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Carlos Alberto de Melo Silva
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VIAGEM INESPERADAMENTE ROMÂNTICA
Por: Carlos Alberto de Melo Silva


A respiração ofegante dos dois, a penumbra do ambiente, os beijos
cada vez mais longos davam a sensação de que estavam um dentro
do outro e assim chegaram ao clímax.


Dezembro de 2007. Ele chamava-se Marcos, encontrou-a no centro do Recife, perto do local onde fazia um treinamento; ela, muito elegante, ele balançou a cabeça respeitosamente, ela, abriu o mais largo dos sorrisos, sempre o tivera, dirigiu-se a Marcos.
- Depois de tantos anos você continua o mesmo tímido e humilde de sempre.
Ele começou a sorrir e em dez minutos atualizaram as histórias de vida. Marcos finalizou dizendo que estava escrevendo pequenos contos, como remédio para depressão.
- Um bom remédio é lembrar as coisas boas, como aquela nossa pequena aventura.
Ele perguntou se poderia escrever sobre o caso.
-... Claro. Desde que você prometa jamais revelar meu nome.
Promessa feita e cumprida. Quando iam se afastando, ela voltou-se para ele sorrindo.
Casei virgem.
Ele murmurou olhando-a nos olhos.
- Realmente, você é uma mulher sensacional. E se afastaram.
Marcos escreveu lembrando o ano de 1984. Estava a trabalho, em São Paulo, fazia alguns meses, ia em casa, no Recife, apenas a cada trinta dias, ou para se submeter a provas na Faculdade. A esposa não aceitava que precisasse trabalhar em outro estado para ascender funcionalmente e poder desfrutar mais tarde junto à família, queria que Marcos deixasse o trabalho e voltasse para o Recife, em definitivo. Nas últimas três vezes que fora em casa, as brigas e demonstrações de ciúmes da esposa eram constantes e sempre arruinavam o fim de semana do casal. Por conta disso, na maioria das vezes, sequer o levava ao aeroporto.
Marcos, sempre gostou de música popular brasileira. Naquele fim de semana estava se apresentando no Canecão, Rio de Janeiro, Maria Bethânia, um show imperdível, denominado, A Hora da Estrela. Na semana anterior quando estivera em casa, mais uma vez houvera saído de lá brigado, tentou falar com a esposa umas duas vezes, durante a semana, mas sempre que o atendia, ficava em silêncio e colocava os filhos para falar. Mesmo assim pediu a um colega de trabalho do Rio, Nivaldo, para comprar dois ingressos para o show.
Durante toda aquela semana, Marcos, perguntou aos colegas em São Paulo, se alguém gostaria de ir ao Rio ver o show da Bethânia. Todos estariam ocupados ou não gostavam de MPB. Na sexta feira, comprando a passagem, lembrou uma colega de trabalho do Recife, que gostava muito de Bethânia, cujo noivo, também, era fã da cantora baiana. Como não possuía muito contato com ele, resolveu ligar para ela e perguntar se queriam que pedisse um autógrafo para os dois. Na realidade buscava algum motivo para chegar perto de Bethânia, dizendo querer um autógrafo para uns fãs de Recife: nos anos 80, o Recife era considerado um local, bem mais distante do Rio de Janeiro que neste ano de 2008. Ligou então para a colega, quando estava na empresa de turismo comprando a passagem.
- Meu noivado terminou há uns vinte dias. Ainda estou muito sentida. Mas... Claro! Gostaria de receber um disco autografado. Ficaria feliz. Bem... Ficaria mais feliz, se tivesse dinheiro e houvesse tempo, de ir ao show. Inclusive, você não estaria triste porque vai sozinho, nós iríamos juntos.
Marcos deixou a timidez de lado, perguntou se realmente ela gostaria de ir.
- Com certeza. Não estou lhe dizendo!
Quatorze horas da sexta-feira. Ela havia trabalhado pela manhã. Marcos disse que fosse para o aeroporto e procurasse no balcão da Vasp a passagem. Havia um vôo Recife/Rio por volta das 15h30m, ele se encontraria com ela no aeroporto do Rio. Só havia o Galeão e o vôo São Paulo/Rio sairia às 17 horas. Ela ficou meio incrédula.
- Então... Vamos! Ligarei para casa dizendo aos meus pais que irei passar o fim de semana na casa de praia de uma amiga, conhecida deles. Minha amiga irá direto do trabalho, por isso não dará tempo de passar em casa.
A mãe confirmou com a colega, a qual realmente iria para casa de praia, em Itamaracá, onde não havia telefone e também, na época, não existia celular.
Viajaram e encontraram-se no saguão do Aeroporto Internacional do Galeão. Foram à Mesbla que ficava perto, onde compraram algumas roupas e sapato para ela. Naquela época, mulher não pagava nada, mas resolveram dividir tudo: eram colegas de trabalho. Ela não conhecia o Rio de janeiro. Depois foram para um hotel onde pediram um quarto de casal, com duas camas. Trocaram de roupa e foram à casa do colega de Marcos pegar as entradas para o show, Nivaldo fora passar o fim de semana em Petrópolis e deixara as entradas para o Canecão, num envelope na portaria do edifício: os dois não precisaram dar explicações.
Passearam na tranqüilidade da noite que o Rio oferecia naquele ano de 1984. Jantaram, assistiram a um show musical numa boate e voltaram para o hotel. Ela chorou as mágoas, porque o noivo havia terminado, sem grandes motivos, Marcos abraçou-a, consolando-a, mas não sentiu receptividade. Apenas deu um pequeno cheiro na cabeça e disse:
- Vá dormir, amanhã passearemos muito e, quem sabe, você esquece suas mágoas.
No dia seguinte, sábado, Marcos conhecia um pouco o Rio, alugou um carro, por dois dias, e foi mostrar a Cidade Maravilhosa à amiga. Foram ao Cristo Redentor, ao Jardim Botânico, Pão de Açúcar, Quinta da Boa Vista, Palácio do Catete, passearam de bondinho sobre os Arcos da Lapa, indo até o bairro de Santa Tereza, onde almoçaram e, no final da tarde, visitaram a Igreja da Candelária. Durante todo o dia conversaram sobre muitos assuntos, inclusive famílias; sem notarem, andavam de mãos dadas e em alguns momentos abraçados. Depois da Igreja, andaram pelo centro do Rio, onde usaram o metrô, que existia há cinco anos e no Recife só começaria a operar no ano seguinte. Era noite, quando lembraram o horário do show e foram rápidos para o hotel, tomaram banho, trocaram de roupa e dirigiram-se ao Canecão.
O show era baseado na obra da escritora Clarice Lispector, totalmente diferente de outros shows da época. Com uma forma teatral, onde Betânia interpretava textos e explodia maravilhosamente nas músicas de Chico e Caetano, compostas especialmente para aquele espetáculo.
Depois do show, Marcos convidou a companheira para terminarem a noite num barzinho, no Leblon, que tocava música de bossa nova, tipo Tom Jobim, e onde se podia dançar. Ouviram um pouco de música, tomaram uma dose de uísque e foram dançar. Marcos e a parceira não eram exímios dançarinos, mas a música lenta e a bebida os envolveram em clima sensual, os corpos a principio afastados se juntaram suavemente, os toques dos dedos nas costas meio desnudas da amiga, aos poucos se tornavam carícias sensuais permitidas. Os rostos se tocando, em movimentos sincronizados pela música lenta, as coxas tocavam uma nas outras e de tão juntas quase não sentiam os tecidos da calça e do vestido que separavam as peles excitadas. Começaram os beijos na nuca, depois pequenas mordidas nas orelhas, os corpos suavam levemente e Marcos percebeu que a amiga estava sem sutiã e sensualmente excitada. Passaram a se movimentar mais vagarosamente e com o tórax, em movimentos suaves, ele acariciava os seios dela. Instintivamente ela virou o rosto e puderam juntar os lábios, no início levemente e depois num beijo que não haviam imaginado, fazendo-os esquecer quem eram. A respiração ofegante dos dois, a penumbra do ambiente, os beijos cada vez mais longos davam a sensação de que estavam um dentro do outro e assim chegaram ao clímax. Dançaram ainda mais uma música, Marcos pagou a conta e foram para o hotel, fizeram todo caminho em silêncio e em alguns momentos, juntavam as mãos e se beijavam rapidamente no trânsito livre da madrugada carioca de 1984.
Ao entrarem no quarto do hotel, ela pegou suavemente as mãos de Marcos, com os olhos marejados de lágrimas, balbuciou.
- Marcos, quando estávamos voltando, passamos na frente da Igreja da Candelária e lembrei-me de uma promessa que fiz há algum tempo; eu sou virgem, e prometi a Nossa Senhora, casar assim, me desculpe.
Ele olhou para ela, apenas passou-lhe as mãos, suavemente, nos cabelos:
- Não só desculpo como também peço desculpas, até agora tudo foi maravilhoso, você é uma mulher sensacional, não vamos estragar as coisas, vamos dormir, amanhã iremos a Ipanema. Você precisa se queimar, senão sua mãe não vai acreditar que esteve na casa de praia da amiga.
Deram um rápido beijo e dormiram, cada um em sua cama.
Na manhã ensolarada do domingo, após o desjejum, colocaram short e maiô e foram passear. A partir do Leme, percorreram a Avenida Atlântica, pararam para o primeiro banho de mar em frente ao Hotel Copacabana Palace, comeram alguns petiscos, conversaram sobre amenidades e trabalho, procurando esquecer a noite anterior, voltaram a andar de mãos dadas ou abraçados. Depois foram até o Forte de Copacabana e em seguida conheceram a praia de Ipanema, onde almoçaram num pequeno barzinho perto do mar. Eram 15 horas. Chegaram ao hotel, trocaram de roupa rapidamente. O vôo dela saiu às 17 horas, e a amiga com a qual, ela dissera a mãe, iria passar o fim de semana, estaria lhe esperando no aeroporto do Recife, para levá-la em casa. Marcos voltou para São Paulo na ponte aérea das 18 horas. No aeroporto, na hora do embarque dela, beijaram-se suavemente e disseram adeus. Voltaram a se encontrar no centro do Recife, vinte e três anos depois.

Carlos Alberto Melo

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