporal,
eis-me sempre, presente em ti,
mesmo no hiato do medo,
na nomenclatura absurda das emoções,
na irracionalidade das idéias,
no peso egoístico de ser humano.

Pai, leve para outro Universo
menos puído o que resta de mim,
além deste silêncio e desta vontade
de tornar-me outro, mais irmão,


menos só, que é o outro lado,
de quase impossível alcance,
de longas e inúteis filosofias ),
pois eu já rasguei e esqueci
todos os livros e as folhinhas,
essas marcas dos nossos cotidianos,
caminham comigo,
vivem por aí comigo:
juntos, vamos percorrendo essas veredas
que as escrituras repelem.

Tantos, tantos silêncios...
Não me culpem, não me cobrem,
não guardem lembranças:
o mar, de boca posta em horizonte,
intraduzível e faminto,
escreve nas areias as suas palavras,
que nós apenas pisamos enquanto
as águas retornam para o coração do Oceano.

(Macapá, 1/8/84)





FORNALHA MENTAL


Esperam-me as línguas de fogo
do mais áspero inferno,
onde o espírito e a carne
( anticorpo e corpo )
permanecem como se irmãos fossem
na escala geométrica da eternidade,
no mesmo e ínvio abandono.

O mais próximo inferno
( forma antiquada de condenação ),
íntimo fogo de inigualável
grau centígrado,
oculta-se na minha mente.

(Ferreira Gomes, 1983)






POEMA AOS MORTOS


No céu de estrelas e infinitos
maiores ainda, as noites de areia
me aprisionam como a
um alienígena incógnito.

Os navios mercantes
abocanham os portos,
guindastes, contrabandos e fiscais.

Os homens e as cargas
são dissolvidos nos portos.
As tristezas saem das águas sujas
e viajam para todos os continentes:
são a matéria-prima da humanidade.

A solidão do homem no mar
é uma porta fechada,
mas que se abre nesses portos.

Eu sei que o Porto de Santana,
mudo como as pedras,
assistiu à partida
do Barco Novo Amapá,
com centenas de passageiros
que mergulharam para uma
outra vida quando tentavam
viabilizar os sonhos


multinacionais
do Projeto Jari.

Comboios de corpos inchados
boiaram nas águas e foram mostrados
ao público através das câmeras de TV.
Soldados do 3º BEF ajudaram no resgate
e no enterro das vítimas,
entregues à terra diante dos
parentes infelizes,
consolados pelos vigários italianos
que rezavam pelas almas
daqueles afogados.





DILUIÇÃO DO AZUL


Quando eu era criança havia
um suposto quadrúpede noturno,
de vasta e cristalina sombra
de magnitude,
que vinha sobre as faces múltiplas
de infernal vento,
a qualquer momento
diluindo o azul do seu fim.

Essa era a lenda do Cavalo-Marinho
que os adultos contavam para
amedrontar as crianças.
Até que um dia eu conheci
um exemplar do tal peixe mumificado
e nunca mais pude sonhar
com um quadrúpede encantado
que galopava pelas ruas
de Vitória do Mearim.
Apaixonei-me pelo singelo hipocampo.



AMPLA NOITE


Este caminhar:
como se fosse uma ampla noite.

Saber que a morte
é um adormecer de criança;
saber que a morte
é a mais brava
e repugnante das hipóteses.





SILÊNCIOS E ABISMOS


Muitas vezes as outras pessoas
não podem compreender
os meus silêncios:
de palavras,
gestos
ou fugas.

Minha linguagem
pode tornar-se em quietude,
porque meu território
não é tão livre assim:
talvez espingarda atenta,
estratégia militar.

Vermes noturnos,
iguais a máquinas,
constroem nos abismos incomuns
da minha oração as suas ruínas.




SILÊNCIO


Em silêncio está a cidade
( Vitória do Mearim )
e é perdida a minha voz interior.
Todos estão adormecidos,
bêbados, dopados de sono municipal.
Sei que quase tudo é silêncio
no silêncio
em que se faz este poema.
Sinto:
imagens/imaginações.
Tantas recordações
nesta quietude que até
um frágil vento que está passando
nem dispõe de força suficiente
para levantar as cortinas feias
das janelas das casas:
cidade vazia e só,
fechou todas as portas para mim.
Toda uma cidade que amo
some nos abismos dos meus olhos,
pois a escuridão neutraliza
a exígua luz projetada sobre os objetos.
Este deserto urbano amanhã estará florido
e os passantes esmagarão
a poesia que construí nas dependências
deste hotel tão frio: o Mundo.



HOMENS E FERAS


Acampam-se homens e feras
num mesmo abandono
que não tem explicação.

Neste acampamento
( que pode ser o planeta )
é tão vazio o caminhar
das sombras desamparadas.

Acampam-se homens
próximos de feras.
Homens comem feras
e feras devoram homens.
O sangue é da mesma cor,
brutos são os instintos,
os olhos, os assassinatos.




FAROL


O AÇO nestes poemas
está no meu sangue efervescente
na lâmina agudíssima da VIDA
no nascer e no morrer de todos os dias
na incompreensão
no amor e no desamor

O AÇO nestes sentimentos
não é peleja de imaginação verbal
conseqüência ilógica
de automatismos psíquicos:

é dureza/franqueza
sina/clamor
são minhas raízes plantadas
no ninho germinal da Terra

...........................................
POMEAS DE AÇO, Livro originalmente publicado em 1985 pelo Governo do Território Federal do Amapá.

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