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Augusto de Sênior (Amauri Carius Ferreira)
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NAMORO A CAVALO (ÁLVARES DE AZEVEDO) - O HUMOR NA
Por: Augusto de Sênior (Amauri Carius Ferreira)

Eu moro em Catumbi. Mas a desgraça
Que rege minha vida malfadada
Pôs lá no fim da rua do Catete
A minha Dulcineia namorada.

Alugo (três mil réis) por uma tarde
Um cavalo de trote (que esparrela!)
Só para erguer meus olhos suspirando
A minha namorada na janela...

Todo o meu ordenado vai-se em flores
E em lindas folhas de papel bordado
Onde eu escrevo trêmulo, amoroso,
Algum verso bonito. . . mas furtado.

Morro pela menina, junto dela
Nem ouso suspirar de acanhamento. . .
Se ela quisesse eu acabava a história
Como toda a comédia—em casamento.

Ontem tinha chovido. . . que desgraça!
Eu ia a trote inglês ardendo em chama,
Mas lá vai senão quando uma carroça
Minhas roupas tafuis encheu de lama...

Eu não desanimei. Se Dom Quixote
No Rocinante erguendo a larga espada
Nunca voltou de medo, eu, mais valente,
Fui mesmo sujo ver a namorada. . .

Mas eis que no passar pelo sobrado
Onde habita nas lojas minha bela
Por ver-me tão lodoso ela irritada
Bateu-me sobre as ventas a janela...

O cavalo ignorante de namoros
Entre dentes tomou a bofetada,
Arrepia-se, pula, e dá-me um tombo
Com pernas para o ar, sobre a calçada. ..

Dei ao diabo os namoros. Escovado
Meu chapéu que sofrera no pagode
Dei de pernas corrido e cabisbaixo
E berrando de raiva como um bode.

Circunstância agravante. A calça inglesa
Rasgou-se no cair de meio a meio,
O sangue pelas ventas me corria
Em paga do amoroso devaneio!

(Obras, 1853. Lira dos vinte anos, 2ª parte)
___________________________________________________________


É um namoro, isto é, a estória de um namoro!

O jovem enamorado “vive” mil peripécias.

Apesar de todos os “desconcertos” o jovem não diz se é correspondido.

São quarenta versos (cada uma das linhas gráficas) divididos em dez estrofes (conjunto de versos).

São decassílabos (dez sílabas poéticas).
Vejamos a escansão (divisão em sílabas sonoras) da primeira estrofe:

“Eu-mo-roem-Ca-tum-bi-mas-a-des-gra-/-ça
Que-re-ge-mi-nha-vi-da-mal-fa-da-/-da
Pôs-lá-no-fim-da- ru-a-do-Ca-te-/te
A-mi-nha-Dul-ci-nei-a-na-mo-ra-/-da.”

O conjunto de rimas é o mesmo para todas as estrofes: o segundo verso rima com o quarto verso.

O jovem faz de tudo para ver a namorada: aluga um cavalo por três mil réis (Que fortuna!), gasta seu ordenado em flores, furta versos bonitos, sonha com o casamento, reclama que um dia fora ver a namorada e uma carroça jogara lama suas roupas bonitas, etc.

Além do Quixote sonhador não ter sido recebido pela “bela”, o cavalo, “ignorante de namoros”, jogou nosso herói de pernas para o ar sobre a calçada que, raivoso “como um bode” e calças rasgadas “meio a meio” não conseguiu ver a namorada.

Nas profundezas textuais podemos observar que o poeta faz analogia com o Quixote de Cervantes, mas, ao que parece, não realiza seu ato de amar, e volta para casa sonhador.


Augusto de Sênior.
(Amauri Carius Ferreira)









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