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Ivani de Araujo Medina
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Cartas de Adriano
Por: Ivani de Araujo Medina

Trecho da carta do imperador Adriano (117-138) a seu cunhado o cônsul Serviano.

“Queridíssimo Serviano, o Egito que tanto elogiavas parece-me ser leviano, vacilante e borboleteador entre os rumores de cada momento. Os que adoram a Serápis são cristãos. E os que dão o título de bispos de Cristo são devotos de Serápis. Não há chefe da sinagoga dos judeus, nem samaritano, nem presbítero cristão, que não seja também numerólogo, adivinho e saltimbanco. São gente altamente sediciosa, vã e injuriosa, e sua cidade é rica, opulenta, fecunda. Nela ninguém está ocioso. Uns sopram vidro, e outro fabricam papel, e todos parecem ser tecedores de linho ou têm algum ofício. Têm trabalho os reumáticos, os mutilados, os cegos e até os inválidos. O único deus de todos eles é o dinheiro, a quem adoram os cristãos, os judeus e toda classe de pessoas” (GONZALEZ, 2003, p.117).

Serápis foi um deus criado por encomenda de Ptolomeu I Soter (Salvador), para unir gregos e egípcios. Do lado grego, reunia atributos de Zeus, Helio, Dionísio, Hades e Asclepio. Aproximava-se de Dionísio e das religiões de mistérios, sincretismo evidente no cristianismo do Novo Testamento, muito comentado na metade do século XX por estudioso e teólogos liberais. Do lado egípcio, identificava-se com as divindades Osíris, associada à vegetação e a vida no além, e Ápis, antiga divindade agrária representada por um touro negro.
O título Cristo era a forma grega para apalavra egípcia “karast” que significa ungir o defunto com óleo perfumado, em preparação para o funeral. Essa unção era utilizada no culto de Osíris, que visava manter o corpo conservado para a outra vida. Os gregos incorporaram essa prática ao culto sincrético de Serápis. Após sua morte, Serápis tornou-se o ungido ou Karast, deus dos mortos e do submundo. Por isso os adoradores desse deus eram chamados de cristãos. O cristianismo do NT seria a forma derradeira desse cristianismo mais antigo de origem pagã.

Em defesa dos cristãos, alegadamente os do NT, Justino (100-165), que teria se convertido em 132, comenta em sua alegada petição final ao imperador Antonino Pio (138-161), a respeito de uma carta do seu antecessor, enviada a tal Mimício Fundano, na qual exigia atitudes mais justas para com o julgamento dos cristãos.

“[...] Poderíamos também exigir que mandeis [Antonino] celebrar os julgamentos dos cristãos conforme nossa petição, apoiando-nos na carta do máximo e gloriosíssimo César Adriano, vosso pai. Todavia, não vos fizemos nossa súplica, nem dirigimos nossa exposição, porque Adriano o julgasse assim, mas porque estamos persuadidos da justiça de nossas petições. Contudo, anexamos para vós uma cópia da carta de Adriano, para que vejais, segundo o seu teor, que dizemos a verdade. A cópia é a seguinte:

“A Mimício Fundano.

Recebi uma carta que me foi escrita por Serênio Graniano, homem distinto, a quem sucedeste. Não me parece que o assunto deva ficar sem esclarecimento, a fim de que os homens não se perturbem, nem se facilitem as malfeitorias dos delatores. Dessa forma, se os provincianos são capazes de sustentar abertamente a sua demanda contra os cristãos, de modo que respondam a ela diante do tribunal, deverão ater-se a esse procedimento e não a meras petições e gritarias. Com efeito, é muito mais conveniente que, se alguém pretende fazer uma acusação, examines tu o assunto. Em conclusão, se alguém acusa os cristãos e demonstra que realizam alguma coisa contra as leis, determina a pena, conforme a gravidade do delito. Mas, por Hércules, se a acusação é caluniosa, castiga-o com maior severidade e cuida para que não fique impune.” (I Apologia, 68)

Adriano deixou o poder por falecimento em 138. Serviano foi cônsul no Egito em 135. Estima-se que a I Apologia de Justino tenha sido escrita em 155. Portanto, dezessete anos após Adriano. Estão evidentes que os cristãos das duas cartas atribuídas a Adriano não são os mesmos ou a carta referida por Justino é falsa. Isto não causa alarme, pois faz parte da tradição cristã forjar documentos. O historiador Edward Gibbon já dizia que Justino tinha o hábito de confundir a realidade com seus desejos.

Aliás, Justino foi um dos iniciadores desse cristianismo mais recente e contra os judeus, e disse ter recebido de um ancião, por sinal muitíssimo bem informado e com excelente memória, informações detalhadas o bastante para ter-se convertido e também reconstruído a verdadeira “história” do “verdadeiro cristianismo”, ocorrida na primeira metade do século anterior, antes de Jerusalém ter sido destruída e o templo incendiado junto com todas as provas que poderiam confirmar a versão grega que se passa por judia.

Os cristãos do século III, devotos de Serápis, certamente, deviam ser bem conhecidos nas cidades mediterrâneas, o que deve ter facilitado muito a propagação do cristianismo de Justino e outros com a utilização do mesmo nome. Depois das ações do bispo Teófilo de Alexandria (385-412), em 391, quando incendiou o templo de Serpapis e sua biblioteca, com os devotos no interior, e da continuidade do serviço da queima de documentos da biblioteca principal de Alexandria pelo Califa Omar, em 640, não é nenhum assombro que a história sobre os cristãos de Serápis tenha desaparecido quase que completamente diante da força da propaganda, inclusive.

O progresso do cristianismo do NT e do islamismo, filho deste, sepultou aquela lembrança antiga e esclarecedora que comprometia a versão do vencedor – o grego. Nem do lado deles foi tudo sereno. O imperador Teodósio I enfrentou e debelou uma revolta armada de gregos insatisfeitos. Aceitou o exílio voluntário de um grupo de filósofos que preferiram ir para a Pérsia à severa vigilância a qual foram submetidos.

Toda referência cristã antiga é creditada ao cristianismo mais recente, que aos poucos foi substituindo o anterior, sem Jesus e judaísmo. Assim, continuam empurrando essa mentira “histórica” com o “Jesus histórico” que nunca existiu, porque para eles o povo só pode entender assim, e, assim, eles continuam a se servir do povo. Nossas leis e costumes são de base cristã. Há quem diga que fé não se discute. E eu não discuto aqui. Mas história é, foi e sempre será uma eterna discussão. Para o bem estar de todos, a fé devia ficar fora dela.

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