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Paulo Murilo Carneiro Valença
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Conto
 
No pulsar noturno
Por: Paulo Murilo Carneiro Valença

1
Múcio e Saulo, filhos do velho Melo se despedem deste:
- Papai até.
- Vou lá, papai.
Apertam a mão do idoso e saindo da varanda, adentram na sala conjugada e descem os degraus ao lado da porta de acesso ao ambiente.
Múcio à frente. O irmão atrás.
Vencem os degraus estreitos. O portão largo na área embaixo. Múcio retira o chaveiro do bolso da camisa e separando a chave abre-o. Passam. Múcio fecha o portão. E voltam os rostos à varanda, onde o velho permanece sentado na cadeira de balanço. Estatura pequena, gordo. A cabeça branquinha, a fisionomia serena, os olhos seguindo-lhes os passos.
- Papai está mais gordo, Saulo.
Esse aquiesce:
- Também achei. Mais gordo e, como sempre, reclamando por tudo!
Sorrindo encaminham-se ao carro preto, estacionado no meio-fio da praça adiante.
Dentro do veículo, Múcio dá partida. A atenção fixa ao vidro sobre a direção. Cuidadoso.
- Não sei por que Múcio, mas sinto como um aviso, de que papai partirá logo...
- Bota essa boca pra lá, cara! O velho tá firme, lúcido, mais antipático do que nunca. Acaba com pensamentos negativos. Bola pra frente!
Saulo não responde. Talvez o Múcio esteja certo. Sempre foi pessimista e que por isso mesmo, tenha...
- Como é, tá perto de se aposentar?
- Vou dar entrada agora nos papéis.
- Sei. Mas hoje tudo está diferente. O computador resolve na hora e sem tardar, você estará em casa, descansando. Trabalhou demais!
- Isso é verdade. Passei a vida como operário de fábrica e agora, vou pegar umas férias...
Silenciam. O carro contorna a praça e adentra na rua à direita, enquanto a noite vai chegando, com residências iluminadas, resumidos pedestres cruzando as calçadas, poucos carros e motos transitando, uma ou outra buzina nervosa, tudo no pulsar noturno.
- Saulo, eu ainda tenho que esperar mais uns anos para me aposentar e enquanto isso, terei de dar o “duro” para manter a Selma e os filhos, a Juliana e o Valter.
Pausa. O irmão espera. Entende-lhe o desabafo mais uma vez repetido, dos domingos, quando saem da visita ao velho e depois estão no carro, na avenida de tráfego reduzido pelo feriado.
- Se eu fosse entendido pela família, tudo bem, me sentiria gratificado, não me incomodaria de trabalhar, agüentar as reuniões, a cobrança de produção, os problemas com o operariado. Mas não, a mulher é uma fútil. Gastando, saindo, sempre na rua. Os filhos também fora de casa. Faculdade. “Turminhas”. Curtindo a idade, na indiferença aos pais. Integrados à vida sem freio, moderna demais!
Suspira com força. Silencia.
O outro nada diz. Solidário ao que o irmão sofre. Também tem o seu drama. A mulher (Maria) numa cadeira de rodas. A filha (Gracinha) adolescente, cuidando-a. Dedicada. Responsável... Ah, minha filha, se não fosse você o que seria de mim, de nossa família?
- Pois é, seu Saulo. Essa é que é a realidade, mas, creio mesmo que todos temos os nossos caminhos, ninguém na verdade, tem culpa de nada... É como se fossemos conduzidos por uma Energia que tudo determina. Fossemos umas marionetes!
- Concordo. Na verdade, somos marionetes.
O sinal fecha. O carro pára. Na calçada direita, a adolescente morena esguia, caminha. Graciosa. Solitária. Os passos ligeiros.
- Vê Saulo que moreninha interessante.
O irmão se volta, curioso.
- Interessantíssima! Em matéria de mulher o nosso país é bem servido. A miscigenação funcionou. É cada morena de “fechar o comércio!”.
Gargalham coniventes. O sinal abre e o carro avança.
Dobrando a esquina, a adolescente desaparece. Deixando, contudo, a imagem da beleza despertada numa cena rápida.
- Eu não vi mamãe, Saulo.
- Tinha saído pra missa, Múcio.
- Sei. Mamãe sempre religiosa.
- Pois é. A religião é necessária, Saulo.
- Muito necessária...
As luzes nos edifícios. Os carros de faróis acesos. As motos velozes, que não respeitam os sinais. Aqui e ali os pedestres... A noite amadurece.
Os irmãos vão silenciosos. De repente, entregues aos seus mundos íntimos. Problemáticos. Assim se repete outro domingo.
Pressionando o botão do rádio junto à direção, Múcio liberta a música clássica, bonita, que desperta uma “coisa”...
Ao lado, Saulo se mexe nervoso. Sensibilizado, E Múcio faz que não lhe entende. Fugindo. Discreto. E assovia baixinho, acompanhando o som da imortalidade transmitida pela sinfônica.

2
- Como vai à família, Múcio? A Selma ainda sai muito? E os meus netos, a Juliana e o Valter, curtindo a vida sem ligar para os pobres dos avós?
O filho sorri, triste. O velho é sempre indiscreto, agressivo. Quando quer dizer as coisas, não mede conseqüências, atinga a quem atingir.
- Estão em paz, papai. Os tempos de hoje são diferentes e a gente tem de entender...
- Você, Múcio, não reclama nada, não se impõe como chefe de família, é um fraco! Ainda bem que tou perto de morrer...
Silencia. As mãos trêmulas. Os olhos dilatados. A respiração alterada. O impulso nervoso de soltar o corpo para trás, cadenciando-se.
Os filhos respeitam-lhe o silêncio, e esperam...
A voz torna agora voltada ao Saulo:
- E você Saulo? Se aposentou? A Maria tá melhor? Coitada! Presa a uma cadeira de rodas...
Saulo responde, contendo-se, temendo a repentina reação raivosa do velho:
- Amanhã mesmo papai, vou ao INSS dá entrada na aposentadoria. A Maria tá “naquela”, com a Gracinha que a ajuda, compreensiva, boa menina.
- Sei, sei, entendo. Mas, vamos mudar de assunto: já falaram com a mãe? Ela tá na cozinha. Vão cumprimentá-la.
- Sim, papai.
Erguem-se obedientes. Presos a criação do respeito. Dever filial.
Ausentam-se da varanda.
Sozinho, seu Melo estende a vista as luzes das residências circunvizinhas a praça embaixo. A noite nasceu. Mais um domingo que vai passando, vai passando...
Cadenciando-se, cochila.

3
Os irmãos saltam do carro.
Na varanda do primeiro andar, a idosa está na cadeira de balanço.
Lado a lado eles se aproximam do portão e Múcio abrindo-o, adentram na área do prédio.
- Parece que estou vendo o papai na cadeira.
- Eu também, Saulo... A gente não é nada mesmo não. De repente, o nosso pai partiu.
Sobem os degraus.
- Maldito infarto!
Os passos. O sorriso no rosto de traços ainda corretos, ferido pelo tempo e a voz trêmula, contudo, cheia de emoção:
- Meus filhos!
Achegam-se para lhe beijar a cabeça branquinha.
- Pensei que não veriam hoje...
- Que é isso mamãe? Todos os domingos estaremos aqui. Não faltaremos.
- Mas... Sentem-se.
Obedecendo, ocupam as cadeiras próximas.
Contidos, esperam que a velha volte a falar.
Esperam.

Paulo é um mestre do realismo urbano, seus escritos dissecam a realidade.
Comentário Enviado Por: william porto Em: 04/7/2011



















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