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Ivani de Araujo Medina
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O Cristo de verdade e o Jesus de invenção
Por: Ivani de Araujo Medina

O Cristo de verdade e o Jesus de invenção

A transcrição de parte do assunto em questão é o que pode dar credibilidade às nossas afirmações. Do contrário, é dizer nada. Dizia-se “existem muitos documentos em Israel e espalhados em museus pelo mundo inteiro que comprovam a existência de Jesus. Está cientificamente provado.” Tais documentos nunca foram especificados e quanto mais exibidos. No entanto, eu vou ainda mais longe ao negar a existência do cristianismo no primiero século, na Palestina, como afirma o Novo Testamento - um processo de elaboração literária que ocorreu ao longo de 200 anos, de cerca de 160 a 360 (PAGELS, 2004. p. 46). Até hoje nem uma linhazinha ou achado arquelógico confiável foi encontrado a confirmar tal existência garantida pelo referido livro.

A história da origem do cristianismo no mundo real em nada se parece com aquela narrada pelo Novo Testamento. Nesta, os conselhos de amor ao próximo e mesmo ao inimigo, de oferecer a outra face, etc. não se aplicam. Muito pelo contrário. Até a pena de morte havia sido declarada como forma de intimidação. “[...] Aquele que se recusa a obedecer e a “dobrar-se’ diante dos líderes da igreja é culpado de insubordinação contra o próprio mestre divino. [...] recebe a pena de morte” (PAGELS, 1995, p. 63 e 64) E isto no século II. Como explicar que no meio de uma fé pura de pensamentos e ações, ainda em formação, pedesse existir disputas insultuosas e morte como castigo? Ora, faziam entre si exatamente o oposto daquilo que pregavam.

“Tal autoridade política e religiosa foi se desenvolvendo de uma maneira totalmente extraordinária. Como vimos, diversas formas de cristianismo floresceram nos primeiros anos desse movimento. Centenas de mestres, concorrendo entre si, afirmavam ensinar “a verdadeira doutrina de Cristo”, denunciando uns aos outros como charlatães. E os cristãos pertencentes as igreja que se espalhavam da Ásia Menor à Grécia, Jerusalém e Roma, dividiram-se em facções, debatendo a liderança das igrejas. Todos diziam representar “a tradição autêncica”(PAGELS, 1995, p. 38).

Pelo que foi recuperado nos últimos séculos, o cristianismo como conhecemos parece mais uma heresia (outro caminho) do gnosticismo cristão do que o contrário. A desculpa de documentos originais perdidos não convence. Enquanto do alegado cristianismo apostólico do primeiro século nada se encontrou até hoje, do gnosticismo cristão já se possui uma documentação de época respeitável. Os principais estudiosos do gnosticismo cristão na atualidade, Marvin Mayer, Universidade Chapman, Califórnia (EUA); Barth Ehrman, Universidade da Carolina do Norte, (EUA); Elaine Pagels, Universidade de Princeton, (EUA) defendem a ideia de que nos primórdios o cristianismo era uma mistura de diferentes concepções de mundo e de Deus e não o bloco monolítico que se tornaria mais tarde. Isto enterra a ideia de um cristianismo apostólico como hoje se imagina ou ainda se faz imaginar. Para Barth Ehrman e Elaine Pagels, os conceitos de heresia e ortodoxia foram definidos pelos vencedores numa disputa mais política do que religiosa.

“Os cristãos gnósticos inegavelmente expressavam ideias que os ortodoxos abominavam. Por exemplo, alguns desses textos gnósticos questionam se todo sofrimento, dor, toda labuta e a morte provêm do pecado humano – que, na versão ortodoxa, teria maculado uma criação perfeita. Outros falam do elemento feminino da divindade, celebrando Deus como Pai e Mãe. Ainda outros sugerem que a ressurreição de Cristo deve ser entendida simbolicamente, não literalmente. Alguns textos radicais chegam mesmo a denunciar os próprios cristãos católicos como hereges – que “embora não entendam o mistério, afirmam que o mistério da verdade pertence somente a eles.” Ideias gnósticas como essas fascinaram o psicalista C.G. Jung, para quem elas exprimiam “o outro lado da mente” – os pensamentos espontâneos e inconscientes que quqlquer ortodoxia precisa exigir que seus adeptos reprimam.” (PAGELS, 1995, p. 32)

Como não há modo de se compatibilizar o gnosticismo com o livro da ortodoxia vencedora (Novo Testamento) alega-se que o gnosticismo cristão nunca foi cristão. A simples admissão do gnosticismo cristão, de fato, desmonta a versão do alegado cristianismo palestino. A possibilidade de uma mudança de orientação por causa de uma mudança de interesse, em função de uma alteração pouco esclarecida no quadro político da época, não é levada em conta, embora o embate político seja inegável. O plano religioso e filosófico continua mais prestigiado em detrimento do históricamente mundano. É claro que o racha interno entre os cristãos primitivos responde a uma dificuldade externa. Qual seria ela? A contenção do judaísmo, com certeza. Nesta, a ortodoxia se mostrava mais eficiente do que o gnosticismo.

Nunca é demais lembrar que esse drama se dá no universo grego, não no judeu (para o judaísmo o cristianismo é de origem pagã). No século II, o templo de Jerusalém há muito havia sido destruído e os judeus não mandavam mais lá. Um dos aspectos que também desfavorecia o gnosticismo cristão, além de negar o deus de Israel, era a sua teologia complicada demais. Evidencia da sua origem intelectual elevada e distantante das massas, contrariando a “origem eleita” pela ortodoxia. Portanto, imprestável também, por isso, como uma religião popular com pretensões universais, ainda que o gnosticismo tivesse igualmente pretensão universal, mas não popularesca.

A vitória esmagadora da ortodoxia deixou pistas de uma luta política que nunca chegou ao fim no seio do cristianismo e da qual nada se fala de forma inteligível. A criação ortodoxa da figura de Jesus de Nazaré acabou ultrapassando a ideia do antigo Cristo. Justino, por exemplo, exorta o amor ao Cristo, fala do filho de Deus, Jesus Cristo, mas em momento algum se refere ao posteriormente concebido Jesus de Nazaré e tampouco a evangelhos, em sua I Apologia. Justino teria falecido em 165.

“O credo [ortodoxo] exige, por exemplo, que os cristãos confessem que Deus é perfeitamente bom e que, no entanto, criou um mundo que inclui dor, injustiça e morte; que Jesus de Nazaré nasceu de mãe virgem; e que, após ser executado por ordem de do procurador romano Pôncio Pilatos, ele ressuscitou “no terceiro dia” (PAGELS, 1995, p. 32)

A percepção da diferença entre essas duas versões do cristianismo primitivo explica o motivo de conflitos, preconceitos e perseguições no correr da história ocidental e parte da oriental. É a história que insistem não contar, pouco importando as consequencias. E a ocultação continua... Ninguém precisa sonhar com a revelação de documentos escondidos, pois a verdade está exposta também nos mesmos livros que nos enganam desde sempre. Basta saber o que se procura.

“Por trás dele [Paulo] parece haver um tipo altamente gnóstico de cristianismo, no qual o mito superou em muito a história. É verdade que Paulo se opôs a alguns grupos na comunidade de Corinto que eram ainda mais gnósticos que ele, que se tinham de fato preparado para vituperar o Jesus físico a fim de chegar com mais segurança à natureza espiritual de Cristo. Mas o argumento se baseava numa rede de ideias comuns a ambos os lados, ou pelo menos, compartilhavam de um meio de comunicação de acordo”. (WELBURN, 1991, p.240)
A declaração de Welburn utilizando o verbo “vituparar” (dirigir vitupérios; manifestar desaprovação ou censura a; repreender) a ideia de um Jesus físico a fim de chegar com mais segurança a natureza de Cristo, soma-se a apreciação que Tom Harpur faz da ortodoxia cristã: “A grande verdade de que Cristo viria dentro do ser humano, de que o princípio de Cristo existia potencialmente em cada um de nós, foi mudado para o ensinamento exclusivista de que o Cristo veio como homem. Ninguém poderia equiparar-se a ele, nem mesmo aproximar-se dele. [...]” (HARPUR, 2008, e.e.) O mesmo teor de conteúdo encontramos ilustrado por Elaine Pagels: Quem alcança a gnose torna-se “não mais um cristão, mas um Cristo”. (PAGELS, 1995, p. 155).

A inexistência de Jesus de Nazaré (o Jesus histórico) é um fato tão inegável quanto a existência antiga do Cristo interior (o mítico) que antecede essa lenda.

“O mito é um meio de expressar a estrutura essencial ou o significado oculto de toda história. Analisando os mitos gregos mais conhecidos, por exemplo, você verá que cada um carrega em si uma verdade profunda da condição humana que continua eterna muito embora o acontecimento nunca tenha se realizado.” (HARPUR)

A crença quase universal de um destino glorioso além da sepultura é fundamentada de vez e para sempre em algo mais sólido do que uma fé meramente piedosa e baseada na emoção. A crença no Cristo interior é estabelecida como o fundamento para a transformção pessoal e comunal. A nossa jornada se inicia. (HARPUR)

[...] a ideia do Cristo interior – o ser humano plenamente realizado espiritualmente – atualmente é para mim um arquétipo inconfundível, no estilo junguiano, da nossa psique humana. [...] “(HARPUR)

Tom Harpur – Ex-pastor canadense, teólogo e professor do Novo Testamento na Universidade de Toronto (Canadá), professor do idioma grego e jornalista.

Elaine Pagels – professora de religião na Universidade de Princeton, PhD pela Universidade de Harvard. O seu primeiro livro Os Evangelhos Gnósticos, a partir da sua participação nos estudos dos textos de Nag Hammadi, tornou-se um best-seller e ganhou os premios National Book Critics Circle Award e National Book Award.

Andrew Welburn - Professor da Universidade de Londres e membro do New College, Oxford. Dedicado ao estudo do cristianismo primitivo e autor de diversos livros sobre o assunto.

Referências

HARPUR, Tom – O Cristo dos Pagãos: a sabedoria antiga e o significado espiritual da bíblia e da história de Jesus, tradução Henrique Amat Rêgo Monteiro. São Paulo, Pensamento 2008. (Edição Eletrônica).
http://books.google.com.br/books?id=kNSDQaD6rNoC&printsec=frontcover&hl=pt-PT#v=onepage&q&f=false

PAGELS, Elaine. Os Evangelhos gnósticos. São Paulo: Cultrix, 1995.
PAGELS, Elaine. Além de toda crença: o Evangelho desconhecido de Tomé. Rio de Janeiro: Objetiva, 2004.
WELBURN, Andrew. As origens do cristianismo. São Paulo: Best Seller, 1991.

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