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Conto
 
O PÂNICO, O TOC E EU
Por: MÁRCIA DEBRASSI

Nos últimos tempos, quem já não ouviu falar da Síndrome do Pânico e TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo)?
Ter informações sobre essas e tantas outras doenças é tão simples, tão fácil; basta digitar no google e você se vê diante de um turbilhão de informações que podem garantir ao portador dessas enfermidades que ele não é louco, apenas está doente.
Quando aconteceu comigo, no ano de 1995, as informações não eram tão fáceis não, nem os médicos (pelo menos os da minha cidade) tinham conhecimento sobre tais problemas.
Eu tinha vinte anos, esperava meu primeiro filho, tudo estava tão normal e, como futura mamãe, eu já havia escolhido nome, enxoval, quem batizaria e essas coisas, tinha até decidido que teria parto normal.
Meu médico sempre dizia que, apesar da barriga enorme, o que seria grande mesmo era a placenta, que não havia com o que se preocupar, não precisávamos mais fazer nenhum ultrassom (só tinha feito um, com quatro meses para ver o sexo).
O dia do nascimento se aproximava, a ansiedade era total, havia um misto de medo e felicidade diante de todo o desconhecido. O tempo foi passando e nada de bebê aparecer, nada de dores, nada de nada; eu estava perdendo peso e tendo sangramento. Meus pais estavam nervosos, preocupados, tanto que meu pai nem descia do carro quando eles vinham me visitar.
Lembro-me daquele dia, no almoço, que delícia!!! Tutu de feijão, mandioca cozida, couve refogada, torresmo... Nossa como comi, apesar do clima tenso entre meus pais e meu marido. Logo depois do almoço meu marido foi falar com meu médico, dizer que meus pais estavam enchendo o saco por causa da demora no nascimento do bebê e o médico respondeu: “- Traga ela aqui as 17:30 que faremos a cesárea”
Lá foi eu, a marinheira de primeira viagem para o centro cirúrgico no horário marcado. Foi uma cesárea muito tensa, eu vomitando toda a comilança do almoço, o bebê que não saia, afinal, ao contrário da previsão do médico, ele era enorme (nasceu com 4 kg). Alguém filmava minha cesárea e lembro-me de que no momento em que retiraram o bebê o Doutor disse: “Não filme isso!!” Até hoje não sei o que seria o “isso”.
Voltei para casa depois do internamento e tudo parecia normal, mas, com o passar dos dias (por conta de diversas situações que posso vir a escrever futuramente) as coisas foram mudando. Quando completei quarenta e um dias de cirurgia eu estava voltando de viagem, no banco de trás de uma Brasília, o motor batendo e urrando nos meus ouvidos, comecei a me sentir mal e pensar que precisava chegar logo em casa para tomar um remédio porque podia estar com a garganta inflamada... Estávamos quase chegando ao destino quando me veio um grande mal estar, comecei a gritar que ia morrer e que me levassem rápido para um hospital.
Quando o médico me atendeu, minha pressão estava 16/10 e foi a partir desse dia que as coisas na minha vida mudaram completamente...
Comecei a vagar de consultório para consultório, de médico para médico, ninguém sabia o que eu tinha, me davam antidepressivos diversos, dos mais modernos aos mais antigos e eles me faziam mal, os médicos retiravam e começavam com outra medicação. Eu, passei a não viver mais, tinha medo de tudo, medo de comer, medo de sair de casa, medo de ficar sozinha, medo que meu filho tivesse uma doença grave, etc.
Quando meu filho tinha três meses de vida, eu estava na casa da avó do meu esposo, sentada em uma escada com o bebê no colo; ao acariciar sua cabeça, senti sua moleira e, do nada, me veio um frio na espinha e a imagem de que eu ia bater com o dedo em cima da moleira dele até afundar (que sofrimento!). Esses pensamentos de que eu ia ferir e matar meu filho começaram a aparecer com muita frequência, eu sofria muito com isso, pois “eu” sabia que o amava muito e não entendia o porquê de pensar daquela forma.
Ficar sozinha em casa com meu bebê era simplesmente uma tortura, qualquer coisa pontiaguda que eu via, era motivo para eu acreditar que ia perder os sentidos e ferir meu amado filho. Meu marido era professor e trabalhava a noite, e eu, para não pensar em machucar meu filho o levava para o lugar mais seguro para nós: a beira da rua; eu ficava lá, abraçada ao meu bebê esperando que o pai dele chegasse.
Foi o tempo mais difícil da minha vida, pois não contava para ninguém sobre esses pensamentos para não ser julgada, ou para não tirarem meu bebê de mim, afinal eu sabia, eu tinha certeza de que eu o amava muito e que, apesar de pensar em tragédias diariamente, jamais iria machucar meu bebê.
Foram diversas as situações onde esses pensamentos se fizeram presentes, ora com facas, ora em prédios altos, uma tortura (ao invés de um conto, daria sem dúvidas um livro). Já faziam nove meses que eu estava passando por essa situação, já acreditava estar possuída por espírito ruim, não ser merecedora da vida, etc. etc.
Uma vez, meu marido parou comigo em uma farmácia para comprar mais um desses antidepressivos da moda (eu já tinha uma caixa de sapato grande cheia deles) o sintoma que todos conheciam era o medo absurdo de tudo, as oscilações na pressão, só os pensamentos mesmo que eu guardava a sete chaves comigo. O dono da farmácia chamava-se Vicente, era amigo do meu pai, e falou para meu marido que sabia de uma médica psiquiatra na cidade de Londrina que daria jeito em mim; ignoramos o que ele disse, é lógico, e fomos embora.
Passei a pedir a Deus que tivesse misericórdia de mim, direto eu pedia por um milagre, não suportava mais tal situação, evitando cozinhas, evitando prédios, evitando tudo que expusesse meu filho a um perigo que eu fantasiei.
Num lindo dia de domingo (talvez o mais importante da minha vida) fui para a casa dos meus pais, eu já estava passada diante de tanto sofrimento e pedi à minha mãe para que fossemos dar uma volta de carro, pois Deus haveria de me mostrar a solução para minhas dificuldades, ela topou e fomos. Quando estávamos em um cruzamento, diante do nosso carro atravessando a faixa de pedestres estava o Vicente (farmacêutico que eu havia ignorado). Eu gritei “Pare o carro mãe, é isso. precisamos falar com o Vicente, é aquela médica que Deus quer em minha vida!!!”
Deus teve misericórdia de mim, peguei o telefone da tal médica, meu marido implorou por uma vaga urgente, conseguimos para depois de um mês. Lá ela me falou da Síndrome do Pânico e do TOC, que era o problema que eu tinha com relação ao meu filho, pois, só para ela contei tudo o que se passava comigo.
Ela me medicou, me devolveu a alegria, eu nunca mais tive pensamentos ruins, e passei a ser a-p-a-i-x-o-n-a-d-a pela vida.
Hoje meu filho já está com dezesseis anos para dezessete anos, tenho outra filha de quatorze, e o que guardo daquele tempo??? A experiência que tive e que levo adiante sempre, pois não fui e nem serei a única a passar por isso. Dedico um pouco do meu tempo ajudando pessoas que passam por esta mesma situação pela qual passei (meu msn é cheio deles), apesar das faculdades para exercer o magistério, optei por trabalhar em uma clínica de psiquiatria (é maravilhoso poder dizer aos pacientes que todo seu sofrimento irá passar) . Digo a todos eles que, acreditem no seu médico, tenham disciplina quanto ao uso dos medicamentos e acreditem principalmente em Deus, pois foi ele quem me mostrou o caminho até aquele anjo que restaurou minha vida.

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