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Conto
 
Guilherme, Arnoldo e as uvas
Por: João Carlos Hey

O meu avô Guilherme viveu respeitando as pessoas, os bichos, as plantas. Tudo para ele tinha o seu tempo. Aguardava pacientemente o momento de cada coisa. Da natureza, principalmente. Por isso, não atropelava os cavalos nas subidas, deixando os animais livres para vencer os obstáculos no ritmo que as suas forças permitissem. Esperava a época certa das podas e de colher os frutos. Nem mais, nem menos.

Um dia, no quintal de casa, ele e seu irmão Arnoldo proseavam junto de uma videira que ele próprio havia plantado anos atrás. Guilherme era o filho mais velho de Felipe, e Arnoldo o mais novo - o nenê do Felipe, conforme dizia minha mãe carinhosamente.

A conversa ia bem até que o tio Arnoldo instintivamente começou a catar grãos de uvas ainda verdes. Pegava ora de um cacho, ora de outro. Por vezes um cacho inteiro. Mastigava as uvas e gozava com uma careta o
arrepio do azedinho.

Meu avô prontamente reclamou:

- Arnoldo, estas uvas ainda não estão prontas. Espere o tempo certo e terá uvas saborosas.

O tio Arnoldo apenas deu uma risadinha e o papo continuou. Todavia, esquecido da reclamação, voltou a cometer o ataque contra a generosa videira.

- Pare com isso. Desfalcando cada cacho, você estraga a planta inteira. Além disso, uvas verdes podem lhe fazer mal - disse o meu avô, já demonstrando certa irritação.

Mas não havia jeito. O teimoso tio Arnoldo esquecia a reprimenda e voltava a cometer o que, para o meu avô, era uma violência contra a natureza. Inúteis os pedidos e alertas. A teima continuava junto com a conversa que, a essa altura, já ia se deteriorando.

Como todo mundo tem o seu dia de fúria na vida, o meu avô Guilherme estava sendo empurrado para o seu pela teimosia infantil do irmão mais novo. O fluxo sanguíneo adquiria mais velocidade segundo a segundo, pressionando-lhe a cabeça e embaralhando-lhe as ideias. A cada passagem pelo coração, o sangue era bombeado mais forte, esquentando-lhe o corpo e afastando-o do raciocínio lógico e da concentração. Sentia que estava perdendo o juízo.

Não agüentando mais a atitude do outro, abandonou-o por uns instantes e entrou no paiol, onde guardava a carroça, os alimentos da bicharada e as ferramentas. De lá saiu empunhando um afiado machado.

O tio Arnoldo ao ver o irmão, agora visivelmente alterado, avançando na sua direção com a ferramenta nas mãos, ainda pediu:

- Guilherme, não faça bobagem... Largue esse machado, eu já vou embora.

Dominado pela ira, meu avô não ouvia mais nada e nem se esforçava para isso. Com o machado nas mãos foi ao encontro do irmão que permanecia estático, e agora lívido de pavor, ao lado da videira.

Diante dele, arrumou a mão direita mais para a extremidade do cabo e a esquerda mais ou menos no meio. Posicionou o machado com o dorso quase encostado no ombro esquerdo e falou para o apavorado tio Arnoldo, que pregara os pés no chão, sem forças para se afastar:

- Arnoldo, você nunca mais vai comer uvas verdes desta videira. Nem maduras.

Dizendo isto, adiantou o pé esquerdo meio passo, flexionando ligeiramente o joelho, e baixou o machado com força. De um só golpe decepou o tronco da planta em diagonal, quase rente ao solo.

A ira abandonou o meu avô no mesmo instante do golpe desferido, como o ar aprisionado que escapa de um balão de borracha ao se romper. Imediatamente após o gesto insano ele caiu em si.

Não podia acreditar no que fizera. A seiva brotando do tronco decepado não era nada, comparada ao ácido híbrido de amargura e remorso que lhe corroia as entranhas retorcidas.

Meu avô, com o corpo todo mole, largou a arma do crime e quedou-se de joelhos junto à parreira que morria, enquanto o tio Arnoldo, incrédulo, ia embora cabisbaixo e sem dizer palavra.

No quintal da casa onde eu nasci e morei, herança do meu avô Guilherme, havia várias plantas frutíferas ainda do seu tempo. Lembro muito bem dos dois caquizeiros, cujos frutos eram o repasto dos sanhaços vindos da serra no outono, das laranjeiras, do pé de nêsperas, da uva-do-japão, das peras duras, do butiazeiro, do velho limoeiro. Mas nunca mais houve uma videira.

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