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Paulo Murilo Carneiro Valença
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Conto
 
As lágrimas do Pretinho
Por: Paulo Murilo Carneiro Valença

1
A viatura policial entra na Rua Maria Antonieta.
Os quatro policiais estão calados. Os rostos tensos, as testas enrugadas. A respiração nervosa. Contudo, profissionais, se contêm.
O movimento de carros e pedestres nessa rua é pequeno, o que lhes facilitará a “missão”.
A tarde escurece ante o início da noite e, de repente, o sargento que vai à direção, fala, sem encarar os subalternos:
- Segundo o “informante” é ali à esquerda, na terceira travessa. Se preparem.
- Positivo!
Responde a voz grossa do negro Roldão no banco de trás.
A viatura acelera.

2
Os dois adolescentes estão sentados no primeiro degrau da escadaria estreita e longa que conduz às moradias nas laterais e ao morro lá no alto.
Esperam o próximo “freguês” que lhes avisou pelo celular que veria pegar a “muamba”.
À luz do poste vizinho então se acende, no aviso de que a noite logo nascerá e, o mais novo dos rapazinhos:
- Til tou com um “pressentimento”...
O amigo sem o fitar, responde, protestando:
- Cala essa boca Pretinho. Tu é um “agouro!”.
Pretinho sorri, sem mais nada falar. Quando “sente” assim de repente uma “coisa”, como um aviso...
- Deixa pra lá!
Desabafa-se, dando voz ao que reflete.
- Falou?
- Nada não, Til.
Então a noite cai. Abraça as residências conjugadas, de porta e janela. Os carros, motos, bicicletas e pedestres aumentam com o término do expediente da grande indústria circunvizinha, libertando seus funcionários, que agora retornam aos lares.
-Pretinho, o cara tá demorando... Não tou gostando nada!
- Sossega Til.
- Agora meu, eu é que tou com a “coisa” ruim...
Sorriem coniventes, se entendendo. Então acontece: a viatura chega em velocidade e estaciona à frente de ambos. E, do interior da mesma, parte a voz autoritária do sargento:
- Fiquem aí, seus moleques. Não corram!
Os adolescentes obedecem. Trêmulos. Sem ação. Entendendo...
As portas do camburão se abrem e, rápidos, os homens saltam. Vindo.
- Onde tá a “mercadoria” moreno?
Til mal consegue falar, em resposta:
- Mas...
- Deixa de besteira. Passa a droga!
As mãos pesadas então lhe correm os bolsos da bermuda e encontram os papelotes no bolso traseiro.
- Tão presos!
Seguro por mãos fortes Pretinho não reage, submisso ao que presencia e sente na própria carne.
- Colegas botem os meliantes na ”gaiola”.
Os rapazinhos são empurrados com violência à parte de trás do veículo. A porta desce, fechando-os e os policiais sempre apressados, abrindo as portas adentram na condução.
- Missão cumprida. Vamos!
O sorriso no rosto largo, gordo do sargento brancoso e a viatura parte, com a sirene aberta, na propaganda de que estão trabalhando, oferecendo segurança à população, no combate ao tráfico de drogas.
Às portas e janelas das casas surgem os moradores, na curiosidade de vê a cena, testemunhar o que já conhecem de outras vezes.
- Boyzinhos vocês tão ferrados!
A gargalhada de deboche do sargento. O silêncio dos rapazinhos, e dos outros homens.
Dobrando a esquina à direita, a viatura ganha a Avenida Camilo de Mello, já cheia de carros, motos e pedestres nas calçadas.
- Como isso se encheu assim de repente?
- É o começo da noite, sargento, com o operariado largando do trabalho.
- Sei, entendo.
Impaciente, com dificuldade segue em frente.
Cabisbaixo, Pretinho chora baixinho. Bem que tava “sentindo”...

3
O soldado negro, grande, forte, entra na rua estreita, na qual um pouco adiante, mora com a mulher Cleide e os
dois filhos adolescentes, o Antônio e o Gabriel.
Vem pensando na prisão que com o sargento Dirceu e os outros dois colegas realizaram hoje, no início da noite, ali no Bairro de Caixa D’água, Olinda.
Uns adolescentes ainda. O choro baixinho daquele Pretinho, que tem mais ou menos a idade do seu filho mais velho, o Antônio...
- Eita mundo cão!
Sim, é policial, conhece bem a realidade de nossos dias, dos jovens que, na maioria das vezes, devido aos desajustes sociais são levados ao mundo das drogas... Não, não se adapta, não consegue ser apenas prático, se entregar ao dever de exercer a lei. Sofre com essas prisões, embora, por conveniência, se oculte no próprio silêncio.
Ali está a casinha. Será que os filhos estão em casa, já chegaram do colégio? E, como se desejasse protegê-los do mundo com suas terríveis armadilhas, apressa-se.
Chegando, logo a sala de entrada, indaga a mulher, defronte a televisão:
- Os meninos chegaram Cleide?
Ela se volta perplexa;
- Roldão que é isso? Você bem sabe que a essa hora eles estão no colégio.
- Sim, sei.
Então se deixa cair sobre o sofá amarelo, sem nada mais dizer. E a repetida cena do Negrinho cabisbaixo. Chorando. As lágrimas compridas. O corpo raquítico. O suor na testa larga. As mãos aflitas, se apertando.
Ergue-se nervoso e deixa a sala, como se assim, fugisse a lembrança.
Fitando-o novamente Cleide se indaga: o que danado se passa com o Roldão? Ele deve ter participado hoje de uma “batida”, prendido alguém. Conhece-o bem, sabe que quando ele se mostra assim ”esquisito”... E, busca se prender a novela, com as besteiras de sempre.
Sempre.


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