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Paulo Murilo Carneiro Valença
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Conto
 
A herança do sangue
Por: Paulo Murilo Carneiro Valença

1
A moça loura, esguia, alta sorrindo, é mesmo uma graça. Transmite a alegria da vida. Contagia os olhares e... Como se parece com Laura! Será que é sua filha? Oscar continua fitando-a. Embevecido com o que vê, pois a beleza sempre o contagiou, aliás, quem não se prende ao que seja belo? Laura, antiga namorada, paixão de sua adolescência. O amor nunca esquecido. Por mais que tenha vivido, as lembranças ressurgem.
- Oscar você é muito ciumento. Só porque me viu conversando com o Diogo, que é meu primo!
Ele nervoso, buscava se justificar:
- Mas você me parecia muito interessada no que ele falava...
A discussão. O fim do namoro, ali na pracinha daquele interior. O cair da tarde. As calçadas circunvizinhas com um ou outro pedestre. O frio chegando. À noite avizinhando-se.
- Melhor Oscar a gente dá um “ tempo.”
Calado fitou-a. Seria verdade que Laura dizia tudo aquilo, ela que sempre fora compreensiva, que jamais se rebelava, que...
- Agora Oscar, fique certo de uma coisa: Você sempre se lembrará de mim.
A voz embargada pela emoção. Os olhos castanhos com as lágrimas gordas que desciam pelas faces brancas, pálidas, desfiguradas pelo que lhe ia n’alma.
Depois ele vindo com os pais para a capital, Recife, foi assumindo nova vida e o tempo passando, em sua marcha implacável, sem fim. E Laura se apagando de sua memória, ou melhor, ele buscando esquecê-la. E hoje, após longos anos de ausência, o retorno a cidadezinha de outrora, com tudo mudado, praticamente nada que lembre o que aqui ocorreu. Até mesmo a pracinha foi substituída por outra, com mais bancos circulares, o tanque ao centro, com os peixes vermelhos e Laura, será que ainda está viva?
Sua esposa se achega, sorrindo:
- Como é senhor meu marido, está gostando da festa?
Ele sorri, desperto ao presente:
- Estou. Mas, sabe Matilde, tudo diferente. Esse clube, essa gente... Tudo mesmo me parece diferente. Nada do que conheci, vivi. Nada!
Matilde sorri, aquiescendo:
- Oscar se lembre de que você saiu daqui há trinta anos e trinta anos é muito tempo, homem! O mundo não pára tudo evolui.
- Certo. Você tem razão, tudo evolui. Mas, Matilde, aquela moça loura ali, me lembra alguém... De quem será filha ou mesmo neta? Ah, tudo diferente!
A mulher se volta à jovem que conversa com outra, uma morena também charmosa.
- Eu vou procurar saber, pra matar a sua curiosidade. Fique aqui, que já volto.
- Mas...
Matilde se afasta. Determinada, também curiosa. Ele a vê se avizinhar, conversar e, logo retornar.
- Falei com a lourinha. Sabe de quem ela é filha?
Como lhe revelar o passado assim sem prevenir o espírito, dizer-lhe o que viveu, o que nunca mesmo, na realidade esqueceu?
- A menina me disse que é filha de Laura Antunes, mas, que sua mãe faleceu há uns três anos... E o seu pai é um tal de Diogo.
A perplexidade. E o silêncio que permanece. Então, o que julgara concretiza-se nessa revelação: a filha de Laura! O sorriso. Os gestos graciosos. Femininos. O carisma que desperta a atenção de envolver as pessoas... A herança do sangue. A continuação.
- Conheceu Laura, Oscar?
Para que revelar à Matilde que sim, que Laura foi sua namorada, o primeiro amor, que...
- Não me lembro não. Mas... Vamos indo? Está tarde e amanhã, vamos retornar ao Recife.
Ela estranha o regresso assim repentino:
- Já? Pensei que íamos ficar mais uns dois ou três dias por aqui. A cidade é pequena, mas tem o clima bom, o povo é acolhedor.
O conjunto sobre o tablado aos fundos do salão então inicia as primeiras notas se preparando para retornar a apresentação. As vozes. As risadas. Os casais que chegam. E, com disfarce, Oscar busca a lourinha, contudo, ela se afastou se perdeu entre os que agora lotam o recinto. Onde está? Tudo tão repentino...
- Vamos?
- Bora, Oscar. Você está cada vez mais difícil de entender. Quando pensei que estava gostando da festa, resolve ir embora. Vamos!
Lado a lado encaminham-se à saída, com os porteiros e as pessoas que adentram.

2
Ele dirige sem nada dizer.
A mulher ao lado respeita-lhe o silêncio. Conhece-o bem. Os anos de convivência lhe ensinaram a respeitar o temperamento do marido, que de repente, muda com uma risada, uma frase reflexiva ou o mutismo. E foge o rosto ao que o carro vai deixando para trás. As ruas largas, de residências conjugadas fechadas. As calçadas desertas. O silêncio bom, acolhedor do interior. A torre alta da igreja, com a cruz. A pracinha de bancos circulares. O tanque ao centro. O automóvel estacionado à esquina. Tudo lhe parece em repouso. Mas, não está havendo a festa no clube, então, por que não vê as pessoas inda para lá, a pé ou nos carros?
- Oscar?
- Sim.
Ele responde, mantendo a atenção ao vidro sobre a direção.
- Acho estranha essa placidez daqui. Com uma festa no clube e não vejo ninguém passando pra lá. Nem mesmo um carro...
Ele sorri enigmático.
- O que você me diz, marido?
- Ora Matilde. No interior é tudo diferente. Cada lugar com seus costumes. Maneira de ser. Deve ser por isso.
Silenciam. O automóvel adianta-se em sentido do hotel e hospedaria Aurora, enquanto as trevas da madrugada tudo agasalha.


3
- Aninha seu pai depois que voltamos daquela cidadezinha onde ele viveu a infância e parte da mocidade, veio diferente...
A moça então, indaga curiosa:
- Diferente como, mamãe?
Matilde foge os olhos às residências além dessa varanda na qual se encontram e responde:
- Diferente. Assim esquisito. Pouco falando, como se carregando um peso, uma coisa que lhe estivesse incomodando...
Silencia. A filha sorri:
- Mamãe papai sempre foi esquisitão e, com o tempo, essas mudanças de comportamento são naturais. É a velhice mamãe!
Matilde se volta, fitando-a. Os cabelos alourados. O rosto comprido. Os olhos esverdeados. O sorriso largo. Os braços longos. A maneira de falar, prática, decidida. A semelhança com o pai. A herança do sangue. A continuação.
-É, Aninha, você está certa. O Oscar é assim mesmo e, com a idade...
Sorrindo se entendem.
Na sala conjugada, no sofá, o velho fingindo cochilar, tudo escuta. E sorri. Preso que está ao mundo perdido. Seu refugio, onde descansa a alma, na acolhida ao que viveu.
“Você sempre se lembrará de mim”.
Ah, Laura que saudade!
- Onde está papai?
- Cochilando por aí. Como vem fazendo ultimamente.
- Sei, sei. Entendo.
Novamente ele sorri.


Quando li me lembrei de João Antonio. Paulo Valença é um grande cronista do cotidiano dos marginalizados. É um escritor de verdade.
Comentário enviado por:
William Porto em: 19/8/2010.




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