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Paulo Murilo Carneiro Valença
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Conto
 
A flor do lodo
Por: Paulo Murilo Carneiro Valença

1
Branca, cabelos negros, afilada, esguia, elegante, bonita.
O que veste lhe cai bem, tem a graça natural da feminilidade e com isso, desperta atenção. Inveja nas mulheres e comentários entre os homens:
- Menina engraçada danada!
Diz sorrindo o gordo amulatado Ivanildo e, o outro, o “coroa” baixo, magro Inaldo:
- Pena que está levando uma vida “desgarrada”...
O gordo se volta, perplexo:
- “Desgarrada?”.
Sorrindo, Ivanildo responde:
- Me admira você, Inaldo, morando aqui não conhecer as pessoas. Ela é de “programa” cara!
- Mas...
O sorriso malicioso de Ivanildo e silenciam, seguindo com o olhar analítico a figura que agora diminuída pela distância, abre o portão ao centro do muro baixo e adentra na área que a conduz à residência de terraço e janela ao lado.
Uma mocinha dessas ser de “programa”... É lamentável! É de não se acreditar. Mas, enfim, assim é o mundo com seus desajustes sociais, misérias humanas.
Pensa Inaldo e, para o amigo:
- Vou indo. Depois a gente conversa mais. Até!
Ivanildo aquiesce:
- Vai lá, cara.
Separam-se. Inaldo à esquerda e Ivanildo à direita, em rumo às residências.
Indiferente a tudo, a noite vai chegando, com pedestres nas calçadas, carros, motos e bicicletas cruzando a rua estreita, enquanto nas residências conjugadas de terracinhos, porta e janela, as luzes se acendem. E de uma moradia circunvizinha

vem o som da música “brega”, sucesso do momento.

2
Ela passou há pouco.
As pernas e braços longos, os sapatos altos. O rosto afilado. O olhar perdido. A beleza em movimento. Reflete o garçom Luis, com a vista no movimento da rua, enquanto à porta do estabelecimento, aguarda o próximo freguês. Comentam que ela é de “esquema”, sai assim sozinha para um encontro amoroso... Contudo, ele, Luis, não estranha, pois aqui no morro, isso é natural. Faz parte da vida de seus moradores. Sim, aqui mais do que em qualquer outro bairro dessa cidade grande de Recife, a pobreza, a miséria que é capaz de tudo, manipula os seres, no jogo perverso pela sobrevivência.
- É isso aí meu!
Sorri e vai atender ao sujeito alto, moreno, magro, bem vestido (deve ser de outro bairro) que estacionando o carro vermelho no meio-fio defronte, acaba de entrar no bar-restaurante.
- Às ordens, cidadão.
O recém-chegado então pede, sorrindo:
- Uma dose de uísque do melhor que você tiver e um prato de queijo-de-coalho, bem assado.
- Tudo bem.
O garçom se afasta em direção ao balcão nos fundos da sala, onde transmitirá ao proprietário Nestor, o solicitado.
À mesa, o homem com os olhos analisa o ambiente de mesas e cadeiras vazias.
Depois, desvia a atenção ao que ocorre na rua defronte. Nos veículos, pedestres nesse “agitar” de começo da noite. E

encaminhando a mão direita ao bolso interno do paletó, retira o aparelhinho e disca:
- É a Paulinha? Sim, sou eu mesmo, o Costa. Sim... Estou aqui, no bar-restaurante “Recanto de todos”. Espero. Tchau!
Repõe o celular no bolso e estende a mão para receber a bandeja com o que solicitou.
- Tudo bem, jovem.
Luis sorri profissional:
- Qualquer coisa e só chamar com a mão, doutor.
- Tudo bem.
O garçom novamente se retira. E o homem bebe, devagarzinho. Imaginoso. A Paulinha (será mesmo esse o seu nome?) viver num lugar desses, num morro: uma criatura nova, com aparência, bonita... É como se fosse uma flor que nasce no lodo. Destoa. Choca a nossa sensibilidade. Ah, está ficando sentimental. Sintoma de que envelhece... De um gole, esvazia o copo e, erguendo o braço, com a mão aberta acena ao garçom que com discrição, acompanha-lhe os movimentos.
Espera.

3
Ivanildo mais gordo, a calvície acentuada, a voz (também mais grossa?) para o amigo Inaldo, que continua magro e xereteiro, como sempre:
- Vê, “a menina-de-programa” vem ali.
O outro se volta, curioso.
Ela caminha. As calças justas, compridas, azuis. Os braços
longos ao bamboleio das ancas. A graça feminina. Os cabelos negros. A elegância em se mover. Apróxima-se.

Os homens fogem os rostos de lado, no disfarce que esconde a curiosidade pela cena mais uma vez repetida e que lhes desvenda a existência de “garota-de-esquema”.
Ela passa, como se não os entendesse, ignorasse-os, como se não fosse o alvo da curiosidade mórbida do lugar que tudo revela sem disfarce, nas cores da realidade de cada um...
Ela distancia-se em direção à casa murada, de portão ao centro, varanda e janela ao lado.
-Envelheço Ivanildo, e não me acostumo com o que vejo... Uma mocinha dessas, em plena vida ter de se entregar para sobreviver! Por que tudo isso?
- Inaldo, cara, o mundo é assim mesmo. E não será você nem eu, que há de consertar essas coisas.
Os olhos indiscretos seguem a figura que abre o portão e adentra na área que a conduz ao terraço e desse ao interior da pequena casa. Tudo numa dolorosa repetição da vida. Até quando assim?

4
Ah, a Paulinha é um pecado ambulante! O que é capaz de fazer no leito dum motel...
Sorri ante as reflexões e, puxando a cadeira, senta-se à mesa do bar-restaurante “Recanto de todos”.
O garçom Luis se achega:
- Às ordens, doutor.
- O de sempre, jovem. Uísque e aquele prato de queijo assado.
- Tudo bem.
Afasta-se em sentido do balcão do estabelecimento, enquanto o já freguês corre a vista pelo ambiente de mesas e cadeiras

ocupadas por casais e ao agitar de fora, na rua com maior movimento de pedestres, carros, motos e bicicletas cruzando-a, nessa sexta-feira. Paulinha que verá na próxima semana, que...
- O solicitado, doutor.
- Ok, meu jovem.
Então a mão bem tratada se estende para receber a bandeja com a dose e o prato de tira-gosto.
Em passos largos Luis se afasta, indo atender o casal que acaba de ocupar a mesa logo à frente.
- Às ordens.
Sorrindo, profissional, aguarda.

Paulo Valença sabe escrever contos fortes e com tintas de realidade.
Comentário Enviado Por: José Ribamar Em: 16/9/2011

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