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Paulo Murilo Carneiro Valença
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Testemunhas inocentes
Por: Paulo Murilo Carneiro Valença

1
O banco e nesse, a adolescente esguia, alta, loura, de cabelos longos, o sorriso aberto, de covinhas nas faces rosadas. Os olhos esverdeados inquietos, buscando...
Ele se aproxima. Os passos devagar. A sensação boa vencendo-o. As palavras tímidas:
- Esperou muito?
A voz melodiosa, no vigor da idade, responde:
- Nada, cheguei agorinha. Senta.
Afasta-se de lado, permitindo-lhe mais espaço no banco.
Ele atende-a. E, quantos segundos sem nada dizer, embevecido no amor que os une, onde as palavras têm pouca valia? Enquanto isso, a tarde escurece, com a noite que logo tomará posse da praça onde eles se encontram e da cidadezinha do interior. O vento frio, contudo, agradável, circula, acolhedor, numa caricia. E a mão fina, de longos dedos procura a sua, numa demonstração de afeto.



2
Em volta ao leito, a senhora idosa, os dois rapazes e a moça, seus filhos, acompanham o enfermo no leito, sem se mover. A respiração alta, os olhos fixos no forro branco, com a luminária ao centro.
Nada falam. Apenas esperam. O corpo cadavérico, o rosto de ossos furando a pele amarelada. O nariz crescido. Os lábios cerrados num risco. A respiração torna-se mais lenta. Os familiares presos ao silêncio da compreensão.
Sim, Seu Carlos está descansando do quanto sofreu nos últimos dias, partindo... As lágrimas então são inevitáveis. Os rostos as colhem, passivos, realistas.

3
A mão alva busca a sua mão. E a voz:
- Carlos eu sinto uma “coisa”, como um aviso, de que um dia a gente se separará!
Ele se volta, perplexo, ante as palavras pessimistas de Ercília:
- Mas... Como você pode dizer isso, se a gente se quer tanto?
Baixando a voz, ela responde:
- Não sei. Eu sinto. É como disse, se fosse um aviso...
Os olhos esverdeados cintilam. O rosto de repente torna-se pálido, unindo-os, enquanto os globos dos postes que contornam a praça se acendem, no aviso de que a noite nasceu.

4
A respiração vai diminuindo. Devagar os olhos se fecham. Os familiares permanecem calados. A dor irmanando-os numa compreensão. A porta do quarto se abre e os passos cautelosos do médico se avizinham, integrados à assistência profissional.
- Boa noite.
- Boa noite...
O doutor se achega ao leito. O enfermo então de repente sorri e... Pára de respirar. A mão do médico segura-lhe o pulso, e sem fitar a mulher e os filhos, diagnostica:
- Descansou.
Volta-se e lento sai do quarto, deixando-os com a cruel realidade da morte.

5
A primeira namorada. O amor inesquecível que retorna através da lembrança, nos instantes finais, então, o sorriso de gratidão pelo reencontro de uma felicidade passageira, contudo, eterna...

6
- Assim é a vida...
Diz o filho mais velho da senhora ao lado, enquanto dirige o carro. Os outros permanecem no quarto do hospital.
- Um dia todos nós partimos.
Ela não fala. Contendo-se, no martírio da própria dor.
Apenas permitindo que as lágrimas gordas lavem-lhe as faces marcadas pelo tempo.
- Temos de ser fortes mamãe!
O carro avança. A noite envelhece. Nas calçadas laterais, pedestres caminham em número menor, entregados aos próprios destinos.
O silêncio de ambos. O carro segue.
Sim, segue. A marcha prossegue com outras vidas, sonhos, dores e recordações.
- A senhora notou? Papai morreu sorrindo... De que ele terá se lembrado?
- Só ele sabe José, ou melhor, soube...
O rapaz então graceja, tentando quebrar um pouco o “clima” que os envolve:
- Eu sempre digo asneira! Como a gente pode saber o que se passa na cabeça dos outros, principalmente quando se está morrendo?
Vira a direção à esquerda e adentra na rua larga, com árvores de grande folhagem nas calçadas e que ante a pouca iluminação elétrica emprestam uma beleza poética à rua deserta, acolhedora da noite.
Com a mão trêmula, a idosa passa o lenço sobre as faces, acolhendo as lágrimas da perda querida.
Respeitando-lhe o sentimento, José foge o rosto de lado. Entendendo-a, também sentindo...



Mestre Paulo, mestre do lado escuro do cotidiano.
Roberto Kusiak, 10/3/2011 01:35:14









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