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Paulo Murilo Carneiro Valença
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Conto
 
A incerteza das horas
Por: Paulo Murilo Carneiro Valença


1
Colaço senta-se no banco alto, ao lado da impressora e com os olhos profissionais fica observando as caixas saindo uma atrás da outra na esteira logo à frente da máquina.
Sente-se exausto. Esses serões estão lhe acabando... Contudo, tem que trabalhar, manter a mulher paraplégica e o casal de filhos adolescentes, o Vandro e a Evany que estudam, para se projetarem, alcançar uma nova vida. Ainda bem que estudam, não lhe dão problemas, porque com os exemplos que se vê nos noticiários e nos “papos” com os conhecidos...
- Ainda bem.
Repete-se, falando o que pensa.
O seu ajudante, o Toinho se avizinha. Sorrindo, entendendo a nova mania do chefe em falar sozinho. O homem lhe parece não estar regulando bem. Também, com esse trabalho “puxado”, de virar as noites...
O rosto magro, amarelado de Colaço se volta, ao perceber Toinho que agora, próximo, também segue com os olhos analíticos o funcionamento da máquina.
- A “onduladeira” tá com uma zoadinha esquisita...
- Toinho bota essa boca pra lá, não inventa novidade! A máquina tá boa, o que precisando é de uma limpeza, que a gente faz assim que acabe esse pedido.
- Tudo bem, chefe.
Silenciam.
Em volta há o ritmo nervoso, cadenciado de outras máquinas funcionando, enquanto operários conduzem carrinhos com caixas empilhadas, outros varrem o piso poeirento, e os chefes de turma gritam, alertando os subalternos:
- Pretinho apressa isso cara!
- Maria conversa menos e trabalha mais!
O impressor cochila. A cabeça arreada, grisalha. Os braços longos caídos, num relaxamento...
O ajudante de repente se achega ao painel colorido e pressiona o botão, fazendo a máquina parar.
- O que danado houve Toinho?
- As letras tão com falhas, chefe. Temos de ajustar o cilindro.
- Certo, certo.
Então se ergue, para com o auxiliar retirar o cilindro estreito, pesado. Aí de súbito, se indaga como pai que zela pela conduta dos filhos. Será que eles já chegaram das aulas? Ultimamente, estão chegando muito tarde. Estão mudados...
- Segura Seu Colaço.
- Vai, aqui tá seguro.
As máquinas continuam o toc-toc-toc cadenciado. As ordens dos encarregados se fazem ouvir num som pesado, confuso. Os funcionários cruzam o salão grande, cumprem as obrigações. As horas se adiantam indiferentes a tudo, na integração ao tempo, que é implacável em sua marcha. Eterna marcha.

2
- Como é, Vandro, “topa” passar a mercadoria? É dinheiro certo, grana boa.
O adolescente recua, mais uma vez, temeroso da proposta, do que depois virá... O amigo do colégio sorri, e insiste:
Cara você não trabalha, o teu pai ganha mixaria... Um dinheiro assim vai cair bem!
Vandro reluta, prevenido ante os exemplos que sabe, o risco ao que se expõe, a incerteza das horas seguintes...
O pacote. A oferta. O sorriso irônico do outro. O dinheiro “gordo”. A tentação. O sacrifício do pai em manter a família, a mãe enferma, as necessidades impostas pela pobreza, que é cruel...
Então, com a mão trêmula segura o pequeno embrulho.
O colega continua sorrindo, vitorioso e, em detalhes, explica-lhe como passar a mercadoria.
Cabisbaixo, suando, Vandro escuta-o.

3
Dentro do carro bonito, importado, ele espera. A Evany está chegando, para a “curtição” do jantar e depois o amor gostoso no motel, ali à beira-mar da Praia de Candeias.
- Você está me “usando” Henrique?
A indagação. A voz de repente entendendo a realidade...
- Que é isso Evany? Eu lhe quero muito bem. Deixa de tolice!
Submissa então lhe atendeu nas poses sexuais exigidas.
Como se prender a uma “guria” pobre, filha de operário, moradora de favela? Sim, Evany é mais uma “paquera” que, numa hora, será “descartada” de sua vida, do jogo egoísta do prazer carnal.
A adolescente morena, alta, esguia, de cabelos longos, calças justas pretas e blusa azul se aproxima.
Ele abre a porta sorrindo. Antevendo os instantes do jogo de logo mais no leito aconchegante do pecado.
- Entra amor.
Ela mais uma vez atende. Submissa. Inocente do que a espera. Sim, do que lhe sucederá assim de repente...
O carro parte, macio, condutor da farsa e da submissão humana.


Mestre Paulo, mestre do lado escuro do cotidiano.
Roberto Kusiak, 10/3/2011 01:35:14


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