A casa dos grandes pensadores

Bem-vindo ao site dos pensadores!!!

| Principal |  Autores | Construtor |Textos | Fale conosco CadastroBusca no site |Termos de uso | Ajuda |
 
 
 
Artigo
 
Desculpa mamãe!
Por: Milena Aragão

Cena:
Uma mãe no balcão da farmácia comprando dois antibióticos, ao lado está sua filha, apoiada no balcão. Olha para os remédios, pensa, conversa com a atendente sobre descontos... Não consegue... Respira fundo e diz: “essa menina só me dá despesa, ói, R$100,00 que custa isso!”. Olho para ela e nada falo. A atendente ri. Ela continua: “Me ligaram da escola e disseram que ela estava ardendo em febre, 38 graus, e aí tive que buscar, tsc, tsc”, faz movimento de não. A filha, de aproximadamente nove anos de idade, escutando tudo aquilo diz: “desculpa mamãe!”, abaixa os olhinhos e se recolhe à febre... Ou à sua insignificância.
Doeu meu coração, senti como uma facada... Por um momento tive vontade de pegar aquela menina no colo - tão frágil - e acalentá-la. Tive vontade de abraçá-la e dizer: “você não tem culpa por estar se sentindo assim!” Tive vontade de pegar a mãe, sentar com ela e ajudá-la a desenvolver um olhar mais empático para com aquela criança, para a filha dela. Justamente o que fiz com as atendentes que acabaram por reforçar a fala da mãe e dizer: “Viu, não pode ficar assim”.
A criança está doente do corpo e está ficando ( se já não está), doente da alma. Veja que loucura! Ela está doente e sentindo-se profundamente culpada, como se estivesse com febre por gosto, por pirraça, propositalmente. Está sendo castigada - através de palavras - por estar doente!
Talvez seja necessário comunicar a alguns pais que ter filho significa ter despesa sim! Crianças adoecem! Crianças precisam de roupas, de comida, de material escolar, de remédios! Ter filho não é como brincar de boneca, em quem projetamos nossas frustrações de vida! É um ser humano, que sofre, que se ofende, que se sente culpado!
Já observaram uma criança brincando de boneca? Eu já observei muitas! Quando brincam de casinha e assumem o papel de mãe, em um momento – fatalmente - elas baterão na boneca porque ela não quis comer a comidinha ou desrespeitou alguma regra imaginária. O que significa isso? Ela está elaborando, projetando seus sentimentos no brinquedo. Quer saber como sua filha ou filho a (o) vê? Brinque de boneca com ela/ele. Quer saber como é a professora? Brinque de escolinha. Nessas ações vemos como elas são tratadas e de que forma elas reproduzem, elaboram e projetam comportamentos, sentimentos e vivências.
Quando vejo uma mãe ou pai relacionando-se com seus filhos, vejo muitos momentos como esses. Adultos que projetam suas tensões do trabalho, da falta de dinheiro ou de algum plano frustrado, nos filhos, de modo que qualquer coisa é motivo para gritos e tapas.
Relação desleal, injusta, assim como foi a fala da mãe por culpar a menina sobre os gastos não planejados.
“Tive que buscar na escola, ardendo em febre, olha só o que me apronta!”. Comentar essa frase é chover no molhado, não precisa, ela fala por si!
Bom, pensemos na hipótese da mãe estar brava por ela tê-la desobedecido e pego friagem, brincado na chuva... Enfim, caso tenha acontecido isso, reafirmo: é criança! Além disso, ela já está sofrendo as consequências dos próprios atos. “Ah! Mas atrapalhou a minha vida”. Pois bem, você escolheu ter filho!! Eles vão nos tirar da rotina, eles vão mexer com a nossa zona de conforto e você pode até ficar com raiva, mas não descontar na criança! Caso precise apontar o erro, não aponte de modo que pareça que a pessoa matou alguém! Uma simples frase como: “filha, lembra-se que eu disse para você não ficar na chuva? Então, você desobedeceu e ficou doente, agora você está sofrendo. Você está assumindo as consequências dos seus atos” e explique o que significa “sofrer consequências”. Eu, particularmente, se estivesse perto, não deixaria que ela brincasse na chuva, se a possibilidade de ficar doente fosse iminente. “Ah, mas dá trabalho educar!!” ‘Dá mesmo!
Tem aqueles que apenas mandam na criança: faça isso, faça aquilo, sente, levante, saia daí, venha para cá! Chega no final tu não sabe se falou com o cachorro ou com o filho. Sinto informar que nossos filhos não vêm ao mundo para nos servir...
No convívio, eu escuto meu filho? Eu sei o que eles sentem na escola? Ou me limito a cobrar nota? Eu sei se a criança/jovem gosta da escola? Ou me limito a cobrar o dever de casa? Consigo perceber se ele/ela está numa escola que tenha a ver com a personalidade dele(a)? Ou coloco na escola só porque é a que mais aprova?
Enfim, tudo isso é para chamar a atenção para a existência da criança como ser humano. Escuto crianças me dizendo: “to com dor” eu pergunto aonde e ela diz “no coração”. Sim, elas sentem dor no coração, sentem culpa, tristeza, inadequação, sentimento de menos valia... Não é privilégio do adulto sentir o coração doer. E quando estamos assim, como é bom encontrar alguém que nos escute! Que valorize nosso sentir...
A menina doente, com febre, precisava lidar com a dor física e a dor emocional: “desculpa mamãe”... Não precisa se desculpar linda menina! Sua mãe é que precisava pedir desculpas por não conseguir ver sua humanidade. "Ora os pais também são humanos e erram". Sim, são, mas quem é o adulto da relação? Quem tem mais maturidade e discernimento para avaliar e mudar de comportamento? Hum...mas será que queremos? Pois bem, talvez um dia essa mãe consiga ver o ser humano que existe na criança... Enquanto isso, faço votos que consiga encontrar forças internas ou pessoas mais sábias que te entenda, te ouça e te abrace quando sua dor estiver manifesta e que saiba reconhecer quando estiver latente. Sinta-se abraçada garotinha, mesmo que mentalmente.

 Comente este texto
 Paralerepensar


Comentário (1)

Deixe um comentário

Seu nome (obrigatório) (mínimo 3, máximo 255 caracteres) (checked.gif Lembrar)
Seu email (obrigatório) ( não será publicado)
Seu comentário (obrigatório) (mínimo 3, máximo 5000 caracteres)
 
Insira abaixo as letras que aparecem ao lado: YXgA (obrigatório e sensível. Utilize letras maiúsculas e minúsculas;)
 
Não envie mensagem ofensiva e procure manter um intercâmbio saudável com o seu correspondente, que com certeza busca dar o melhor de si naquilo que faz.
Seu IP será enviado junto com a mensagem.