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Prosa
 
Mirian
Por: João Carlos Hey

Aproveitando que naquela noite não haveria as duas últimas aulas, arrastamos meia dúzia conosco para assistir ao premiado A Pequena Loja da Rua Principal, no cinema do Colégio Santa Maria.

O filme, produzido na Tchecoslováquia, ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro de 1966. Conta a história de um camponês designado pelos nazistas, durante a Segunda Guerra Mundial, para ser o supervisor ariano da pequena loja de botões de uma idosa viúva judia.

Nossos colegas de faculdade, mais afeitos ao padrão americano de cinema, foram deixando a sala ao longo da projeção. Acabamos só eu e ela, lado a lado, olhos pregados na tela.

Saímos e ainda gastamos um bocado de tempo comentando a produção, rica em jogos de câmera, muito mais arte do que tecnologia. Embarquei-a no seu ônibus e fui apanhar o meu.

Em casa, deitado, fiquei imaginando como seria nossa vida, se, por pura hipótese, resolvêssemos nos casar um dia ou, simplesmente, viver juntos.

Eu, social democrata. Ela, comunista. Nunca guerrilheira. Era mansa, pacífica. Dócil.

Ela, judia. Eu de ascendência alemã e cristão.

Aos domingos, eu na missa. Aos sábados, ela na sinagoga, no lado das mulheres, sem o marido do outro lado, o dos homens. As outras, o que diriam?

Nas sextas-feiras, após o por do sol, início do Shabat. Não me importaria. Afinal, nosso Deus único. Jesus Cristo, o pomo da discórdia. Para mim, mestre e salvador. Morreu na cruz para nos salvar. Os judeus O condenaram e mataram. Portanto, para ela, ativista e subversivo.

Ano novo sem leitão. Aliás, carne de porco nunca teríamos em casa. De vez em quando eu fugiria para comer escondido. Ela que não soubesse. Talvez não tocasse mais em mim. Poderia me julgar impuro, assim como os animais de unha fendida em duas partes e não ruminantes, e os ruminantes que não tenham unha fendida.

No ano novo judaico, em setembro, comeríamos cabeça de peixe, pão, mel e maçã com açúcar. À tardinha iríamos atirar migalhas de pão aos peixes, na quantidade equivalente aos nossos pecados.

Acho que à noite, na cama, não faríamos amor. Conversaríamos e passaríamos a limpo nossas convicções e credos. Não havendo sobre o que falar, leríamos. Na noite seguinte, comentaríamos o que cada um leu. Ela certamente iria preferir Sartre e Kafka. Depois esmiuçaria para mim O Processo. Ou, ainda, leria O Capital pela enésima vez.

Eu, literatura mais amena. Talvez Hemingway ou Dostoievski. Machado de Assis, muito. De vez em quando a releitura de trechos do Dom Quixote.

Vez ou outra recitaria para ela um poema do Vinícius, só para agradar ou dizer coisas que eu nunca conseguiria com as minhas próprias palavras.

"É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste..."

Cansados de conversar ou ler, adormeceríamos abraçados e sonharíamos com nossas diferenças. Ou viraríamos de lado e atravessaríamos o resto da noite bunda com bunda.

Nesse andamento, nossa alcova ainda não seria um ninho de amor, mas uma arena cultural. Contudo, em alguma outra noite, lembrar-nos-íamos do Gênesis, 1:28:

"Deus os abençoou: frutificai, disse Ele, e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a. Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra."

Então, deixaríamos o amor explodir dentro de nós. Uniríamos nossas almas e fundiríamos nossos corpos. Faríamos filhos. Um ariano e uma judia fazendo filhos.

O espírito de Hitler tremeria no espaço. Seus espasmos provocariam convulsões na terra. Mas, ao final, se renderia. Por um milhão de anos arderia no fogaréu do remorso. Imploraria perdão. E quem o perdoaria? Um ariano e uma judia fazendo filhos? Quem sabe, Deus. Deus o perdoaria?

O assassino insano de judeus, finalmente recuperando a razão, teria entendido que não há raças nem grupos étnicos ou lingüísticos, superiores e inferiores. A origem dos homens é uma só. A cor da pele e o formato dos olhos ou do crânio são meros detalhes. A etnia e o idioma nada mais que um jeito de viver e de se expressar.
Um ariano e uma judia podem fazer filhos. Basta o amor.

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