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Paulo Murilo Carneiro Valença
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Conto
 
A força que nos une
Por: Paulo Murilo Carneiro Valença







1
O Natal.
O pai chegando do emprego. Lento, cabisbaixo, a fisionomia serena, tristonha. O nariz como que crescido. O olhar fugidio. Os passos se avizinhando. A mãe entendendo tudo... Contudo, no silêncio conveniente da boa companheira. O pai sentando-se na cadeira de balanço e o mutismo persistindo, numa ameaça.
Ele, menino, com o irmão e a irmã próximos a cena e, a semelhança da mãe também aguardando a voz do pai, que enfim saiu devagar:
- Marta fui dispensado da fábrica.
- Mas...
A mãe falou de repente e silenciou perplexa ante a notícia que afetava a todos, e o pai retornou a falar:
- Ainda bem que peguei a semana trabalhada e daqui a quinze dias recebo ao que tenho direito...
- Ernesto você é um profissional, se coloca logo. Vamos ter fé. Assim é a vida...
- “Assim é a vida”.
O pai repetiu, sentindo o tamanho, a força da frase que dizia tudo.
- Marta vou lhe dá dinheiro para você fazer umas comprinhas, para a gente não passar o Natal em branco.
A mão de dedos curtos no bolso da calça e as cédulas com as quais repassou à mãe.
- Vá fazer as compras, enquanto isso vou tomar o meu banho. E vocês, meninos, vão brincar na calçada.
- Sim, papai.
Ele, menino, mais velho respondeu e deixando a salinha se encaminhou a calçada, seguido dos irmãos.
A tarde então caía. A noite sem tardar nasceria, com as residências circunvizinhas de luzes acesas e a torre da igreja adiante contornada pelo colorido das lâmpadas que se apagavam e acendiam se apagavam e...

2
- Todos os Natais, como numa tradição, eu me lembro daquele Natal de quando vi o meu pai chegar da fábrica desempregado, com o pouco dinheiro que recebera e que entregou a mãe para que ela fizesse umas comprinhas.
Laura escuta. O Antônio é muito conservador ao passado. Todos os Natais se lembra daquele vivido com o pai triste, desempregado...
Sem fitá-la, com a atenção ao vidro sobre a direção do carro, prossegue o conhecido desabafo:
- Pois é, minha querida. A gente envelhece e fica assim se recordando... Papai um sacrificado. Trabalhador. Honesto. De caráter, porque naquele tempo, tudo era muito diferente. Havia
moral, a coisa era mesmo outra. Hoje...
Laura sorri e voltando-se, analisa-o. O rosto bonito, com as marcas acentuadas da idade. A cabeça ficando grisalha, A pele amarelada... Fala:
- Concordo. Hoje está tudo mudado mesmo, aliás, pra pior, contudo, meu esposo, tudo se altera, nada permanece igual!
Ele sorri, aquiescendo.
- Papai, em sua pobreza, com a mamãe, soube nos criar. Seus filhos deram pra gente. O Nando é engenheiro civil; a Natália é advogada; eu, profissional em mecânica...
Laura com o rosto moreno, conservado, bonito, os cabelos finos, longos, negros então vai acompanhando o transitar do carro, pela abertura do vidro descido da porta. Residências. Prédios comerciais. A calçada com pedestres ainda em número grande. A iluminação na fachada das construções, no festejo das festas do fim de ano. Os automóveis e motos que se reduzem com o avanço das horas. O “clima” que tudo acolhe, contagia a alma. Escuta o marido.
- Sim, papai e mamãe souberam nos criar, mesmo pobres. Mas, hoje está tudo transformado para pior. Os filhos não consideram os pais, fazem o que bem entendem. Logo vivem à sua maneira... O nosso Carlinhos mesmo, tão novo, ainda um
adolescente, pensa em sair de casa, para completar o estudo no Rio. A Ana em nos deixar também, indo pra Europa... É doloroso tudo isso! Não me conformo. Sou à moda antiga, preservo a família, a força que nos une.
Então ele sente a mão macia sobre a sua coxa, no gesto conhecido de compreensão. Solidariedade.
- Antônio a gente tem de se adaptar à realidade. Os filhos vão crescendo e vão abrindo seus próprios caminhos. Ninguém, agora digo como a letra de uma música antiga, “Ninguém é de ninguém, na vida tudo passa”.
- Pois é, Laura.
O trânsito vai diminuindo, facilitando o avanço do carro e, sem tardar, o casal avista a residência ao centro da rua estreita. O murinho com o portão ao centro, defronte. O terraço. As cadeiras e o casal de idosos ocupando-as, a espera dos filhos, na tradicional reunião familiar do Natal.
- Papai e mamãe já estão no terraço... A Dalva e o Gabriel ainda não chegaram. Somos, como sempre, os primeiros.
Sim, ela aquiesce, percebendo a ausência dos carros dos cunhados com suas respectivas famílias:
- Os nossos meninos chegam depois...
- Espero Laura que o Carlinhos e a Ana não farrapem.
- Não, eles não faltarão.
Aí ele sente mais uma vez o aperto carinhoso que lhe transmite a compreensão, para que se descontraia. Relaxe. E avança, estacionando o auto ao meio-fio da residência.
Na varanda, os rostos dos idosos se voltam, reconhecendo-lhe o automóvel cinza e nas fisionomias magras, castigadas pelo tempo, desponta o sorriso do acolhimento por mais uma vez terem sidos lembrados, reconhecidos como pais.
A porta se abre e o casal salta. Vindo.
No céu acinzentado pela iluminação natalina, então os fogos espocam-se coloridos, como se fossem de acolhida à família que se une.
- Antônio e Laura um Feliz Natal para vocês!
Ah, mamãe, até quando escutarei sua voz nessa saudação?
Com a vista embaciada pelas lágrimas, então ele abraça o corpo magrinho.
Erguendo-se devagar da cadeira, o velho sorrindo se achega, para também cumprimentar o filho e a nora morena, conservada, bonita.
- Feliz Natal para vocês!
- E para o senhor também papai!
No céu, novo pipocar de fogos, que enche a noite de cores...

Paulo é um mestre do realismo urbano, seus escritos dissecam a realidade.
Comentário Enviado Por: william porto Em: 04/7/2011





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