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Paulo Murilo Carneiro Valença
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Sem perdão
Por: Paulo Murilo Carneiro Valença

1
Nervoso cruza o quarto. O desejo crescendo. O suor na testa. As mãos frias. E sabe - bem sabe - que só se aquietará quando satisfizer a vontade e, debruçando-se à janela, olha a noite fora. As residências de luzes acesas, de terraços vazios. A avenida transversal e com os veículos cruzando-a, em número reduzido devido à hora avançada. Tudo dentro da normalidade de uma aparência enganosa. Numa face de mentira, pois quantos dramas o interior daquelas residências escondem? E tudo prossegue! Passa a mão aberta sobre a cabeça, penteando com os dedos frios, a cabeleira longa, alourada, estirada. O desejo vencendo-o mais... Sem dinheiro como adquirir o produto?
- Brancoso você tá me devendo dez mil e só tem quinze dias pra me pagar!
A voz grossa, na ameaça do sujeito grande, forte, amulatado e ele, Claudinho, se desculpando:
- Eu lhe pago cara. Tenha mais um pouquinho de paciência...
A voz então gritada do outro:
- Paciência, paciência uma porra!
Não posso ficar nessa de esperar não. Já lhe dei uma chance, Brancoso. Quinze dias a partir de hoje. Se vire!
- Sim, sim.
O dinheiro para saldar a dívida... A mesada que recebe do pai é insuficiente para quitá-la. Os dias passando... Contendo-se. Trêmulo. Nervoso. Os “giros” por aí, querendo se esquecer. Dominar-se. As noites insones. Os olhares dos pais entendendo-o? O silêncio pesado. A censura sem palavras. Ele na aflição de se conter, sabendo, contudo, que chegará à hora na qual não mais lhe será possível esse domínio...
A mãe à frente da TV. O rosto pálido, envelhecido, tristonho. O mutismo de quem amarga sabe a conduta de vida que o filho tem, agravada nos últimos dias com as saídas. Os gestos que denunciam... Afinal, a certeza. E o marido, então, prático, homem vivido:
- Marluce você sabe por que tudo isso acontece? Porque o nosso filho não trabalha, anda com “patotinhas”. Relaxa no estudo. Não quer nada com responsabilidade. E acaba por se envolver com a droga!
Então, a voz dela numa indagação angustiante:
- E o que devemos fazer Humberto, qual a providência agora?
O marido calado, refletindo e, em seguida, resoluto:
- Temos de interná-lo! Com um tratamento é bem provável que ele se recupere.
Ela nada mais falou e permaneceram mudos, nos sofás, sem se fitar, unidos à mesma dor ante a realidade que os abraçava.
Sim, será melhor mesmo, mais prático que o Humberto seja franco com o Claudinho e o interne...
Suspira baixinho e pressionando o botão do aparelhinho, desliga a TV.
Os passos que descem a escada em caracol que se comunica com o andar superior, onde está o quarto do filho...
Ouve a porta se abrir e os passos no jardim e depois a zoada da moto que parte.
- Para onde vai o Claudinho?
Ah, a gente paga todos os pecados aqui mesmo na terra... Sim, através dos filhos, somos castigados.
- E como somos!
Explode a voz íntima.

2
O pilantra é aquele ali. O sujeito magro reconhece Claudinho sobre a moto, indeciso, como se esperasse alguém e esse, como se percebesse estar sendo observado, aí liga a moto e parte em velocidade. Sendo então seguido pelo outro.
No sinal adiante, o adolescente pára, respeitando-o. A moto do desconhecido se avizinha. Rápida. Determinada. E as detonações eclodem no cruzamento das ruas do Bairro de Casa Forte, fazendo mais uma vítima do mundo no qual não há perdão para quem deve.
A moto agora se dilui à distância, enquanto as trevas da madrugada são substituídas pela luz do novo dia.
Sim, haja o que houver, o mundo não pára, continua em sua marcha eterna.



Quando li me lembrei de João Antonio. Paulo Valença é um grande cronista do cotidiano dos marginalizados. É um escritor de verdade.
Comentário enviado por:
William Porto em: 19/8/2010.







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