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João Márcio F. Cruz
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O Cheiro do capim molhado
Por: João Márcio F. Cruz

O cheiro de capim molhado

Quando a reunião acabou, ele pegou o telefone e ligou para seu chofer. Estava muito decepcionado. Os acionistas não compreenderam suas idéias, a equipe de subordinados interpretou errado os projetos. Ele tinha pensado em tudo durante a semana inteira mas só hoje pode ver como eles estavam longe daquilo que acreditara. Afrouxou a gravata. Nesses momentos parecia que o mundo o sufocava. 15 minutos depois, seu nervosismo já o tinha feito fumar cinco cigarros, quando o carro chegou. Ele resmungou alguma coisa para o motorista e nem ouviu quando ele falou de sua mãe. A anos não conversava com ela, sempre muito ocupado, mas nunca esquecera de seu aniversário. Todo ano fazia questão de enviar-lhe um presente. A mãe ficava muito contente e ele podia dormir em paz.

Pela janela viu alguns vendedores. “todos tentam sobreviver” pensou consigo. O chofer tentou iniciar algum diálogo, em vão, já que a cabeça de seu patrão só pensava números, investimentos, negócios. Quando o sinal fechou ele olhou para o lado. A sua esquerda, várias pastas com convites para reuniões, contas para pagar, projetos inacabados, promissórias, papéis da empresa por assinar. Ele tinha que resolver tudo ainda essa noite. Para seu descontentamento começou a chover. O céu nublado escureceu rápido o caminho. As luzes do automóvel foram acesas. A chuva, rapidamente, molhou o asfalto, deixando úmido a pista, as paredes, e a roupa dos pedestres incautos. Por distração do motorista ou obra do destino, o vidro da porta do carro estava entreaberta. O vento frio da chuva entrou no carro, junto veio um cheiro de capim molhado. Com o cheiro do capim molhado vieram lembranças, lembranças de uma época remota.


Era um dia nublado. O vento trazia a promessa de uma tarde chuvosa. Crianças brincavam de bola. A chuva não se demorou. Com a chuva veio a alegria, sorrisos, afagos e sangue, o sangue inocente de uma proeza. Um dos garotos escorregou numa pedra e cortou o joelho, nada demais, apenas um escorregão. Os amigos acercaram-se dele, pegaram pelo braço, outros nos pés e levaram-no para casa. Ele foi carregado até o terreiro de casa quando sua mãe, sua amada mãe, correu com uma toalha para estancar o sangramento. Naquele momento um cheiro de capim molhado permeava o local. Dentro de alguns instantes a chuva parou. O sangue estancou mas os sorrisos, as brincadeiras, a alegria, e os ósculos maternos pareciam sem fim. Seu pai chegou para o jantar trazendo um pote de frutas. Ele adorava frutas! Quando foi assentar-se a mesa, foi despertado por um som estridente. Era uma moto em alta velocidade. O sinal abril e os apressados estavam cortando caminho por entre os carros. Ele olhou para fora, tentando adivinhar de onde vinha aquele cheiro:

- vem de um bosque aqui próximo! respondeu o motorista.

- da próxima vez, feche o vidro! Você sabe como sou sensível a cheiro de terra molhada!?

O homem tratou de fechar o vidro imediatamente. Era bem pago para isso. Quando a chuva parou ele olhou para o lado. A sua esquerda, várias pastas com convites para reuniões, contas para pagar, projetos inacabados, promissórias, papéis da empresa por assinar. Quando chegou em casa, foi até o quarto, pegou um retrato de seus pais. A muitos anos ele não chorava, a muitos anos ele não olhava aquele retrato. Como era um homem muito importante, devolveu as fotos a gaveta, tomou um vinho e sentou na poltrona. Do seu lado papéis, papéis, papéis...O relógio de parede alarmou. Em uníssono, ouviu seu coração bater. Era hora de resgatar aquele cheiro de capim molhado.


Bel. João Márcio
Pós-graduado em gestão da saúde
Palestrante e escritor
Colunista do Jornal de mão em mão
Autor do livro OS QUATRO PILARES DA EDUCAÇÃO

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