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Paulo Murilo Carneiro Valença
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Conto
 
A árvore tatuada
Por: Paulo Murilo Carneiro Valença


1
O proprietário do bar-restaurante O Nordestino à esquina da Rua Verde sorrindo, no desejo comercial da agradar, responde, com a atenção à residência com a árvore grande, bem folheada, ao centro direito dessa rua:
- A casa ali, segundo me disseram, está pra vender.
- Vender?
O homem então se voltando, encara o recém-chegado à mesa e responde:
- É o que eu soube. A dona que mora lá, D. Luzia, uma mulher “coroa”, bonita, enviuvou há pouco tempo e parece, quer se desfazer do casarão.
Com os olhos na residência, o sujeito magro reflete. Será a mesma Luzia daquele tempo? E torna a falar:
- O amigo tem conhecimento de quanto à senhora da casa está pedindo pela venda?
- Sei não, senhor. Mas... Me dê licença que vou atender o cara que chegou.
- Tudo bem. Obrigado pela informação.
O outro se ausenta em sentido da mesa com o sujeito gordo, amulatado, bem vestido que acompanhado por uma loura, acena-lhe.
O que chegou primeiro ao ambiente, continua refletindo. Quanta vez no passado, adolescente ia se encontrar debaixo daquela árvore com Luzia? Ela sentada no banco circular em volta ao tronco grosso, sorrindo, recebendo-o. Os olhos negros brilhantes. Os cabelos finos, estirados, longos caindo-lhe sobre os ombros.
- Você demorou...
- É, me atrasei um pouco.
As resumidas palavras. O enlevo que os envolvia, no acalanto de uma época onde tudo era simples, sem as
maldades dos dias atuais e, uma tarde ele indagara a Luzia:
- Vamos gravar os nomes da gente nesse tronco?
- Vamos Miguel.
Ele então retirou o canivete do bolso da calça e riscou dentro de um coração: Miguel - Luzia.
- Pronto, um dia, a gente vai se lembrar dessa tarde.
- Sim...
As mãos que se buscaram. Os dedos trêmulos. O silêncio cúmplice. E o sossego em volta, comparsa dos instantes do amor puro, tão diferente...
- O senhor deseja outra dose?
O proprietário do bar retornando. Ativo. Comercial.
- Quero, mais uma, reforçada, com outro pratinho de “agulhas frita”.
- Tudo bem.
Sozinho outra vez, ele se reentrega ao que viveu.
Outra tarde, regressa à rua e a encontra completamente diferente, com residências muradas, edifícios modernos, bonitos. Automóveis ao meio-fio. Pedestres nas calçadas. Motos passando em velocidade e a casa como símbolo do passado, ali, a mesma. Varanda larga. As janelas nas laterais. O jardim bem cuidado. A árvore com o banco e... Luzia (seria a mesma do passado?) viúva, querendo vender a casa. Desfazer-se do que essa lhe representava? Mistérios da vida...
A voz grossa do proprietário do ambiente, então, interrompe-lhe os pensamentos:
- Aqui, Senhor.
A bandeja. A dose. O prato com as “agulhas fritas” e sua mão recebendo essa.
Fora, a tarde escurece ante a chegada da noite. Tudo na sucessão natural de sempre, como se não tivesse existido o passado, como se tudo se convertesse apenas em presente.
Toma a dose devagar. E, de repente, se indaga; Se fosse até a casa, como alguém interessado em adquiri-la? Assim, voltaria a ver de perto, a árvore, saber se o que gravara em seu tronco ainda existe. Saber como está Luzia (caso seja a mesma...) após anos sem a ver?
O automóvel estaciona defronte, ao meio-fio. A porta se abre, e um casal jovem salta. Os sorrisos. A descontração natural da idade. O namoro. E saber que tudo isso passa, para depois voltar como lembranças!
Caso seja a mesma Luzia de antes, ela o reconhecerá, e ... Qual será a sua reação?
- Eu lhe quero muito bem, Miguel.
- E eu também Luzia.
Contudo, o tempo é impiedoso. Modifica as pessoas. É prático, indiferente aos nossos sentimentos...

2
Miguel senta-se no banco circular ao tronco da árvore. O coração aos pulos. Procura no grosso tronco, o coração com o seu nome e o de Luzia gravados em seu interior, pelo canivete numa tarde, de quando jovens... Será a mesma Luzia dos dias vividos, a proprietária dessa residência que, aparentemente, se conserva, como num milagre que varou o tempo, igual? E se... Ela o reconhecerá? Ele sempre fugitivo, covardemente se buscando, dentro de um orgulho de “machão” de uma época superada em seus conceitos...
Luzia então se aproxima. Ele a reconhece. Sim, é a mesma, apenas mais cheia de corpo. O rosto bem detalhado. Os olhos grandes, negros. Os cabelos lisos, caindo sobre os ombros desnudos pela blusa azul...
Contendo-se, emocionado, ele tentando naturalidade, a cumprimenta:
- Boa tarde.
Ela também o reconhece. O rosto de traços corretos, bonito. As rugas nos cantos dos olhos castanhos, na testa larga, nos cantos dos lábios, a calvície se pronunciando na cabeleira já grisalha. O corpo magro. O jeito de desviar o rosto de lado, escondendo-se e a voz (um pouco trêmula?) que fala:
- Eu soube que a senhora deseja vender essa casa...
Como ele teve conhecimento disso, se não anunciou a venda em jornais ou mesmo no rádio?
Fitando-a com descrição, o coração novamente aos pulos, Miguel aguarda-lhe a resposta, que logo chega:
- Não senhor. Não pretendo vender a casa não. Ela pertenceu a minha família e, enquanto eu viver, aqui ficarei. Ela me traz boas lembranças. Mas, me parece que conheço o senhor... Como é mesmo que se chama?
Ele então encara sua própria verdade:
- Miguel. Miguel Carneiro.
O silêncio repentino entre ambos. Devagar, ela senta-se no banco, ao seu lado, imitando aquela cena de antes, muito antes. Cena essa que agora se lhes apresente falsa, de cruel realidade.
A tarde morre.
Os carros em maior quantidade devido ao término dos expedientes nas repartições, comércio e indústria, cruzam a rua fronteira. Às calçadas pedestres se movem apressados. O vento circula, como numa carícia aos rostos sérios, contidos e... os olhos de ambos se voltam ao tronco, com seus nomes dentro do círculo em forma de coração. Quantos segundo assim, na silenciosa homenagem aos anos de ontem?
- Bom... Foi um prazer conhecer a senhora. Desculpe-me ter lhe tomado o seu tempo.
A mão que se lhe estende.
Ela aperta-a sem calor e, desviando o rosto de lado, mal consegue falar:
- O senhor não me incomodou em nada. O prazer foi meu.
Cabisbaixo, dando-lhe as costas, ele se afasta sob o peso do passado.
Luzia fica vendo-o se ir e sente-se, de repente, mais desamparada em sua viuvez. Então, por que não grita, se libertando, chamando-o?
A figura alta se torna menor para ao dobrar a esquina adiante, desaparecer e, num gesto de carinho, a mão de longos dedos acaricia o desenho tatuado no tronco da árvore Amêndoa, de frutos duros e sem sabor.

3
Miguel por que fugiu sem se identificar como sendo aquele adolescente de outrora, por que a fingida atitude? Ah, ele sempre foi esquivo, misterioso em se exibir como é realmente e agora após tantos anos sem se encontrarem...
- Deixa pra lá Luzia!
Diz, levando as reflexões ao gracejo. O que passou, está morto. A realidade é o que importa. A verdade nos ensina como proceder ante a própria vida e, resoluta, retorna à residência. Sim, cada um com o seu caminho. Sua verdade.
Empurra a porta e se reentrega ao interior da casa, seu refúgio, amparo de tudo. Tudo.

4
Luzia mantém-se bonita, conservada agora na maturidade. Por que não lhe disse quem realmente era, por que o disfarce (disfarce?) de se manter anônimo? Contudo, sabe que Luzia o reconheceu... Melhor então, esquecer a cena do reencontro, é o sensato.
Abre a porta do carro e, logo, parte. O rosto tenso. A emoção ainda dominando-lhe a alma.
A noite é senhora do bairro classe-alta.
Sim, ir em frente. Ser prático. Torna a se dizer.
- Apenas isso: prático!
Dirige e de repente se ver no “congestionamento” de todas as noites em começo.
Solta um palavrão e, nervoso, buzina, pedindo a inútil passagem.
- Maldita cidade!




























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